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Pura Connection · Sylvio Behring

Sylvio Behring conta como levou o jiu-jitsu ao Canadá dormindo no tatame

Deportação dos Estados Unidos, o sistema progressivo e um susto numa banheira quente: o mestre abre o jogo em inglês.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 4 jan 2024 (1:17:46).

Em 1996, Sylvio Behring desembarcou no Canadá para ensinar jiu-jitsu sem dinheiro para hotel. Segundo ele, dormia no porão da academia, em cima do tatame, ou na casa de algum aluno, e precisava ficar duas ou três semanas para juntar umas centenas de dólares. Quase trinta anos depois, a associação dele tem dezenas de academias pelo mundo.

Assisti à conversa no Pura Connection, a primeira que o Sylvio gravou em inglês, e o que mais me chamou atenção foi a sinceridade com que ele conta o lado difícil. Tem deportação, visto de uma semana, um susto que quase acabou em ambulância e a confissão de que ele nunca foi bom de negócio. E tem, claro, a explicação de onde saiu o sistema que ele ensina até hoje.

O motivo de falar em inglês, segundo ele, é simples: os alunos do Canadá, dos Estados Unidos, do Oriente Médio e da África não entendem nada do que ele grava em português.

Do Winnipeg a Toronto, com os caratecas

A porta de entrada foi um canadense chamado Bob McRoberts, de Winnipeg. O Sylvio conta que, naquela época, todo mundo vinha ao Brasil atrás do jiu-jitsu. Bob ouviu falar de Flávio Behring, pai do Sylvio, foi até ele e acabou mandado para o filho. Chegou no meio do verão com um grupo de faixas-azuis canadenses, caras duros e bons de briga, mas, nas palavras do Sylvio, sem base nenhuma.

Gostaram tanto do jeito dele de ensinar que o levaram para o Canadá. De lá ele foi para Toronto, onde conheceu um campeão mundial de caratê que ainda era faixa-branca. O Sylvio decidiu começar pela defesa pessoal, sem precisar bater em ninguém para provar nada: se você cair no chão, como se levanta? Ninguém sabia. Ele mostrava como levantar, manter distância e, se o outro chegasse perto, como jogar de guarda.

Com os caratecas, contou, o método progressivo encaixou porque parecia um kata, um passo depois do outro. O começo, ainda assim, foi duro. Ele lembra dos invernos canadenses, de aprender na marra que se vestir demais faz suar e congelar, e de uma relação com os alunos que era frágil, sem garantia de quanto ia entrar no fim do mês.

Dez anos longe dos Estados Unidos

Os Estados Unidos vieram em 1999. Em 2000, segundo o próprio Sylvio, ele foi barrado no aeroporto porque vinha trabalhando lá de forma ilegal. No ano seguinte veio o 11 de setembro, e quem tinha qualquer problema com a imigração ficou sem chance de visto. Ele só voltou em 2010.

Nesse intervalo, contou, até convites do Anderson, que treinava com ele na X-Gym, esbarraram no visto. O caminho de volta foi uma carta do Comitê Olímpico Brasileiro pedindo ao consulado um visto de técnico da seleção de grappling. Saiu um visto de uma semana só. Ele entrou, cumpriu o prazo, voltou ao Brasil e pediu outro, que saiu sem problema. Quando chegou, tinha seis faixas-marrons esperando exame para a preta.

Enquanto o filho não podia viajar, o pai assumiu. O Sylvio conta, rindo, que passava os convites para o Flávio e perdeu os alunos para ele. Em Porto Rico foi assim: um competidor comprou os vídeos que o Sylvio gravou com Pedro Carvalho na Califórnia e pediu ajuda por e-mail para aplicar uma técnica. Deu certo no campeonato, o rapaz quis levar o professor para lá, e quem foi foi o Flávio.

“Não tinha como competir com o meu pai. Ele é incrível.”

Sylvio Behring, no Pura Connection · 0:12:56

Um detalhe que ele repete com orgulho é a pontualidade. Segundo o Sylvio, os estrangeiros tinham a imagem de que brasileiro não cumpre horário. Se a aula era às seis, ele chegava às cinco e meia, e foi isso, na conta dele, que construiu a confiança lá fora.

Onde nasceu o sistema progressivo

A parte que mais me interessa como professor é a origem do sistema progressivo. O Sylvio conta que o pai foi o mentor, que levava ele para treinar com um e com outro. O professor, segundo ele, foi Álvaro Barreto, que ele descreve como o parceiro perfeito, capaz de se adaptar a criança, mulher, grandalhão, faixa alta ou faixa baixa.

Nas aulas particulares, o Álvaro chamava o Sylvio para ficar do lado. Foi observando o aquecimento dele que a ideia surgiu: começa de longe, chega perto, anda em volta, bloqueia aqui, bloqueia ali, até ir para a guarda. O Sylvio percebeu que aquela progressão servia para tudo, da defesa pessoal em pé às quedas.

Na defesa pessoal, contou, teve que inverter a lógica. A resposta mais fácil contra um mata-leão em pé é jogar o cara no chão, e esse impacto pode matar. Então a ordem passou a ir da reação mais segura para a mais agressiva.

Na X-Gym, segundo ele, havia dias com 70 ou 80 pessoas no tatame e três ou quatro turmas ao mesmo tempo. O tatame era irregular, e ele mandava um grupo para a cozinha, outro para a sala. Quem estava machucado ia para um canto, o campeão em preparação recebia atenção separada. E se alguém saísse sem avisar, ele sentia falta na hora.

“Tem coisa que eu não uso quando luto, mas eu sei ensinar. E serve para você.”

Sylvio Behring, no Pura Connection · 0:22:19

O Sylvio também dá crédito ao irmão, Marcelo, que segundo ele era o parceiro mais desafiador que alguém podia ter. E cita Rickson Gracie: para ele, o que o Rickson desenvolveu de mais importante foi a respiração, trazida para a prática com a bioginástica.

A respiração que evitou a ambulância

A história mais tensa da conversa aconteceu no Canadá. Depois de um dia pesado de graduação, o Sylvio conta que dormiu numa banheira quente e ficou lá mais de meia hora sozinho. Desidratou, saiu engatinhando e caiu no sofá passando mal. Chamaram os paramédicos, que queriam levá-lo ao hospital. Ele estava sem seguro-saúde.

Pediu dois minutos. Segundo ele, usou o que aprendeu de respiração para baixar os batimentos, a pressão melhorou o suficiente, ele assinou o papel e os paramédicos foram embora. Às seis da manhã do dia seguinte estava de pé dando outra graduação. O recado dele para quem viaja é direto: faça seguro-viagem.

A SBA e o trabalho com as crianças

Por muito tempo, o Sylvio admite, não havia associação nenhuma. Era só ele. A Sylvio Behring Association surgiu quando a federação pediu uma marca para registrar o grupo, e ele mandou fazer o símbolo em poucos minutos. Quem viu o potencial foi a esposa, Adriana, que propôs o modelo de franquia. Hoje, segundo ele, são 75 academias, e quem entrar daqui para frente entra pelo sistema novo. Os antigos continuam como estão.

Ele conta que chegou a Porto Alegre também em 1996, para preparar um atleta para ser campeão mundial, e que o grupo mudou o cenário do jiu-jitsu no Sul, onde até então duas equipes dominavam. De lá saíram outros líderes, como Mário Reis, que segundo o Sylvio tem hoje um grupo enorme na região.

O projeto de que ele fala com mais brilho no olho é o trabalho com crianças sobre comportamento. A cada semestre muda o tema: primeiro foi o bullying, depois a briga no futebol que precisa ser parada antes de começar. As crianças ensaiam o que dizer, e ele corrige até a frase. A resposta ensaiada é que ninguém vai brigar ali e que, se precisar, cada um se defende. Segundo ele, até a Kyra Gracie pediu uma mentoria sobre o assunto.

“Numa briga de rua todo mundo perde.”

Sylvio Behring, no Pura Connection · 1:06:36

O que fica da conversa

Perguntado sobre o futuro do jiu-jitsu, o Sylvio, que começou aos 4 anos e hoje tem 61, preferiu não apontar dedo. Contou que o pai acha que o jiu-jitsu está indo por um caminho errado, e ele concorda em parte: vai mal para alguns e muito bem para outros. Ele disse que vê muita gente boa trabalhando e que isso lhe dá esperança.

Saí da conversa com a impressão de que o Sylvio mede o sucesso pelo aluno que evolui mais rápido e pela criança que aprende a parar uma briga. O jiu-jitsu que ele levou para o Canadá dormindo no tatame chegou lá como defesa pessoal, e é assim que ele segue ensinando.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.