Pular para o conteúdo

Pura Connection · Marcelo Alonso

Marcelo Alonso revela bastidores do jiu-jitsu no Japão e a origem do ADCC

O biólogo que virou o primeiro jornalista de luta do país conta o que viu de perto enquanto o jiu-jitsu brasileiro ganhava o mundo.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 23 mai 2022 (1:21:20).

Em 1994, um árabe chegou ao Rio de Janeiro para treinar jiu-jitsu, sem se apresentar como quem era, e acompanhado de um motorista. Comprou um pacote de aulas com Nelsinho Monteiro, faixa-preta de Carlinhos Gracie, foi à praia, tomou açaí e, no último dia, contou a verdade: era um príncipe dos Emirados Árabes. Segundo Marcelo Alonso, foi desse encontro que nasceu o ADCC.

Assisti à conversa do Alonso no Pura Connection e o que mais me prendeu foi isso: ele estava lá. Biólogo de formação, virou o primeiro jornalista dedicado à luta no Brasil, editou a revista Tatame por 16 anos, fotografou as primeiras edições do ADCC e foi com a turma do Carlson Gracie ao Japão em 1996. A entrevista é uma sequência de bastidores que eu nunca tinha ouvido contados assim.

Do laboratório de microbiologia ao tatame

O Alonso contou que começou a treinar em 1989 ou 1990, na academia do mestre Cláudio França. Na época ele já era biólogo, microbiologista de carteira assinada. O Cláudio pediu que ele fotografasse a Copa Atlântico Sul, que ele organizava, e como não havia fotógrafo de luta, os lutadores começaram a querer comprar as fotos. Ele saía do trabalho no Fundão e rodava as academias vendendo foto.

“Eu virei fotógrafo do jiu-jitsu.”

Marcelo Alonso, no Pura Connection · 0:04:58

Segundo ele, não existia jornalista de luta. As revistas eram feitas por mestres que mandavam foto e um textinho. Quando a coisa cresceu e ele passou a ganhar mais com a revista do que com a biologia, largou a profissão. O pai questionou, ouviu as explicações e apoiou. Depois, cobrou que ele fizesse faculdade de jornalismo. O Alonso achou desnecessário, fez mesmo assim e hoje diz que o pai estava certo.

Quem pagou a conta nessa virada, contou ele, foi uma revista japonesa de luta, que saía duas vezes por mês e pagava por página. Foram 16 anos de pagamento certinho, e foi isso que permitiu largar a biologia.

A foto que o Castelo nunca perdoou

Uma parte deliciosa da conversa é sobre fotografia de luta. Segundo o Alonso, a foto boa para a capa precisa mostrar o rosto dos dois lutadores, o que no jiu-jitsu é dificílimo. Numa luta decisiva do primeiro Mundial, em 1996, ele só conseguiu a foto porque deu um segundo clique: no primeiro, a perna de um tapava a cara do outro.

Ele contou que o amigo Leonardo Castelo Branco até hoje reclama de uma capa. Na semifinal de um absoluto, o Castelo perdeu o equilíbrio numa queda e a foto pegou o Libório entrando nas costas dele, como se fosse uma finalização. Segundo o Alonso, era uma fração de segundo que não representava a luta.

Outra que doeu foi no ADCC de 2007. O Alonso disse que sempre defendeu a luta livre e considerava Alexandre Cacareco um talento diferenciado. Mas o grande nome do evento foi Marcelinho Garcia, e a foto mais impactante dele era estrangulando o Cacareco nas quartas de final. Foi para a capa. O Cacareco ficou magoado, justamente com quem tinha dado força para ele lutar.

“Meu lado pessoal é esse, o lado profissional é esse.”

Marcelo Alonso, no Pura Connection · 0:17:26

Ele deu ainda o exemplo do Pride de 2005. A Tatame tinha uma parceria com a equipe BTT, mas quando Minotauro e Wanderlei Silva venceram, a reunião de pauta decidiu que o Wanderlei, no topo do mundo, merecia mais a capa. Segundo o Alonso, foi por isso que os lutadores aprenderam a respeitá-lo, mesmo levando, como ele diz, uns 15 esporros por campeonato.

Japão, 1996: a faixa-branca do mestre japonês

O Alonso contou que Rickson Gracie tinha vencido duas edições do Vale Tudo Japan, a segunda em 1995, e os japoneses queriam entender de onde vinha aquilo. Em 1996 ele foi junto na primeira grande viagem de brasileiros para lutar lá, com o Carlson, o mestre João Alberto Barreto, Carlão Barreto ainda faixa-marrom, Hugo Duarte e outros.

Lá, segundo ele, um japonês que se apresentava como remanescente do jiu-jitsu japonês convidou o Carlson para um treino. O Libório finalizou os alunos dele umas oito vezes. No fim, o mestre japonês disse que ia voltar a usar a faixa-branca e mandou todos os alunos fazerem o mesmo, porque depois do que viu ninguém ali podia usar faixa-preta.

Tem também a história de Yuki Nakai. O Alonso contou que o japonês perdeu para o Rickson no Japan Open de 1995 e decidiu vir aprender jiu-jitsu no Brasil. Em 1997 ficou no estúdio do Alonso e passou por todas as academias. Hoje, segundo ele, preside a entidade de jiu-jitsu do Japão, com mais de 10 mil associados, e faz questão de chamar a arte de brazilian jiu-jitsu. Para o Alonso, a atitude do Rickson naquela final ajudou: ele venceu na técnica, sem socar o rosto do japonês, respeitou o ídolo deles e virou ídolo maior ainda.

O sheik, o ADCC e as placas da Gracie Barra

A origem do ADCC, contada no livro que a editora do Alonso preparava com texto de Marcelo Dunlop, é a história do começo deste texto. Segundo ele, o árabe tinha visto o UFC em 1993, chegou ao Rio em 1994 e comprou o pacote que o Rickson tinha sugerido ao Nelsinho: treino de manhã, praia à tarde, açaí e treino à noite. No último dia revelou ser príncipe e convidou o professor para ensinar em Abu Dhabi. Dali veio o ADCC. O Alonso contou que fotografou as sete primeiras edições.

Ele também deu crédito a Carlinhos Gracie pela explosão do esporte. Segundo o Alonso, o Carlinhos reuniu a família, que brigava, avisou que os gringos iam ficar com o jiu-jitsu se continuassem assim, e criou a confederação e o Mundial. Em 1996, contou, a Califórnia tinha umas oito academias. Anos depois, numa noite na rodovia 405, em Los Angeles, ele resolveu contar.

“Eu contei mais letreiro de Gracie Barra do que de McDonald's.”

Marcelo Alonso, no Pura Connection · 0:47:43

Tem até açaí na conta. Segundo o Alonso, a história passa por Carlos Gracie, que veio de Belém, e os Gracie chegaram a importar açaí para consumo próprio. Mas o que fez a fruta explodir, na visão dele, foi a cultura do jiu-jitsu, copiada pelos surfistas e pelo resto da cidade.

Quem veio antes não pode ser esquecido

Hoje o Alonso escreve para o público americano e disse que se incomoda com fã e jornalista novo que olha o cartel do Rickson no Sherdog e não sabe quem foi o Rei Zulu. Ele lembrou que o Rickson, com 18 anos, carregou o nome da família numa luta em Brasília contra o Zulu, melhor aluno de Waldemar Santana.

“Às vezes a pior briga não é aquela dentro do octógono.”

Marcelo Alonso, no Pura Connection · 1:15:07

Ele citou Eugênio Tadeu, Hugo Duarte, Marcelo Behring, Flávio Molina, Carlson e João Alberto Barreto como lendas que lutaram quase de graça para os de hoje ganharem milhões. Saí da conversa convencido de que o Alonso se vê como uma espécie de guardião dessa memória. E ele deixou claro que, enquanto estiver trabalhando, vai continuar lembrando esses caras.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.