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Luta histórica

Rickson Gracie x Rei Zulu: a luta em que Rickson quase desistiu

As duas lutas contra o Zulu contadas por quem estava no córner, no ringue e na arquibancada.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · atualizado em 30 set 2026 · 4 min de leitura

Quando
Duas lutas: a primeira em Brasília, a segunda no Rio de Janeiro
Onde
Brasília e Rio de Janeiro
Quem lutou
Rickson Gracie, Rei Zulu
Resultado
Rickson venceu, segundo Sergio Zveiter, Francisco Mansur e Carlos Gama; na primeira, pegou as costas e finalizou no mata-leão.

Se tem uma luta que explica a cabeça do Rickson Gracie, é essa. Ele mesmo, no Pura Connection, lembrou do Rei Zulu como uma das lutas mais difíceis da vida dele. E foi a única vez, pelo que ele contou, que pensou em desistir.

Juntei aqui o que disseram as pessoas que estavam lá: o ringman, o árbitro, gente da arquibancada e gente da família. As versões batem no essencial e brigam nos detalhes, e eu deixei os detalhes à mostra.

O contexto: um garoto contra o melhor aluno do Waldemar

Segundo o Marcelo Alonso, o Rickson tinha 18 anos, lutou em Brasília e carregava o nome da família contra o Zulu, que ele chama de melhor aluno de Waldemar Santana. Quem conhece a história sabe o peso disso: o Waldemar foi o homem que venceu o Hélio (veja Hélio Gracie x Waldemar Santana).

A idade muda conforme quem conta. O Alonso e o Pedro Sauer falam em 18 anos. O Carlos Gama fala em 19. Na entrevista, o próprio Rickson ficou entre um e outro.

Rickson Gracie finalizando Rei Zulu em combate de vale-tudo em 1980
Rickson Gracie nas costas de Rei Zulu na histórica batalha de vale-tudo em 1980. (Domínio Público / Wikimedia Commons)

Tinha uma pergunta no ar: por que o Rickson e não o Rolls, dez anos mais velho? O Pedro Sauer, que esteve no camarim naquela noite, deu a versão dele: quem não quis foi o Zulu.

“Luto com qualquer um. Aquele olho do diabo ali, eu não quero nem perto de mim.”

Pedro Sauer, no Connect Cast · 2:38:52 · ler o artigo

O Pedro conta que voltou do camarim apavorado com o tamanho do braço do Zulu, mas que o Rickson simplesmente não enxergava um jeito de perder. E o Carlson Gracie Júnior lembrou que, antes da luta, o Rickson foi treinar na academia do Carlson e fez dois treinos com o Rosado: cada um finalizou o outro uma vez.

Como foi a primeira luta

O Sergio Zveiter, que depois virou ringman do Rickson no Japão, estava em Brasília. Ele conta que, faltando uns dez minutos, o Waldemar entrou no vestiário trazendo o Zulu pela mão. O primeiro round tinha 10 minutos, e segundo o Sergio o Zulu jogou o Rickson para fora do ringue umas cinco vezes, porque era muito maior. Numa dessas trocas, uma joelhada do Rickson fez o Zulu cuspir dois dentes.

O Pedro Valente lembrou outro detalhe desse round: o Zulu derrubou. Num sistema de pontos, seria 2 a 0 para ele. Na arquibancada, o Eduardo Gavião, então faixa-roxa, achou que o Rickson ia perder.

“Chegou um momento ali que eu pensei até que ele ia perder.”

Eduardo Gavião, no Pura Connection · 0:09:21 · ler o artigo

O Alan Araújo contou que o Zulu chegou a tentar enfiar o dedo no olho do Rickson quando teve as costas tomadas. E o árbitro, Francisco Mansur, desmentiu quem diz que havia regra limitando o Zulu no chão.

“Mentira, valia tudo, tudo, tudo. Eu era o juiz.”

Francisco Mansur, no Connect Cast · 1:03:24 · ler o artigo

O Mansur ainda contou que o Zulu passou azeite no corpo para escorregar, e ele mandou buscar um litro de álcool para limpar antes de começar.

O intervalo e o balde de gelo

Aqui as versões se separam, e é a parte que eu mais gosto. Todo mundo concorda que o Rickson voltou para o córner sem gás e querendo parar. Muda quem o empurrou de volta.

Na versão do próprio Rickson, o pai disse que o outro estava mais cansado, e foi um irmão que jogou o balde de gelo na cabeça dele. Para o Sergio Zveiter, foi o Rolls quem o sacudiu pelo braço, jogou água, tirou o banquinho e o empurrou para o meio do ringue.

“Morto é o cara, tu tá inteiro, meu irmão. Quem tá mal é o cara lá.”

Sergio Zveiter, no Pura Connection · 0:17:43 · ler o artigo

Já o Carlos Gama e o Francisco Mansur contam que foi o Hélio quem jogou o balde de água com gelo. De qualquer jeito, o Rickson voltou. Segundo o Gama, pegou as costas e finalizou no mata-leão. O Sérgio Malibu, que assistiu como fã, lembra do mesmo desenho: primeiro round por baixo, segundo round nas costas e estrangulamento.

A revanche no Rio

Teve uma segunda luta, no Rio. O Sergio Zveiter conta que, como o vale-tudo estava proibido, o evento passou pela Federação de Pugilismo, com um juiz de cada lado. Ele foi o representante da família e assistiu sentado no ringue, com a camisa da federação por cima da camisa do Rickson, sem poder torcer.

O Mansur apitou as duas e resumiu assim: a primeira não foi muito couro, a segunda foi. O Sergio concorda que na segunda o Rickson foi melhor.

O que ficou depois

Nessa luta o Rickson descobriu que o pior adversário estava dentro da cabeça dele. Ele contou que dali em diante passou a juntar mente, espírito, corpo e técnica numa coisa só.

“A partir dali eu preferia perder a luta de qualquer maneira do que pensar em desistir.”

Rickson Gracie, no Pura Connection · 0:21:23 · ler o artigo

O Carlos Gama, que trabalhou a respiração com ele, contou a mesma decisão: depois do Zulu, nunca mais desistir. Se você quer entender de onde veio o Rickson calmo que todo mundo descreve, começa aqui. Vale ler também como o Rickson usava a respiração e se o Rickson perdeu alguma luta.

Para ver as conversas inteiras: o Rickson no Pura Connection, os bastidores do Sergio Zveiter e o Francisco Mansur.

O que foi contado

Esta página junta o que foi dito em várias entrevistas. Cada afirmação é de quem a disse e leva ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.