Pura Connection · Sylvio Behring
Sylvio Behring relembra a era das brigas do jiu-jitsu e a luta que lamenta
O mestre, que entrou no tatame aos 4 anos, fala das primeiras regras, da reativação da federação do Rio e do que o jiu-jitsu perde quando vira só competição.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 22 mai 2020 (1:32:33).
Sylvio Behring saiu da academia, anos atrás, com a namorada e um aluno faixa-amarela que ia se pesar para um campeonato. Um carro com cinco homens passou mexendo com ela. Ele não deixou barato: o carro parou, os cinco desceram, ele machucou dois e os outros fugiram. Foi aplaudido pelos porteiros da rua. E hoje, segundo ele, se pudesse voltar atrás, não faria.
“Se eu pudesse voltar atrás, não faria. O dano causado não corresponde ao perigo que ocorria.”
Sylvio Behring, no Pura Connection · 0:26:28
Essa história aparece no meio de uma conversa longa no Pura Connection, gravada no começo da pandemia, em que o Sylvio passeia pelas primeiras regras de competição, pela época em que o jiu-jitsu ganhou fama de briga e pelo que ele acha que o esporte deixa de lado quando olha só para medalha. Assisti com atenção porque ele é daqueles mestres que cresceram ouvindo a história de dentro.
Criado entre os mestres
O Sylvio se considera da terceira geração do jiu-jitsu. Ele contou que entrou no tatame aos 4 anos, com João Alberto Barreto, e que cresceu ouvindo o pai, Flávio Behring, conversar com os outros mestres. Para ele eram todos tios: o tio Alberto, o tio Álvaro. As histórias, a criação das regras e os primeiros campeonatos ele ouviu dali, sentado na sala.
Sobre a origem do jiu-jitsu no Brasil, ele diz que a história está sendo revista com mais pesquisa. Segundo o Sylvio, a Marinha brasileira teria trazido o jiu-jitsu japonês antes de todo mundo, mas quem vem da escola Gracie segue a linhagem de Carlos e Hélio Gracie, e ninguém teve o alcance que a família teve. Ele diz que o Hélio foi o grande campeão da família e virou herói para todos. E elogia o trabalho de Pedro Valente, de quem é amigo desde a escola, como pesquisador dessa história.
Ele deixou um recado para quem dá aula.
“Não contem a história que não sabem.”
Sylvio Behring, no Pura Connection · 0:07:32
As primeiras regras e a federação parada
O Sylvio lembra que a arbitragem dos primeiros campeonatos era voluntária e que as regras tinham um sentido educativo: a pontuação subia de dois para três e para quatro conforme a posição ficava mais dominante. Segundo ele, as vantagens de hoje não existiam: quem mostrava iniciativa ganhava uma anotação num papelzinho. As lutas de faixa-preta eram de cinco minutos e depois passaram a dez.
Ele também conta que, por muitos anos, a única entidade que funcionava era uma liga de Niterói, enquanto a federação do Rio ficava parada. Segundo o Sylvio, o mestre Álvaro Barreto conseguiu, por meio de Manoel Gomes Tubino, que ela fosse revista e reativada, com a participação de Robson Gracie. Vieram então reuniões de arbitragem toda quarta-feira, em que se discutia muito e, nas palavras dele, só não saía na mão. Uma das mudanças que ele critica foi a do joelho na barriga, que quebrou a ordem lógica entre passar a guarda, pôr o joelho e montar.
A época do pitbull
Nos anos 1990, contou o Sylvio, veio o grande boom do jiu-jitsu e junto veio a banalização. Tinha muita gente ensinando sem preparo e briga em toda festa. Ele diz que foi educado para não levar desaforo para casa, mas que nunca gostou de briga e que era o freio de mão da turma. O pior, na visão dele, foi que os professores da época se calaram.
“Nós perdemos a credibilidade de dar aula para criança.”
Sylvio Behring, no Pura Connection · 0:23:15
Ele reconhece que muitos daqueles brigões viraram grandes professores e que parte deles se arrepende de coisas daquela época, como ele. E lembra que o MMA acabou dando direção a esses garotos, que se identificavam com mestres que tinham lutado vale-tudo.
Do Rio para Zurique, Canadá e Porto Rico
Segundo o Sylvio, ele começou a dar aula fora do Brasil com regularidade em 1996, primeiro em Zurique e depois no Canadá. Em 1999 foi aos Estados Unidos a convite de Pedro Carvalho e, depois, de Pedro Sauer, viajando junto com o mestre Álvaro. Dali nasceu um grupinho que, segundo ele, hoje é grande.
A história de Porto Rico é boa. Um aluno de lá comprou uma série de vídeos que o Sylvio tinha gravado com Pedro Carvalho e passou a usar uma armadilha de raspagem que estava num deles. Pediu ajuda por e-mail antes de um campeonato, o Sylvio montou a estratégia digitando para ele, e o aluno ganhou. Depois veio o convite formal para ir até lá. Ele não pôde ir, contou, e quem foi no lugar dele foi o pai. Os porto-riquenhos gostaram tanto que ficaram com o Flávio até hoje.
A vitrine e a loja
O Sylvio conta que chegou a ter 250 alunos, com turmas de 90, numa escola competitiva. Hoje ele defende o que chama de sistema progressivo de jiu-jitsu: ensinar do mais simples ao mais complexo, sem passar à variação antes de o aluno entender o movimento básico. O rola, diz ele, é indispensável, porque é o jogo que diverte e põe a técnica à prova. Só que o esporte mostra uma parte pequena do que o jiu-jitsu tem.
“A parte esportiva é a vitrine da loja.”
Sylvio Behring, no Pura Connection · 0:53:12
Na comparação dele, quem para na vitrine sai com a roupa que está exposta e nunca descobre o tamanho da loja. Ele fala do confere antigo, em que o professor punha o aluno numa posição específica e interrompia quando o que ele fazia não tinha sentido técnico. E conta um exercício que usa: joga duas faquinhas de madeira no chão e avisa que quem pegar pode atacar os outros. Quem for pego desatento, de mão na cintura ou braço cruzado, paga flexão.
Sobre a pandemia, o recado dele aos professores que reúne pelo mundo foi direto: não era hora de pensar em ganhar dinheiro. Pediu que renegociassem preços, ligassem para os alunos sumidos e cuidassem de quem estava perdendo emprego. Para mim, que dou aula, é isso que fica da conversa: o Sylvio olha para o jiu-jitsu como uma ferramenta que serve para muito mais coisa do que ganhar campeonato, e que exige do professor responsabilidade com o que ensina.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.