Connect Cast · Sylvio Behring
Sylvio Behring diz que a medalha afastou o jiu-jitsu da defesa pessoal
O faixa-coral que formou Werdum fala do irmão Marcelo, do vale-tudo que nunca quis lutar e do que a geração dele deixou para trás.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 21 mar 2022 (1:35:28).
Com 56 anos de tatame e prestes a fazer 60, o faixa-coral Sylvio Behring tem uma crítica dura para a própria geração. Segundo ele, o jiu-jitsu evoluiu muito como esporte, mas deixou a defesa pessoal pelo caminho. E a culpa, na opinião dele, é de muitos professores da época dele.
“A preguiça e a ambição da medalha tiraram do prumo um monte de gente que tinha uma boa defesa pessoal.”
Sylvio Behring, no Connect Cast · 0:19:52
Assisti à conversa inteira dele no Connect Cast. O Sylvio fala da infância como filho de faixa-preta, do irmão Marcelo, dos treinos com Anderson Silva, da viagem com Fabrício Werdum até a Croácia e de um método de segurança que ele criou depois dos 48 anos. O fio que amarra tudo é uma ideia que ele repete várias vezes: o jiu-jitsu é uma luta antes de ser um esporte de competição.
Criado no confere
O Sylvio contou que filho de faixa-preta não tinha recreação. Desde pequeno ele ia toda quinta-feira à casa de João Alberto Barreto, onde rolava um encontro de academias, e o treino era sempre no ritmo de competição. É o famoso confere, que muita gente que aprendeu jiu-jitsu no Rio conhece bem. Ninguém queria abrir o jogo, porque ninguém queria sair amassado.
Magrinho, ele pegou a faixa-azul com 16 anos e diz que cresceu sobrevivendo. Em casa a disputa continuava. Segundo ele, até a faixa-roxa competia todo dia, inclusive com o irmão Marcelo, um garoto destemido que não dava moleza. O Sylvio trata o Marcelo como mestre e admite que apanhou muito dele.
Os dois foram contemporâneos de Rickson Gracie e viveram a época das brigas de rua e da rivalidade entre jiu-jitsu e luta livre. Segundo o Sylvio, quem convivia com o Rickson todo dia era o Marcelo. Ele próprio pegou a faixa-preta em janeiro de 1984. Pouco depois, o Marcelo, ainda faixa-marrom e com 20 anos, enfrentou Flávio Molina num desafio de vale-tudo.
O vale-tudo que ele nunca quis lutar
Mesmo no meio dessa turma, o Sylvio nunca teve vontade de lutar vale-tudo. O que o incomodava, segundo ele, era jogar o nome de uma arte inteira nas costas de um lutador só. Nas mãos do Rickson, tudo bem. Mas ele conta que às vezes essa responsabilidade caía em caras muito bons de briga que não tinham perfil para carregá-la.
“Você não pode colocar uma instituição nas costas de alguém.”
Sylvio Behring, no Connect Cast · 0:08:25
Ele diz que brigou muitas vezes na vida para defender a família e a si mesmo, mas a disputa de vale-tudo nunca o seduziu. O treino, por outro lado, ele adorava. E contou uma história ótima da preparação do Marcelo para a luta com o Molina. O pai deles, que pesava 100 kg, chamou um segurança gigante que trabalhava nas corridas de rua que ele organizava, fechou os dois numa salinha e mandou brigar. Segundo o Sylvio, o Marcelo bateu tanto que o homem pediu para parar.
Outra revelação: o Marcelo e Cássio Cardoso, que eram rivais naquela época, treinavam escondidos. O Sylvio também lembrou de Rolls Gracie como um visionário que gostava de chute, cotovelada e de brincar com regras diferentes só para ver no que dava.
Onde ficou a defesa pessoal
Aqui o Sylvio fica sério. Pra ele, o jiu-jitsu evoluiu muito, mas o que ficou para trás foi a defesa pessoal. Ele explica que dar aula de defesa pessoal do jeito certo dói, tem risco até para o instrutor. Aula esportiva cansa menos e machuca menos. Segundo ele, a defesa pessoal que os Gracie desenvolveram foi feita para o cara vencer o leigo de forma incontestável, e isso exige treino com agressão de verdade.
Na escola dele, contou, o aluno pega um leigo forte que acabou de chegar, deixa ele agarrar a cabeça e tem que se virar. Foi assim, segundo o Sylvio, que a geração dele aprendeu a achar saída usando os fundamentos.
“O cara que não sabe sair da gravata não podia ser faixa-preta.”
Sylvio Behring, no Connect Cast · 0:24:37
Isso não o torna inimigo das técnicas novas. Ele diz que faixa-preta que hoje não sabe berimbolo não acompanhou a evolução, e que a gente tem que se divertir com a técnica. A crítica dele é para o faixa-branca que chega à academia querendo aprender só isso e esquece que o jiu-jitsu serve para se defender na rua.
Meia-guarda, guarda puxada e combatividade
O Sylvio tem opinião forte sobre regra. Ele contou que alguém lhe disse uma vez que meia-guarda não existe, e que ele levou uns seis meses para entender. Hoje concorda: pra ele, meia-guarda é uma guarda que não foi passada nem recuperada por inteiro, e só virou posição própria quando a regra passou a dar vantagem por ela.
“Meia-guarda não existe. A gente inventou quando deu uma vantagem para esse negócio.”
Sylvio Behring, no Connect Cast · 0:26:46
Sobre puxar para a guarda, ele diz que participou da escrita das regras de grappling e que puxar a guarda não deveria render ponto negativo. Ele mesmo venceu lutas puxando, quando sabia que o adversário era mais fraco no chão. Punição, na visão dele, só para quem fica passivo, seja por cima ou por baixo. Por isso ele preferia a época em que o árbitro marcava combatividade: quem busca a finalização deveria vencer quem só quase passou a guarda.
Faixa-preta de judô também, ele contou que aprendeu mais chão com o sensei do que imaginava. Um dia o professor pediu 17 ataques a partir dos quatro apoios. O Sylvio sabia fazer uns sete ou oito.
Werdum, Anderson e Cro Cop
A mudança para o Sul começou com um convite de Márcio Corleta para assumir a equipe dele em Porto Alegre. O Sylvio chama o Corleta de melhor atleta que já teve e diz que foi ele quem produziu o Werdum. Da mesma leva saíram nomes como Mário Reis e Guto Campos.
Sobre o Werdum, ele lembra do primeiro treino: um grandalhão muito habilidoso, que cometia erros bobos mas tinha uma vontade enorme. Chegou a ser nocauteado tentando um armlock voador, segundo o Sylvio. Depois, foi o Werdum quem o levou para a Croácia, onde ele ajudou na preparação do próprio Werdum e de Mirko Cro Cop. Ele conta que o Cro Cop parou uma picape no meio do trânsito de Zagreb só para cumprimentá-lo. E que, dias antes de lutar no Japão, o Werdum pegou uma amigdalite tão forte que não conseguia engolir, até o médico do Cro Cop resolver o problema.
Do Anderson Silva, que ele viu chegar e se firmar numa equipe cheia de talento, o Sylvio fala com admiração. Um cara estudioso, que procurava ideias até no videogame e parava o próprio treino para ensinar quem estava com dificuldade.
“Chega antes, sai depois de todo mundo.”
Sylvio Behring, no Connect Cast · 0:46:54
O que ele quer deixar
Todos esses alunos, segundo o Sylvio, são fruto do sistema progressivo, o método que ele montou indo do mais simples ao mais complexo, de longe para perto. Ele garante que nunca deu uma aula sem defesa pessoal, nem para a turma de competição. Hoje mora em Porto Alegre e tem filiados no Brasil, no Uruguai, no México, nos Estados Unidos, no Canadá e em Dubai.
Aos 48 anos ele criou outro trabalho, o Gerenciamento Progressivo de Comportamento Inconveniente, com o sócio Elder Andrade. A ideia surgiu, contou, depois de um caso de 2006 que o fez pensar em legítima defesa. Segundo ele, para quem é lutador a lei pesa mais, e usar o que sabe pode virar agravante. O método aposta em conversar e controlar a adrenalina antes de partir para a força, e hoje é usado, segundo ele, pela Polícia Rodoviária Federal e por equipes de segurança privada.
O que fica da entrevista é a imagem de um mestre que ainda está aprendendo. Ele contou que dizia ter a missão de transmitir o que recebeu e fazer o jiu-jitsu melhor. Até que ouviu uma correção de um amigo e mudou a frase.
“Não dá para fazer o jiu-jitsu melhor. Dá para entender o jiu-jitsu melhor.”
Sylvio Behring, no Connect Cast · 0:11:03
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.