Pura Connection · Eduardo Gavião
Eduardo Gavião, o mestre de 78 faixas-pretas, relembra a era Carlson Gracie
Aluno de Pinduca por 15 anos e pioneiro do jiu-jitsu em Florianópolis, o faixa-coral conta o que ouviu de Carlson sobre a saída dos alunos e o que viu no vale-tudo de 1986.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 5 jan 2026 (1:32:33).
O Eduardo Gavião é conhecido como o Gavião de Floripa, mas é carioca. Viveu no Rio até os 33 anos, foi aluno do Pinduca a vida inteira, lutou pela equipe do Carlson Gracie e, depois de se mudar para Santa Catarina, formou 78 faixas-pretas no Sul. Assisti à conversa dele no Pura Connection e é daquelas entrevistas cheias de história de bastidor.
A que mais chama atenção é sobre o Carlson. O Gavião contou que, sempre que visitava o Rio, passava na academia para conversar com o mestre numa salinha com uma mesa de plástico e duas cadeiras brancas. Foi ali, segundo ele, que ouviu do próprio Carlson a versão dele sobre a saída dos alunos que fundaram a Brazilian Top Team.
“Ele me contou, da boca dele, a seguinte história: fui traído.”
Eduardo Gavião, no Pura Connection · 0:25:02
A versão que o Carlson contou
Pelo relato do Gavião, o Carlson disse que os alunos foram embora alegando que ele não dava mais aula nem vestia o kimono, e que não queriam repassar a ele 20% das bolsas das lutas no exterior. O Gavião faz questão de ressalvar que isso é o que ouviu do Carlson, e que a história verdadeira ele não sabe. Na mesma conversa, o apresentador lembrou que o Murilo Bustamante já disse ter tentado se reaproximar do Carlson, a quem via como um pai, sem conseguir.
O Gavião contou também como ouviu falar da origem da equipe Carlson. Segundo as histórias que circulam, disse ele, quando o Carlos Gracie morreu, houve atrito na família, e o Carlson teria reagido assim: a partir de agora eu sou Carlson e vocês são Gracie. Dali saiu o que ele considera a maior equipe que já viu, com gente como o Murilo, o Zé Mário e o Libório. O grande rival era a Gracie Barra.
Ele ainda veste com orgulho uma camisa que ganhou do Carlson, escrita pelo próprio. Diz que o mestre sempre repetia que a gratidão é a maior virtude do ser humano, e a ingratidão, o maior defeito.
Na arquibancada do vale-tudo de 1986
Outra história boa é a do vale-tudo de 1986 contra a turma da luta livre. Segundo o Gavião, o Marco Ruas foi procurar adversário e o Rickson recusou, dizendo que não conhecia aquele cara e que ele não tinha currículo. Quem aceitou foi o Pinduca, com 18 dias para se preparar e uma bolsa que, nas contas do Gavião, seria hoje um salário mínimo.
Ele contou que o Pinduca apanhou em pé, aguentou e, quando passou a guarda, não quis parar no fim do round, mesmo com o árbitro Hélio Vígio querendo interromper. Terminou empatado. O Molina e o Marcelo Behring ganharam. O único que perdeu foi o Renan Pitanguy, que entrou de kimono e cabeludo, e segundo o Gavião foi agarrado pelo kimono e pelo cabelo pelo Eugênio Tadeu até a toalha ser jogada.
O Gavião, faixa-roxa na época, estava na arquibancada para ver o mestre. E viu a luta principal, Rickson contra Zulu, que ele considera uma das piores do Rickson. Chegou a achar que o Rickson ia perder, até que ele pegou as costas e acabou com a luta.
Quinze anos atrás do Pinduca
A fidelidade ao Pinduca aparece a conversa toda. O Gavião contou que o mestre abriu a academia FEMA na Figueiredo Magalhães e depois mudou de endereço várias vezes, e a turma ia atrás aonde ele fosse. Ele pegou a faixa-preta em 1990 e, em 1994, quando o Pinduca foi dar aula na Gama Filho, passou a treinar no Carlson.
Segundo ele, o Pinduca gostava de botar os alunos para lutar contra os do Carlson. Numa dessas, o Castelo Branco venceu o Libório, que até então nunca tinha perdido. O Carlson quis o Castelo no absoluto e o Pinduca respondeu que o aluno já tinha ganhado e que estavam indo para casa.
O Gavião lutou com muita gente dura. A história mais divertida é a da final de faixa-roxa contra o Wallid Ismail em Petrópolis, com o Romero Jacaré de árbitro. Os dois saíram correndo, bateram cabeça, caíram, e o Gavião, meio tonto, agarrou a perna do árbitro. Ele diz que o Wallid fez uns 27 pontos, mas não conseguiu finalizar, porque o cotovelo do Gavião tem uma flexibilidade fora do comum. Anos depois, conta, o Crolin Gracie treinou 40 minutos com ele numa garagem em Florianópolis e também não conseguiu pegar o braço.
“Pô, contigo não dá. Tu não bate, irmão.”
Crolin Gracie, no Pura Connection · 1:22:55
O pioneiro de Florianópolis
O convite para o Sul veio no fim de 1997, segundo ele, do representante da Tatame em Florianópolis, que pediu para abrir uma academia Gavião Jiu-Jitsu por lá. Quando chegou, conta, só havia a Gracie Floripa. E enfrentou preconceito: carioca, cabeça raspada, orelha moída, a turma achava que ia chegar alguém para bater nos outros. Para quebrar isso, deu aula de defesa pessoal para um grupo de 17 mulheres.
Ele também levou gente grande para a ilha. Em 1998 fez um seminário de vale-tudo com o Carlão Barreto, e os dois não conseguiam andar na rua de tanto pedido de foto. Levou o Vitor Belfort, então com 17 para 18 anos, pouco antes da estreia no UFC. E recebeu o Zé Mário para um treino de 40 minutos que ele descreve como pauleira.
O Gavião se formou em educação física na Gama Filho, numa turma com Sylvio Behring, Cássio Cardoso, Castelo Branco e André Pederneiras. Diz que o diferencial dele em Floripa foi esse: dava treino físico pesado, inspirado no que via o Osvaldo Alves fazer em Copacabana. Os ex-alunos brincam que, se aplicassem aquela aula hoje, a academia esvaziava.
Faixa-coral e o que fica
Hoje com 61 anos, o Gavião contou que recebeu a faixa-coral em 2020, a primeira dada pelo Pinduca, e que é o único coral em atividade em Santa Catarina. Trabalha muito com crianças e alunos autistas e defende que inclusão de verdade é trabalhar equilíbrio, fala e postura, e preparar a turma para receber o aluno.
O que fica da conversa é o retrato de uma geração que brigava na rua, lutava por honra e carregava a bandeira da academia a sério. O próprio Gavião resume a lição que tenta passar aos alunos.
“O jiu-jitsu nada mais é do que você eliminar problema.”
Eduardo Gavião, no Pura Connection · 1:28:39
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.