Connect Cast · Ian Behring
Ian Behring revela o método da escola Behring de jiu-jitsu sem competidor
Neto de Flávio e filho de Sylvio Behring, ele montou um programa de 12 meses para adultos de mais de 40 anos e faz o aluno dar uma aula para trocar de faixa.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 21 abr 2022 (1:46:15).
Ian Behring nasceu dentro do jiu-jitsu. É neto do grande mestre Flávio Behring, filho de Sylvio Behring e sobrinho de Marcelo Behring. A mãe dele também é faixa-preta. Mesmo assim, no podcast Connect Cast, ele contou que decidiu tirar a competição da sua escola e montar um método próprio, pensado para o adulto comum que trabalha no dia seguinte.
Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi a clareza com que ele fala do próprio público. Segundo o Ian, que estava com 34 anos na gravação, a maioria dos alunos tem mais de 40. É gente com família, com emprego, com dor no ombro, na lombar, na cervical. Gente que quer qualidade de vida e não quer sair machucada do treino.
“O jiu-jitsu é uma ferramenta. Quem realmente molda o ser humano é um outro ser humano.”
Ian Behring, no Connect Cast · 0:13:14
O filho do mestre que não gostava de treinar
O Ian contou que, quando criança, ia aos treinos do pai e não se sentia à vontade. O Sylvio dava aula para campeões mundiais como Márcio Corleta, Mário Reis e Fabrício Werdum, e o ambiente, segundo ele, era tenso e intenso demais para um menino pequeno. Ninguém ia ali brincar com o filho do Sylvio.
A virada veio aos 15 anos. Ele contou que se envolveu num confronto na rua, à noite, e não conseguiu usar nenhuma técnica que tinha aprendido com o pai. Não se machucou, um amigo o tirou dali, mas naquele momento percebeu que estava jogando fora a chance de ser filho de um dos professores mais renomados do mundo. Ligou para o pai, que estava no Rio, e começou a treinar por vontade própria.
“Eu nunca mais fiquei sem estar dentro de uma academia por mais de três dias.”
Ian Behring, no Connect Cast · 0:07:26
Segundo o Ian, ele levou nove anos para chegar à faixa-preta e já estava havia nove anos na preta quando gravou o episódio. Desde a faixa azul, o pai o colocava para receber alunos novos e reciclar graduados que estavam parados. Foi aí que começou a ensinar, primeiro repetindo o que o Sylvio mandava.
A pergunta da esposa que mudou tudo
O método nasceu de uma provocação em casa. A esposa do Ian, professora de ciências atuariais na UFRGS, fazia doutorado e cursava uma matéria de metodologia. Segundo ele, um dia ela disse que ele não tinha metodologia de ensino. Ele achou um absurdo, porque tinha resultado com os alunos. Aí ela começou a perguntar: o aluno sabe onde está? Sabe o que precisa aprender naquele estágio? Sabe quando está pronto para a próxima faixa?
Ele percebeu que não tinha resposta e foi estudar. O Ian citou a taxonomia de Bloom, uma escala de aprendizado que vai de lembrar a compreender, aplicar, analisar, avaliar e, por fim, criar. No tatame, ele explicou assim: primeiro o aluno lembra como é o estrangulamento da guarda fechada, depois entende para que serve, tenta aplicar num parceiro que defende, analisa onde erra e, no fim, cria o próprio jogo. Ele também citou a teoria das inteligências múltiplas para entender o jeito de cada aluno.
Hoje a escola tem um programa de 12 meses, com um tema por mês e aulas semanais amarradas umas nas outras. Quem entra em junho pega o mês da montada, por exemplo, e vai ouvir referências do que a turma viu de janeiro a maio. Segundo o Ian, ele programou o ano inteiro de 2022 depois de corrigir o que não funcionou no ano anterior.
Para trocar de faixa, o aluno dá uma aula
A parte que eu mais gostei foi a da graduação. O Ian compara as faixas com as fases da vida: o faixa-branca é um recém-nascido, que só tem força bruta; o azul é a criança que já sabe falar a língua do jiu-jitsu; o roxa é o adolescente que começa a entender o próprio corpo e o próprio jogo; o marrom é o jovem adulto que já escolheu a profissão. Por isso, segundo ele, quando recebe um aluno mais velho, já o trata como um faixa-preta da vida, que precisa começar do zero no tatame e deixar a vaidade na porta.
Para pegar a próxima faixa, o aluno prepara e dá uma aula, com critérios e tempo definidos. Tudo é filmado. O Ian contou que se inspirou no pai, que sempre fazia apresentações de técnicas numa linha de raciocínio, e disse que gostaria de ter todas elas gravadas. Na entrega da faixa, ele repete sempre a mesma frase ao aluno.
“Toda vez que você vestir essa faixa e amarrar, lembre-se de que você é muito melhor do que quando entrou aqui e botou aquela faixa branca.”
Ian Behring, no Connect Cast · 1:08:34
Ele estima que, nesse método, alguém leve de seis a sete anos da branca à preta. Mas foi honesto: ainda não formou nenhum aluno da branca até a preta, então não sabe dizer com certeza.
Estúdio pequeno e nada de competidor
O espaço do Ian atende no máximo oito pessoas por aula, em grupos semiparticulares, além de aulas individuais. Segundo ele, são nove horários por semana, contando dois de criança, e a mensalidade gira em torno de 300 reais. Ele disse que a aula particular nem é bom negócio para ele, porque ocupa uma hora em que poderia atender oito alunos.
O apresentador lembrou uma conversa com Murilo Bustamante, que contou ter vindo de uma academia onde a seleção natural era diária e só os duros ficavam. O Ian concordou que isso funciona para formar competidor, mas disse que já recebeu vários alunos que saíram machucados e assustados de outras academias da região. Ele contou que, em algum momento, foi empurrado a competir, não gostava, e mesmo assim reconhece que aquilo o ensinou a lidar com a adversidade.
“Eu não trabalho com competidor porque eu escolhi trabalhar com alguém que vai dar o futuro da minha empresa, da minha família.”
Ian Behring, no Connect Cast · 1:28:22
Ele também contou que fez o curso de Fábio Gurgel, a quem o apresentador comparou pela pegada empreendedora, e que o próximo passo é um programa para ensinar outros professores de jiu-jitsu a aplicar o método e a tocar a academia como empresa, com ou sem bandeira de equipe.
Anderson Silva, México e um nocaute
No fim da conversa, o Ian contou histórias fora do método. Disse que já rolou de kimono com Anderson Silva e que esse treino virou um dos vídeos mais vistos do canal dele no YouTube, com ele apanhando o tempo todo. Segundo o Ian, o tamanho do braço e da perna do Anderson é algo que a gente não percebe pela televisão.
Ele também morou seis meses em Villahermosa, no México, onde foi o responsável pelo jiu-jitsu de uma academia Black House. Lá treinou muay thai, quebrou um dedo na cabeça de um mexicano e ainda levou um nocaute num treino. Contou que acordou sem lembrar se já tinha dado a aula das crianças daquele dia. Mesmo com tudo isso, disse que o MMA nunca foi a praia dele.
Para explicar resiliência em palestras para empresas, o Ian usa o exemplo da luta entre Anderson e Chael Sonnen, em que o Anderson apanhou a luta inteira e venceu com um triângulo no final. Para ele, é a imagem perfeita de esperar a hora certa mesmo quando dói.
O que fica da conversa
Saí do episódio com a sensação de que o Ian carrega o sobrenome Behring de um jeito próprio. Ele respeita a escola do pai, chama o Sylvio de mestre, mas escolheu outro público e outra forma de ensinar. A ideia central dele é simples: quem faz a diferença é o professor, com os valores dele e o jeito de ensinar. E, para ele, esse jiu-jitsu cabe em qualquer pessoa que queira experimentar, desde que seja feito do jeito certo.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.