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Connect Cast · Jorge Pereira

Jorge Pereira, criador do Rio Heroes, conta como a polícia fechou o evento

Faixa-coral e aluno de Rickson Gracie, ele relembra o vale-tudo sem luvas, a luta com Matt Hughes e diz que o MMA acabou com a honra do lutador.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 1 dez 2022 (1:54:15).

Jorge Pereira passou quase duas horas no Connect Cast, direto de Miami, e a história que puxa todo o resto é a do Rio Heroes. Segundo ele, o evento nasceu em 2007 como um programa de internet de lutas sem luvas, sem regras e sem limite de tempo, montado numa sala em Osasco. Foram 14 edições até a polícia fechar a operação.

Assisti à conversa inteira e o que mais me chamou atenção foi o jeito dele. Faixa-coral, aluno de Rickson Gracie, ele fala de vale-tudo como quem fala de família. E não esconde nenhuma opinião, nem as que vão deixar muita gente brava.

O Rio Heroes e a homenagem a Carlos Gracie

Jorge contou que o projeto começou com um sócio americano, Jason, num site de esportes radicais. O nome tem duas partes: Rio porque ele é carioca, e Heroes em homenagem ao antigo programa Heróis do Ringue, do grande mestre Carlos Gracie. Segundo ele, era lá que João Alberto Barreto lutava toda segunda-feira para levantar o nome do jiu-jitsu, e nunca perdeu. Flávio Behring também lutou nesse programa, de acordo com o Jorge.

O evento era transmitido por satélite para uma base em Miami e de lá para o mundo. Jorge disse que era patrocinado por sites de apostas dos Estados Unidos, onde esse tipo de jogo é permitido. O problema começou quando imagens de um episódio piloto, que eram só para investidores, chegaram à TV Record. Segundo ele, a Record e a Folha de S.Paulo fizeram matérias muito negativas, e a polícia acabou fechando o evento sem conseguir provar nada.

O Rio Heroes não voltou por outro motivo. Anos depois, a história virou a série Rio Heroes, com Murilo Rosa no papel dele. Jorge diz que tem pedidos do mundo inteiro para trazer o evento de volta e que só falta um investidor.

Ele também fez questão de responder quem dizia que o Rio Heroes explorava lutador. Jorge afirma que pagava prêmio, seguro e até salário mensal para os campeões, e que Vitor Belfort foi um dos que criticaram o evento na época.

Da família Behring ao tatame de Rickson

Jorge começou no jiu-jitsu com a família Behring: Flávio, Marcelo e Sylvio. Foi Marcelo quem o levou para o Rickson. Segundo ele, perto da faixa azul o Rickson o chamou para a eliminatória de uma competição, ele lutou quatro vezes para pegar a vaga e se destacou com chave de braço na guarda. Dali em diante treinou com o Rickson até a faixa-preta.

Sobre o mestre, Jorge fala com uma admiração que dá gosto de ouvir. Contou que o Rickson dava voltas completas no treino, finalizando um atrás do outro, e que entre esses "todo mundo" estavam ele, Marcelo Behring e Sérgio Malibu.

“Tem posições que ele fazia antigamente que até hoje eu não consigo explicar como ele fez.”

Jorge Pereira, no Connect Cast · 0:35:19

Na opinião dele, o Rickson era o melhor de todos no vale-tudo daquela época. E, se Marcelo Behring estivesse vivo, seria o nome da luta. Jorge também contou que foi professor de Nino Schembri até a faixa azul. Os dois se desentenderam, o Nino foi para a Gracie Barra e lá, segundo ele, floresceu. Hoje voltaram a ser amigos, e Jorge admite que seria mais flexível se fosse agora.

A noite contra Matt Hughes

Jorge diz ter feito 14 lutas de vale-tudo e MMA, com 10 vitórias e 4 derrotas, todas as derrotas depois de ficar cego de um olho. Uma delas foi contra Matt Hughes, que ele chama de primeiro profissional de verdade que enfrentou. Ele tinha 36 anos, o americano 26. Foi chamado 15 dias antes, sem saber quem era o adversário, e foi sua primeira luta em cage.

Segundo o Jorge, ele achou que ia levar para o chão e pegar o braço. Não conseguiu. Contou que o Hughes defendeu a guilhotina e o levantou pelo trapézio. Com quatro minutos ele já estava cansado, e aí veio a frase que ele repete até hoje.

“Eu dei um sorriso e falei: hoje é um bom dia para morrer.”

Jorge Pereira, no Connect Cast · 0:21:41

A luta acabou no fim do round, com ele sem conseguir levantar a mão. Quem o carregou até o vestiário foi Marco Ruas, e lá dentro estavam Pelé e Babalu. Jorge disse que se sentia velho e deprimido, e que o Ruas, mesmo sendo de um lado rival, fez questão de levantá-lo.

“É por causa de você que essa galera aqui tá toda aqui.”

Marco Ruas, no Connect Cast · 0:34:15

Ele guardou outras lembranças do vale-tudo. Contou que foi campeão brasileiro em 1996, em São Paulo, lutando três vezes na mesma noite no absoluto, por 3 mil reais. Queria pegar Wanderlei Silva na final, mas o Wanderlei quebrou a mão. Disse também que o Pelé foi o adversário mais talentoso que já enfrentou.

Honra, dinheiro e o MMA

Aqui está a parte da conversa que mais rendeu discussão. Para o Jorge, o vale-tudo antigo nascia de desafio entre clãs, sem dinheiro, para provar que o jiu-jitsu Gracie era superior. O MMA, segundo ele, vende fama e dinheiro, e o lutador passou a treinar em qualquer equipe e a lutar contra quem o formou.

“Para mim o MMA foi a prostituição do atleta de arte marcial.”

Jorge Pereira, no Connect Cast · 0:42:12

Os apresentadores contestaram, falaram em saudosismo, e ele acabou ajustando a frase: o processo do MMA facilitou essa mudança em alguns atletas. Ele disse que se sente orgulhoso de sangrar e lembrou a frase que ficou famosa depois de uma final contra um paulista: para ele, o guerreiro de verdade transborda de honra quando sangra.

Jorge também falou das brigas que organizou longe do tatame. Contou que a luta entre Léo Dalla e Pedro Alberto aconteceu na casa dele, com Carlinhos Gracie de juiz, Renzo e Ralph do lado dele e o pessoal da Alliance, com Jacaré, do outro. Segundo ele, foram 48 minutos. Relembrou ainda o dia em que foi com o Renzo até uma roda de capoeira tirar satisfação depois que um amigo levou uma cabeçada. No fim, segundo ele, não teve briga.

O jiu-jitsu de ponto e a guarda como castelo

Hoje Jorge dá seis a sete aulas particulares por dia nos Estados Unidos e critica as regras que, segundo ele, tiraram o jiu-jitsu da defesa pessoal. Ele não colocou o filho no campeonato da IBJJF porque, até 15 anos, as crianças não podem fazer várias finalizações. E reclama de faixa-preta campeão mundial que não sabe reagir a um tapa na cara.

“A guarda é o portão do seu castelo.”

Jorge Pereira, no Connect Cast · 1:14:02

Ele contou que em 2008 lutou seu último Mundial, em Las Vegas, no peso de 100 kg. Ganhou a categoria e perdeu a final do absoluto para o amigo Jucão por uma vantagem. Segundo ele, o segredo era dominar a cabeça do adversário por cima, um fundamento que se perdeu. Para mostrar um exemplo, citou Paulão Filho, que ele considera o maior representante do jiu-jitsu no MMA da sua época.

O que fica da entrevista é um faixa-coral que se orgulha do olho cego e das cicatrizes. Jorge contou que recebeu a coral pela IBJJF em 2017 e que, no dia seguinte à gravação, receberia a vermelha e branca pela United States Brasil. Ele diz que cada grau foi pago no tatame e no ringue, e que hoje é amigo de quase todo mundo que enfrentou. Concordando ou não com ele, é um pedaço da história do vale-tudo contado por quem estava lá dentro.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.