Pura Connection · Rosado, Carlos Massa Rosado
Rosado conta como era o escolhido de Carlson Gracie para os conferes
O único faixa-vermelha amarrado por Carlson e o filho Massa lembram a academia da Figueira de Magalhães, as lutas e o mestre fora do tatame.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 26 ago 2024 (1:47:23).
Quando alguém de outra academia aparecia na Figueira de Magalhães para medir forças, Carlson Gracie já sabia quem ia chamar. Segundo Carlos Rosado, o recado vinha na véspera: "Rosado, vem aqui amanhã porque vem um cara aí e eu quero que você pegue ele". Era ele o linha de frente do mestre.
Assisti à conversa do Rosado com o filho, Carlos Massa Rosado, no Pura Connection, e o que mais me marcou foi o jeito como os dois falam do Carlson. Tem luta, tem confere, tem chave de pé que quase virou briga, mas o que sobra no fim é o retrato de um mestre que, nas palavras do Rosado, dava coragem a quem estava perto dele.
O Rosado diz que não gosta de se promover e que quase não aceita convite para entrevista. Foi a mulher e o filho que insistiram. Mesmo assim, ele faz questão de citar o que considera a maior honra da vida: ter recebido do Carlson a única faixa-vermelha que o mestre amarrou na cintura de alguém.
Sessenta anos desde a primeira aula
O começo foi na plateia. O Rosado conta que tinha uns 10 anos quando foi com o cunhado ver uma luta de vale-tudo do Carlson contra um grandalhão da Aeronáutica, o King Kong. Achou que o magrinho ia morrer. O Carlson chutou a mesma perna várias vezes, o outro caiu, e ele montou e finalizou. Depois o Rosado ainda viu outra vitória rápida do Carlson no Maracanãzinho.
Na época ele fazia judô, mas não se sentia bem: era alto e magro, e os adversários do mesmo peso pareciam sempre mais fortes. Com uns 14 para 15 anos, subiu na academia onde davam aula Robson e o próprio Carlson. Treinou também com Ivan Gomes, quando o Carlson tinha academia com ele na Toneleiros, e depois se fixou na Figueira de Magalhães. Segundo ele, é hoje o aluno vivo mais antigo do Carlson. Os que começaram antes, como Sérgio Iris, já morreram.
Quem chegou depois dele foi uma lista de peso: Pinduca, Peixotinho, Amaury Bitetti e muitos outros. O Rosado conta que já se chateou quando alguém esquecia o nome dele ao listar os casca-grossa da academia, e que ele mesmo esqueceu gente numa live. Da vez seguinte, escreveu uns 30 nomes num papel.
Ele lembra também que treinou lá até os 55, 57 anos, quando o Carlson foi para os Estados Unidos. Com 55, rolava com Libório, que tinha 35. Segundo o Rosado, foi ele quem levou o Libório para o jiu-jitsu, e o Libório conta por aí que aprendeu com ele o heel hook.
“Lá no Carlson era como a natação americana: você era o melhor numa fase, mas pegava uma gripe e o segundo já passava a ser o melhor.”
Rosado, no Pura Connection · 0:08:09
Confere era luta
Naquele tempo, segundo o Rosado, havia poucos campeonatos e muito confere. E confere, ele faz questão de dizer, é luta. Se o cara vem de outra academia para ver o seu nível, você está defendendo a casa.
Ele conta um caso com Reylson Gracie, que levou um visitante menor que ele para um confere. O Carlson pediu para pegar leve. O visitante veio como um pitbull, e o Rosado, respeitando a ordem, segurou a mão. Quando acabou, reclamou com o mestre e pediu para repetir. Na segunda vez, jogou o jogo inteiro.
Cada um tinha um papel na academia. Pinduca e De La Riva eram os competidores. O Rosado era o escolhido para os visitantes, em parte porque o diabetes tipo 1, que ele tem há 48 anos, atrapalhava os campeonatos de antigamente, em que se chegava às 8 da manhã para lutar às 4 da tarde. Hoje, perto dos 76 anos, ele diz que se sente um garoto.
Tem também a chave de pé. Quando mudou de categoria, o Rosado soube que o adversário da estreia era um especialista em armlock que tinha vencido os últimos três campeonatos. Passou um mês repetindo cerca de 100 chaves de pé por dia e finalizou o cara em 18 segundos. A torcida adversária, segundo ele, queria bater nele, dizendo que era golpe de subúrbio.
“Eu treinei o meu jiu-jitsu para ganhar de caras melhores do que eu.”
Rosado, no Pura Connection · 1:42:37
O filho que cresceu na academia do Carlson
O Massa começou no jiu-jitsu aos 2 anos. Chegou à academia do Carlson em 1980 e ficou até o mestre ir para Chicago. Competiu pela Carlson Gracie até os 17 e, segundo ele, nunca perdeu em campeonato. Treinava sete, oito horas por dia, das três da tarde às dez da noite. Aos 13, começou a dar aula com o pai, quando abriram a Rosado Jiu-Jitsu.
Ele admite o peso de ser filho do melhor lutador da academia. Pedia ao professor que desse bronca nele como em qualquer outro, porque, se o filho do Rosado fizesse besteira, os outros meninos iam copiar. Nos campeonatos, se escondia de capuz para fugir do burburinho de "o Rosadinho vai lutar".
Duas histórias com o Carlson ficaram. Numa, aos 15 anos, a caminho de uma competição, o mestre o chamou, ensinou um triângulo sem braço e mandou seguir viagem. O Massa ganhou a final com aquele golpe. Quando voltou para contar, o Carlson respondeu que já sabia. Na outra, o Massa machucou o ombro dias antes de uma final, e o médico disse que o braço estava pendurado. O Carlson mandou não contar para ninguém e garantiu que ele ia ganhar. O pai amarrou o braço por dentro do kimono, e o Massa venceu com um estrangulamento em pé.
“Se eu entrasse com a cabeça de que estava machucado, eu já tinha perdido a luta.”
Carlos Massa Rosado, no Pura Connection · 1:13:17
O Carlson fora do tatame
A parte que eu mais gostei é o Carlson de fora do tatame. Segundo o Rosado, o mestre não visava lucro. O dono do prédio treinava lá, não havia aluguel, e ele se permitia não cobrar mensalidade. O Rosado conta que quis pagar a do Massa e ouviu um não.
Ele diz ainda que, quando um aluno precisava de passaporte, dentista ou qualquer ajuda, o Carlson pegava o telefone na hora e resolvia, sem promessa. Se você o convidava para ir à sua casa, chegava com dez pessoas. Era divertido, jogava baralho com 30 pessoas na mesa e adorava testar os amigos com palavras difíceis do dicionário.
O Rosado também conta um episódio que ele testemunhou com Marco Ruas. Ele levou o Ruas para treinar com o Carlson, que elogiou o potencial dele, mas recusou o aluno porque o Ruas tinha dito que queria enfrentar o Rickson. Segundo o Rosado, o Carlson pediu que ele voltasse depois, mas o Ruas foi treinar com Osvaldo Alves. Na leitura do Rosado, o Carlson foi quem abriu o jiu-jitsu para gente de fora do núcleo de Hélio Gracie.
O Massa lembra de outra lição de corner. Segundo ele, o Carlson dizia que, na hora de orientar o aluno, olhava para o adversário, e gritava como se ele mesmo estivesse lutando.
Sete faixas-pretas em mais de 30 anos
Pai e filho deram aula juntos por 33 anos. Hoje o Massa cuida das aulas particulares na unidade de Ipanema, e o Rosado das turmas em Copacabana, com a mesma marca. O Rosado diz que em mais de 30 anos de aula deu só sete faixas-pretas, e que não tem dia de graduação: acompanha cada aluno e escolhe o momento. O primeiro faixa-preta foi o primo, Marcelo Maia, que hoje passa dos 70.
Saí da conversa com a certeza de que a história do Carlson Gracie ainda tem muita coisa guardada em gente como o Rosado. Ele fecha dizendo que sempre poupou quem venceu e nunca se preocupou em contar vitória. Faz sentido que o escolhido para defender a academia seja justamente o que menos gosta de falar de si.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.