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Connect Cast · Francisco Mansur

Francisco Mansur conta como criou as regras de pontos do jiu-jitsu

Aos 85 anos, o faixa-preta de Hélio Gracie lembra da fuga para o Rio, dos 15 anos de espera pela faixa e da regra nova que prepara.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 9 jan 2025 (1:55:53).

Aos 85 anos, e com 78 deles dedicados ao jiu-jitsu, o grande mestre Francisco Mansur sentou no Connect Cast e fez uma afirmação que muita gente nunca ouviu: segundo ele, o sistema de pontos que decide as lutas de jiu-jitsu no mundo inteiro saiu da cabeça dele, escrito à mão, e foi aprovado por Hélio Gracie.

Queda, passagem de guarda, raspagem, montada, pegada pelas costas. Tudo isso, de acordo com o Mansur, nasceu de uma conversa com o Hélio sobre uma injustiça: quem lutava contra os Gracie não sabia nem metade do que eles sabiam.

“Eu comecei: uma queda vale dois pontos, uma passagem de guarda vale dois pontos, uma raspagem vale dois pontos.”

Francisco Mansur, no Connect Cast · 1:14:31

Assisti à conversa inteira e confesso que o tema das regras foi só uma parte. O Mansur contou como fugiu de casa aos 13 anos, como entrou na academia do Hélio para provar que não era frouxo, por que esperou 15 anos pela faixa-preta e o que pensa dos Gracie que viu lutar. E ainda avisou que está preparando uma regra nova para derrubar a que ele mesmo criou.

Um garoto de Muriaé que fugiu para o Rio

O Mansur nasceu numa fazenda na Zona da Mata mineira e cresceu em Muriaé. Foi lá que ouviu a palavra jiu-jitsu pela primeira vez, da boca do pai, o José Mansur. Segundo ele, o pai ia toda semana ao Rio de Janeiro a trabalho e aproveitava para ter aulas particulares de defesa pessoal com o Hélio.

O motivo da primeira aula foi um valentão da escola, um garoto repetente e enorme apelidado de Neném. O pai montou um tatame improvisado com sacos de farinha de trigo e uma lona de caminhão e começou a ensinar o filho brincando. Em uns três meses, conta o Mansur, ele perdeu o medo. No recreio, quando o Neném tentou tomar um pedaço de bambu da mão dele, o Mansur deitou no chão, pôs o pé na barriga do grandalhão e o arremessou por cima. Virou herói da escola, e o Neném virou o melhor amigo dele.

Aos 13 anos, o sonho era ser piloto. O pai proibiu. O Mansur fugiu para Juiz de Fora, depois para Belo Horizonte, foi buscado nas duas vezes e, na terceira, pegou carona num caminhão até São Paulo e de lá um ônibus para o Rio. A primeira parada foi a academia da Avenida Rio Branco, onde encontrou o Hélio pela primeira vez.

Passou pela Aeronáutica, desistiu e acabou na ACM, onde nadava e treinava judô com um professor japonês. Chegou à faixa verde.

Desassombrado: o teste na academia de Hélio Gracie

A virada veio com uma capa de revista. Segundo o Mansur, o Hélio aparecia com as mãos na faixa e a frase de que todo judoca era frouxo. O jovem judoca pegou o quimono e foi à academia tirar satisfação. Disse que era filho do José Mansur, o Turcão, e ganhou ali o apelido de Turquinho.

Primeiro, lutou com um aluno e bateu mais de cem vezes no chão. Depois, o Hélio o colocou para lutar valendo tudo contra um fuzileiro naval que fazia vale-tudo, com tapa, soco e pontapé. O Mansur saiu com a orelha inchada e o olho quase fechado, mas não parava. Quando o Hélio perguntou se ele não ia desistir, a resposta foi que o mestre ainda não tinha retirado o frouxo.

“Você não é frouxo não. Longe de você ser frouxo, você é desassombrado.”

Hélio Gracie, no Connect Cast · 0:50:41

O Hélio disse que ele ia fazer jiu-jitsu e cortou na hora a conversa sobre dinheiro. Pouco depois, segundo o Mansur, passou a levá-lo para a sala particular e ensinar tudo pessoalmente. Uma dessas lições serviu contra Mauro Gonzaga, um aluno fortão que, nas palavras do Mansur, o ralava todo nos treinos. O Hélio ensinou como sair da guarda para as costas quando o adversário pusesse a mão no abdômen. O Mansur pegou o mata-leão, o Mauro bateu e levantou para agredi-lo, e foi João Alberto Barreto, primeiro instrutor da academia, quem segurou a confusão.

Quinze anos até a faixa-preta, por causa de um cafezinho

O Hélio exigia muito dos alunos, segundo o Mansur. Fez ele parar de comer carne vermelha, dizendo que ela deixava a pessoa agressiva. E demorou para dar a faixa-preta porque achava que ele bebia café. O Mansur conta que, depois de uma noite inteira acordado, pediu um cafezinho numa mesa de campeonato, queimou a boca e nem bebeu, mas o Hélio viu a xícara. Quando Carlos Gracie perguntou por que a faixa não saía, se o Mansur ganhava de todo mundo, a resposta do irmão foi curta: o Mansur bebe café.

“Entrei na academia em 55, só recebi em 70.”

Francisco Mansur, no Connect Cast · 1:26:05

Ele diz que fez à mão os diplomas de todos os faixas-pretas que o Hélio formou. Fora da família, segundo a lista dele, foram Pedro Hemetério, João Alberto, Armando Wriedt, Hélio Vígio e o próprio Mansur. E ele afirma que hoje só ele e o João Alberto seguem vivos.

As regras, as faixas e a ponta preta

Voltando ao assunto que abriu este texto. O Mansur conta que, já íntimo do Hélio, reclamou que era maldade ganhar de quem não sabia nada. O Hélio respondeu que não ia dar aula para o mundo inteiro. O Mansur propôs outra saída: dar pontos para cada posição, porque assim quem quisesse ganhar teria que aprender a derrubar, passar a guarda e montar. Segundo ele, o Hélio aprovou, e só depois disso passou a existir competição de jiu-jitsu.

A ordem das faixas também passou por ele, de acordo com o próprio relato. O argumento que usou com o Hélio foi a escola: ninguém aprende no primeiro ano a matéria do terceiro. E ele revelou um detalhe que disse nunca ter contado: a ponta preta das faixas coloridas representa o desejo de quem começa, que é chegar à preta. Ele também diz ter desenhado as molduras das faixas de sétimo grau em diante, bronze, prata e ouro.

Mansur afirma ainda que o décimo grau pertence só aos pioneiros: Carlos, Oswaldo, George, Gastão e Hélio. Ele disse estar pronto para brigar com quem distribui esse grau hoje.

Rickson, Royler e Roger pelos olhos de quem apitou e viu

O Mansur contou que foi o árbitro das duas lutas de Rickson Gracie contra o Rei Zulu, e garantiu que as duas valeram tudo. Numa delas, segundo ele, o Zulu entrou com o corpo besuntado de azeite, e ele mandou buscar álcool para limpar antes de começar.

Depois veio a história que ele disse ninguém conhecer. Quando soube que o Zulu estava paraplégico, o Rickson foi até a casa dele, deu uma cadeira de rodas elétrica e mandou consertar a calçada para ele poder passear. O Mansur disse que ficou muito orgulhoso.

Para ele, o Gracie mais brabo foi o próprio Hélio, que não conseguia fazer uma barra, mas tinha um antebraço fortíssimo e um estrangulamento com as duas palmas das mãos para cima. Ele contou que o Hélio fez dormir em 30 segundos um japonês de circo que aguentava cabo de guerra com uma corda no pescoço. Entre os filhos, o mais técnico, na visão dele, é o Rickson, com o Royler colado atrás, porque o Royler era pequeno e enfrentava todo mundo, como Amaury Bitetti e Zé Mário Sperry.

“Para mim, o Roger Gracie é a personificação do jiu-jitsu.”

Francisco Mansur, no Connect Cast · 1:43:52

O Roger, segundo o Mansur, finaliza todo mundo com o básico: raspa de tesoura, passa, monta e estrangula, sem berimbolo.

A regra nova que ele promete

Aqui foi onde o mestre mais se animou. Ele acha que a luta de hoje ficou parada, com atleta segurando vantagem e torcida gritando para segurar, coisa que, segundo ele, deixava o Hélio maluco.

“É vergonhoso ficar lá abraçado.”

Francisco Mansur, no Connect Cast · 1:37:04

A proposta que ele está testando com a própria equipe tem tatame redondo, com raio de três metros, para não existir canto. Pisou fora, perde um ponto e o adversário ganha um. Na luta de criança, tudo vale um ponto e quem chega a cinco vence. A guarda-aranha, para ele, conta como amarração. A luta deve durar três ou quatro minutos, e a diferença máxima de pontos encerra o combate. Ele quer também que o exame de faixa-preta volte a cobrar defesa pessoal, algo que, segundo ele, o Hélio considerava obrigatório: quem não sabe se defender, dizia o mestre, não é faixa-preta.

Saí da conversa com a sensação de ter ouvido um pedaço da história que quase ninguém registrou. Muita coisa ali depende só da memória dele, e ele sabe disso. Mas o Mansur avisou que a editora quer cinco livros de autobiografia, e pelo tanto de história que ele despejou em duas horas, espaço não vai faltar.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.