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Pura Connection · Alan Araújo

Alan Araújo explica por que o jiu-jitsu é o ápice da defesa pessoal

Faixa-preta de Ricardo De La Riva, ele levou o jiu-jitsu para a segurança pública e diz que a maior parte da defesa pessoal acontece antes da briga.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 10 mar 2025 (1:38:11).

O maior público de Alan Araújo hoje é justamente quem mais deveria saber brigar: faixa-preta de jiu-jitsu. Foi isso que ele contou ao André no Pura Connection. Segundo o Alan, o faixa-preta sabe derrubar, passar a guarda, pegar as costas e dar a kimura, mas nada disso se faz numa abordagem policial. Falta a imobilização tática, o controle do braço, o jeito de segurar alguém no chão sem virar luta. E é por isso que liga para ele.

Alan é faixa-preta de Ricardo De La Riva, trabalhou no sistema socioeducativo do Rio de Janeiro com adolescentes infratores e hoje dá cursos de defesa pessoal. Assisti à conversa e gostei de ver dois faixas-pretas que viveram muito o jiu-jitsu esportivo falando de outra coisa: a parte do iceberg que fica embaixo da água.

“Tá provado através da nossa experiência que o jiu-jitsu é o ápice da defesa pessoal.”

Alan Araújo, no Pura Connection · 0:39:08

Estreia no MMA aos 37 e 19 quilos em 40 dias

Alan contou que já era faixa-preta quando um amigo perguntou se ele tinha coragem de lutar MMA. Foi em 2015, com 37 anos. Aceitou, avisou a mãe, que achou loucura, e teve 40 dias para perder 19 quilos. Ele mesmo diz que fez tudo do jeito errado: remédio para emagrecer, treino de maluco, correria com saco preto para o hotel na véspera da pesagem, desmaio dentro da academia por desidratação.

A parte de chão ele treinou com o De La Riva. Bateu o peso e, segundo ele, a luta não durou um minuto e meio. Ganhou de um adversário dez anos mais novo.

No jiu-jitsu, contou, lutou em todas as faixas, da branca à preta, levou quase 14 ou 15 anos para chegar à faixa-preta e agora mira o quinto grau. Sobre o De La Riva, disse que ele deixou de ser só professor e virou um pai e um amigo.

Do tatame para a segurança pública

Nascido e criado em Nova Iguaçu, filho de pedreiro, Alan contou que era um moleque de baile e torcida que gostava de sair na mão. O jiu-jitsu foi o que canalizou isso. Anos depois, entrou no sistema socioeducativo e viu que os agentes tinham luta, mas não tinham inteligência emocional, comunicação e gerenciamento de crise.

Foi em cursos da área de segurança que ele conheceu Sylvio Behring, que, segundo ele, já esteve na casa dele em Nova Iguaçu. Mais recentemente conheceu Ian Behring, que foi procurá-lo numa academia na Barra onde ele dá treinos aos sábados. Alan também citou Júlio César, da GF Team, entre as relações que o jiu-jitsu trouxe.

Ele contou ainda que, ao entrar no sistema, engordou quase 25 quilos, entre plantão, pão e café de madrugada. Usa isso como exemplo do tripé que ensina: preparo psicológico, físico e técnico.

Faca, Krav Maga e a construção técnica

O André confessou que, diante de uma faca, sairia correndo. Alan concordou em boa parte. Na visão dele, defesa de faca só se ensina para extrema necessidade, e quem mais precisa dela é o bombeiro, que é chamado nos surtos psicóticos. Mesmo assim, a abordagem é em grupo, com dois ou três agentes e um bastão retrátil para ganhar distância.

Sobre Krav Maga, Alan fez questão de dizer que respeita os professores, mas que é do jiu-jitsu. O argumento dele é a construção técnica. No jiu-jitsu, explicou, você aprende uma chave de braço, e se o adversário tira o braço você vai para a kimura, depois para o triângulo, depois para a montada. Ele duvida que outras artes criem essa sequência de variações. O André completou com a ideia de que o jiu-jitsu treina contra resistência real todo dia, com alguém a 100% tentando te estrangular.

“Eu busco hoje com um cara que é muito profissional na mão do boxe.”

Alan Araújo, no Pura Connection · 0:44:12

A frase acima resume o que ele fez na prática. Alan contou que, como a parte de golpes do jiu-jitsu antigo, o atemi, se perdeu, foi buscar boxe, muay thai e caratê para completar o que o jiu-jitsu já dava no chão.

Os desafios dos Gracie e o acervo do Paquetá

Um dos trechos que mais gostei foi quando Alan falou dos vídeos antigos. Ele lembrou dos desafios da família Gracie, em academia de porta fechada e em quartéis, e da luta do Rickson com o Rei Zulu. Segundo ele, o Zulu tentou enfiar o dedo no olho do Rickson quando teve as costas tomadas, e o Rickson quase apagou o Zulu. Para o Alan, a lição desses desafios é que os Gracie não precisavam socar ninguém para provar superioridade: controlavam, pegavam as costas e finalizavam.

Ele também falou do falecido Paquetá, que filmava os campeonatos. Alan contou que lutou com o Paquetá filmando na beira do tatame e que sonha ver esse acervo reunido, porque ali estaria a verdadeira enciclopédia do jiu-jitsu da época em que se ganhava na base da queda, sem berimbolo.

Na mesma linha, ele usou uma luta de Ricardo Arona para mostrar que técnica depende de situação: Arona fechou um triângulo, o adversário levantou e bateu ele no chão. Para o Alan, o professor tem que ensinar cada aluno dentro do próprio corpo e das próprias limitações.

Defesa pessoal é prevenção

No fim, os dois concordaram no ponto que mais importa. O André lembrou uma fala do Sylvio Behring: muitas vezes quem se dá bem numa situação de risco é quem está mais atento. Alan foi na mesma direção e disse que a defesa pessoal é totalmente preventiva, e que o embate físico pertence ao esporte.

“A gente não ensina ninguém a chegar no embate.”

Alan Araújo, no Pura Connection · 1:31:40

Ele deu exemplos simples: não ficar parado na calçada olhando o celular esperando o carro de aplicativo, olhar em volta antes de entrar no carro, entrar, travar e sair logo. Coisas que parecem besteira, segundo ele, e que tiram a oportunidade de quem está procurando uma vítima.

O que fica para mim é essa lembrança de que o jiu-jitsu nasceu para a briga real, e que o faixa-preta que só treina para campeonato tem uma ferramenta enorme e usa só a ponta dela. Vale a reflexão para quem dá aula.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.