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Escola Behring: a história da família Behring no jiu-jitsu

De Flávio, que começou aos 10 anos na casa de Hélio Gracie, ao neto Ian: três gerações de uma escola que nunca largou a defesa pessoal.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · atualizado em 30 set 2026 · 6 min de leitura

Fundação
Sem data de fundação nas entrevistas; Flávio Behring começou aos 10 anos na casa de Hélio Gracie e depois virou professor na academia
Onde
Rio de Janeiro
Fundadores
Flávio Behring, Sylvio Behring, Marcelo Behring

Quando se fala em família no jiu-jitsu, quase todo mundo pensa nos Gracie. Os Behring têm uma história paralela, de três gerações: Flávio, os filhos Sylvio e Marcelo, e o neto Ian. Juntei aqui o que eles contaram nas entrevistas e o que outros disseram sobre eles, sempre com o nome de quem falou.

Flávio Behring e a casa de Hélio Gracie

Segundo o Sylvio, o avô dele era amigo de Hélio Gracie e foi quem colocou o Flávio no jiu-jitsu. O Flávio contou que começou aos 10 anos, na academia que funcionava na casa do Hélio. Aos 13 ou 14, o Hélio o apresentou a João Alberto Barreto, pouco mais velho e já campeão. Foi ali, diz o Flávio, que o jiu-jitsu despertou de verdade. Anos depois, ele virou professor da academia no lugar do próprio João Alberto, o que chamou de honra.

Grande Mestre Hélio Gracie
Grande Mestre Hélio Gracie, onde Flávio Behring iniciou sua caminhada de mais de sete décadas no jiu-jitsu. (Domínio Público / Wikimedia Commons)

“A minha gratidão no jiu-jitsu está em dois estágios: o primeiro, o Hélio Gracie, que foi quem me acolheu na casa dele, e o outro foi o João Alberto, que me levou adiante.”

Flávio Behring, no Pura Connection · 1:03:56 · ler o artigo

O Carlos Rosado contou que o Hélio reservava o melhor do jiu-jitsu para a família e para gente muito próxima, e citou justamente o João Alberto e o Flávio. Fora do tatame, segundo o Sylvio, o pai trabalhava com marketing e foi quem trouxe o triatlo para o Brasil.

Sylvio e Marcelo, criados no confere

O Sylvio entrou no tatame em 1966, aos 4 anos, com o João Alberto. Ele contou que toda quinta-feira ia à casa do João Alberto, onde rolava um encontro de academias, e que cresceu ouvindo o pai conversar com os tios Alberto e Álvaro. Pegou a faixa-azul só aos 16, magrinho, e até a roxa competia todo dia, inclusive em casa com o irmão Marcelo, a quem trata como mestre. O Flávio contou que montou um sistema de condicionamento para os dois e para outros jovens na Barra da Tijuca.

O Sylvio pegou a faixa-preta em janeiro de 1984. Segundo ele, pouco depois o Marcelo, faixa-marrom e com 20 anos, enfrentou Flávio Molina no desafio contra a luta livre, e antes o pai o testou contra um segurança gigante numa salinha fechada. A data do evento muda conforme quem conta: o Pinduca fala em 1984 e o Eduardo Gavião em 1986. Em todas as versões, de Fábio Gurgel a Sergio Zveiter, o Marcelo venceu o Molina. Tem mais sobre isso em Pinduca x Marco Ruas e jiu-jitsu x luta livre. O Relson Gracie disse que o vale-tudo ficou uns 20 anos parado no Brasil e voltou com uma luta do Marcelo.

O Marcelo aparece em muitas outras entrevistas. Segundo o Sylvio, era ele quem convivia todo dia com Rickson Gracie. O Jorge Pereira começou com os Behring e contou que foi o Marcelo quem o levou para o Rickson. O Roberto Gordo lembrou que o Marcelo, que não escondia técnica de ninguém, o levou para treinar na academia do Carlson. Em São Paulo, o Fepa Lopes fez as primeiras aulas com ele em 1988, e o Fábio Gurgel disse que a relação com o Marcelo foi um dos motivos da sua mudança para a cidade.

O sistema progressivo

O Sylvio diz que o pai foi o mentor e que o professor de fato foi Álvaro Barreto. Nas aulas particulares, o Álvaro o chamava para ficar do lado, e foi observando o aquecimento dele que nasceu a ideia: começar longe do parceiro, chegar perto, até a guarda. Daí saiu o sistema progressivo, que segundo o Sylvio ensina do mais simples ao mais complexo, e o aluno só vê a variação depois de entender o básico.

“Todas as minhas aulas têm defesa pessoal, têm a parte de queda, têm a parte de chão, inclusive o pessoal da competição.”

Sylvio Behring, no Connect Cast · 1:05:48 · ler o artigo

A disciplina faz parte do pacote. O Sylvio contou que, onde não tem disciplina, ele não entra, e que nos seminários as regras são combinadas antes e quem erra paga flexão. O Muzio De Angelis disse que aprendeu com ele e com o Álvaro que o jiu-jitsu tem várias partes, incluindo luta em pé, luta no chão e defesa pessoal. O Flávio, por sua vez, contou que procurou um ortopedista para entender as articulações e encurtar o movimento de finalizações como a americana.

Do Rio para o mundo

Segundo o Sylvio, a saída começou em 1996, quando o canadense Bob McRoberts procurou o Flávio no Brasil e foi mandado para o filho. Gostou do método e levou o Sylvio ao Canadá. No começo, ele dormia no porão da academia, em cima do tatame, ou na casa de alunos. No mesmo ano, foi para Porto Alegre preparar um atleta para o Mundial e assumiu a equipe de Márcio Corleta, que ele considera o melhor atleta que teve. Dali saíram Fabrício Werdum e Mário Reis.

Os Estados Unidos vieram em 1999, a convite de Pedro Carvalho e depois de Pedro Sauer. Quando o Sylvio não podia viajar para lá, o Flávio assumiu os convites, e foi assim que ficou com um grupo em Porto Rico. O próprio Flávio contou que aprendeu inglês, espanhol e francês para dar seminários e que deu cursos para equipes de segurança de presídios na França. A Sylvio Behring Association nasceu quando a federação pediu uma marca para registrar o grupo. Segundo o Sylvio, a esposa, Adriana, propôs o modelo de franquia, e hoje são 75 academias, com filiados no Brasil, Uruguai, México, Estados Unidos, Canadá e Dubai.

A crítica ao jiu-jitsu de medalha

Pai e filho têm a mesma bronca, cada um no seu tom. O Sylvio divide a culpa com a própria geração.

“O que ficou para trás, a culpa é de muitos de nós da minha geração: a defesa pessoal.”

Sylvio Behring, no Connect Cast · 0:18:51 · ler o artigo

O Flávio vai mais longe e diz que nem assiste mais campeonato.

“Eu não posso conceber uma arte marcial em que duas pessoas começam a lutar sentadas.”

Flávio Behring, no Pura Connection · 0:18:26 · ler o artigo

Mesmo assim, o Sylvio não fecha a porta para o novo. Ele disse que o jiu-jitsu da família Gracie foi feito para as agressões comuns daquela época e que não aceitar evolução é atitude retrógrada. Sobre o American jiu-jitsu, a opinião dele é deixar rolar. Essa discussão tem página própria em o jiu-jitsu de competição esqueceu a defesa pessoal?

Ian Behring, a terceira geração

O Ian é neto do Flávio, filho do Sylvio e sobrinho do Marcelo, e contou que a mãe também é faixa-preta. Quando criança, achava os treinos do pai tensos demais e o jiu-jitsu não o atraía. Desde a faixa-azul, o Sylvio o colocava para receber alunos novos, e foi assim que começou a ensinar. Hoje ele tem um estúdio pequeno, com no máximo oito pessoas por aula, a maioria acima dos 40 anos, e não trabalha com competidores. O método dele segue um programa de 12 meses, com um tema por mês, como o mês da montada.

“O cara da minha escola, para pegar a próxima faixa, prepara uma aula e dá essa aula. Tudo é filmado, registrado.”

Ian Behring, no Connect Cast · 1:05:27 · ler o artigo

Ele disse que tirou a ideia das apresentações de técnica que o pai sempre fazia. Dá para ler mais em a entrevista do Ian, a do Sylvio sobre o Canadá e a do Flávio sobre defesa pessoal.

O que foi contado

Esta página junta o que foi dito em várias entrevistas. Cada afirmação é de quem a disse e leva ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.