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Connect Cast · Sérgio Malibu

Sérgio Malibu conta a briga de Rickson Gracie que o levou ao jiu-jitsu

Aluno de Rolls e de Rickson, o faixa-coral lembra o jiu-jitsu do Rio no fim dos anos 1970, quando a prova de fogo acontecia na rua.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 27 abr 2023 (2:25:01).

Tem gente que entra no jiu-jitsu por causa de um amigo, de um filme ou de um campeonato. O Sérgio Malibu entrou por causa de uma prancha quebrada. Numa conversa longa no podcast Connect Cast, o faixa-coral contou que a primeira vez que viu o jiu-jitsu funcionar de verdade foi numa briga de Rickson Gracie com um havaiano enorme, no Rio de Janeiro, no fim dos anos 1970.

Assisti à entrevista inteira e o que mais me pegou foi o retrato que ele faz daquela época. Quase não existia campeonato, o vale-tudo estava proibido e, segundo o Malibu, o pessoal do jiu-jitsu se preparava para os confrontos de rua. Ele estava no meio disso tudo, primeiro com Rolls Gracie, depois com o Rickson.

“A primeira vez que eu vi o jiu-jitsu em ação foi na rua.”

Sérgio Malibu, no Connect Cast · 0:01:36

A prancha quebrada e o gigante havaiano

O Malibu era surfista antes de ser lutador. Ele contou que estava na água com um amigo, o Júlio, o Foca, hoje professor faixa-coral nos Estados Unidos, quando a prancha de um deles escapou numa onda e bateu na cabeça de um havaiano. O gringo, um sujeito de uns 130 quilos que fazia a segurança dos surfistas no primeiro circuito mundial de surfe no Brasil, quebrou a prancha do Malibu e ainda expulsou os dois da praia.

Dois dias depois, segundo o relato, o Rickson assobiou da areia na Barra e chamou o Malibu. Foram atrás do havaiano na oficina do surfista Rico de Souza, no fim do Recreio. O Malibu admitiu que congelou na hora. Quem resolveu foi o Rickson. A prancha do havaiano foi destruída e, quando o dono apareceu, o Rickson pegou o gigante e o botou para dormir.

Para dar a dimensão do estrago, o Malibu comparou a prancha havaiana, em 1977, a um carro de luxo.

“Quebrar uma prancha era como se quebrar uma Ferrari hoje.”

Sérgio Malibu, no Connect Cast · 1:23:25

Pelas contas dele, o Rickson tinha uns 17 anos. O Malibu já tinha passado pelo jiu-jitsu ainda criança, na família Barreto, sem se adaptar. Depois daquela cena, voltou para ficar. Ele disse que foi isso que o manteve no jiu-jitsu até hoje e o fez virar professor.

Rolls Gracie, o mestre que era mentor

Quem mais aparece nas histórias do Malibu é o Rolls. Ele contou que, ainda faixa-azul, perdeu duas vezes num treino para um faixa-marrom mais velho, o Zé Paraíba, e ficou num canto, chateado. O Rolls chegou perto e disse que agora ele não apanharia mais de ninguém na rua. Segundo o Malibu, esse trabalho mental era feito com todo mundo: sempre tinha alguma coisa para levantar o aluno, mesmo na derrota.

“O meu mestre tinha nove anos a mais do que eu. Era um mentor.”

Sérgio Malibu, no Connect Cast · 0:59:15

A história mais engraçada foi a do Carnaval em Cabo Frio. O Malibu voltou contando que tinha usado lança-perfume com as meninas e que dava para ver umas estrelinhas. O Rolls pediu para ele chegar perto, meteu a mão no pescoço dele e o estrangulou até ele bater. Quando soltou, disse que para ver estrelinha bastava treinar com ele.

Na visão do Malibu, o Rolls era o melhor da época, e depois o Rickson virou o melhor indiscutivelmente. Quando o Rolls morreu, parte dos alunos ficou com Carlinhos e parte foi para o Rickson. O Malibu recebeu a roxa com o Carlinhos e depois foi treinar com o Rickson, numa turma das 11h à 13h em Botafogo, perto do Colégio Padre Antônio Vieira. Ele contou ainda que a faixa que usava foi colocada no túmulo do Rolls.

Royce, o magrinho que mandavam encostar

Outra passagem boa envolve Royce Gracie. Nos anos 1980, segundo o Malibu, o ator Chuck Norris foi à academia de Hélio Gracie acompanhado de um amigo chamado Bob, que queria ver o tal jiu-jitsu que agarrava todo mundo. O Bob fez uma demonstração de soco curto num catálogo de telefone no peito do Rickson e depois começou a chutar o Royce, que estava de pé no meio do tatame.

O Royce, ainda garoto, pediu para lutar. O Hélio mandou ele encostar. O Royce insistiu.

“Papai, deixa eu fazer com ele, ele me deu porrada.”

Royce Gracie, no Connect Cast · 1:04:32

O Hélio liberou, e o Royce estrangulou o Bob. Quando o americano quis uma segunda rodada, o Rickson teria dito para o pai deixar o homem na dúvida. O Malibu lembra que, dez anos depois, aquele mesmo magrinho que mandavam encostar foi quem chocou o mundo no UFC. Para ele, o Hélio talvez tenha escolhido o Royce justamente por achar que era vitória garantida.

O Malibu também elogiou a ideia de Rorion Gracie no primeiro UFC. Nas palavras do próprio Rorion, que já esteve no mesmo podcast, a intenção sempre foi expandir o jiu-jitsu. O Malibu acha que, com as regras atuais do MMA, o juiz teria mandado o Royce ficar de pé nos minutos que ele passou por baixo, e a história poderia ter sido outra.

Um tiro, a Indonésia e a volta ao tatame

O Malibu falou abertamente dos anos em que era, nas palavras dele, folgado e abusado. Em 1988 levou um tiro que furou os dois pulmões, depois de uma discussão na rua. Tomou cerca de 300 pontos e o pai achou que ele nunca mais faria esporte. Ele parou um tempo e voltou a competir por volta dos 36 anos, como master.

Depois do tiro, passou sete anos trabalhando entre o Brasil e a Indonésia, onde virou importador. Contou que quebrou financeiramente em 1995 para 1996, bem quando o jiu-jitsu explodia. Cada vez que a vida apertava, voltava ao tatame. Hoje tem uma academia pequena na Barra da Tijuca e afiliadas no Brasil e na Europa, e diz que o jiu-jitsu sempre o salvou emocionalmente.

“A faixa-preta é rápida de você chegar, difícil é você se manter na faixa-preta.”

Sérgio Malibu, no Connect Cast · 1:36:59

Ele disse que foi campeão pan-americano, carioca e brasileiro. A última luta, em 2004, aos 46 anos, terminou em desclassificação: esmagado por um adversário grandão, saiu da área de luta e se recusou a voltar para a mesma posição. O juiz era Igor Gracie, filho do Rolls.

O jiu-jitsu de antes e o de agora

Sobre as mudanças, o Malibu não escolhe lado. Para ele, antigamente o lutador precisava ser bom de kimono, sem kimono e na porrada, e a briga entre jiu-jitsu e luta livre nem deveria ter existido, porque os dois faziam a mesma coisa sem kimono com nomes diferentes. Hoje ele vê atletas muito mais rápidos e fortes, que quase não estabilizam a posição. Na época dele, perder a montada era quase perder a luta.

Ele também contou uma virada pessoal: ficou amigo de Marco Ruas, que ele via como rival na época da briga com a luta livre. Os dois deram aula juntos na academia Corpore, na Tijuca, e foi o Marco quem o confortou no dia em que a mãe dele morreu. Hoje ele diz ser amigo do Marco, do Rei Zulu e de Rudimar Fedrigo. Com o Zulu, que está numa cadeira de rodas, o Malibu fez a ponte para que o Rickson ajudasse, e já conseguiram construir uma rampa na casa dele.

O que fica da conversa é o retrato de um jiu-jitsu que nasceu na rua, na praia e em academias pequenas, e que o Malibu viu virar esporte do mundo inteiro. Ele encerra dizendo que a vida foi difícil e foi bem vivida, e que quer terminar como mestre dentro do tatame, mostrando posição.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.