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Pura Connection · Sergio Zveiter

Sergio Zveiter revela os bastidores das lutas de Rickson Gracie no Japão

Amigo, padrinho dos filhos e ringman de Rickson, o advogado conta o que viu no vestiário, da primeira luta com o Zulu às noites de vale-tudo no Japão.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 12 jan 2026 (2:03:49).

Era uma daquelas noites no Japão em que Rickson Gracie tinha de lutar três vezes. Entre a primeira e a segunda luta, sentado no vestiário, ele reclamou de dor no ombro. Sergio Zveiter, que tinha atravessado o mundo para estar ali, levantou da cadeira na hora.

“A dor não existe, cara. A dor não existe.”

Sergio Zveiter, no Pura Connection · 1:35:16

O Sergio conta que mandou o Rickson ficar em pé, pediu o spray, passou nas costas dele e avisou que dor era para sentir no dia seguinte. A luta seguinte foi rápida e o Rickson ganhou. Advogado, ex-presidente da OAB do Rio, ex-secretário de Justiça e faixa-coral, ele foi por anos o homem de confiança do Rickson na hora da luta. Assisti à conversa dele com o André Bintang no Pura Connection e saí com a sensação de ter ouvido alguém que estava, de fato, dentro do vestiário.

Da prainha ao vestiário do Zulu

A história começa por acaso. Segundo o Sergio, no primeiro dia morando no Rio, depois de se mudar de Niterói, um amigo o levou a uma aula de jiu-jitsu na Avenida Rio Branco. Lá estavam Hélio, Rorion e o Rickson, dois anos mais novo que ele. O Rorion deu a primeira aula e, no dia seguinte, já tinha ido para os Estados Unidos. O Rickson perguntou se ele pegava onda, os dois foram à Prainha e nunca mais se separaram. O Sergio virou padrinho de casamento do Rickson e dos filhos dele.

Algum tempo depois, o Hélio o convidou para ver uma luta. Era a primeira do Rickson contra o Rei Zulu, em Brasília. O Sergio conta que viu as lutas de abertura, briga de mão limpa, e voltou apavorado para o vestiário. Faltando uns dez minutos, entrou Valdemar Santana trazendo o Zulu pela mão.

“Eu olhei pro cara, um gigante, e o Rickson, um garoto. Eu pensei: vai matar ou manda todo quebrado pro hospital.”

Sergio Zveiter, no Pura Connection · 0:05:08

No intervalo, segundo ele, o Rickson sentou e disse ao pai que estava morto. Foi Rolls quem o sacudiu pelo braço, disse que morto estava o outro, jogou água nele, tirou o banquinho e o empurrou de volta. O Rickson ganhou. O Sergio conta que o Zulu o jogou para fora do ringue umas cinco vezes no primeiro round e que uma joelhada do Rickson fez o Zulu cuspir dois dentes. Na segunda luta, como o vale-tudo era proibido e o evento passava pela Federação de Pugilismo, ele assistiu sentado como juiz representante da família, com a camisa da federação por cima da camisa do Rickson.

Ele saiu daquela noite com duas conclusões: não tinha nascido para lutar vale-tudo e ia aprender jiu-jitsu mesmo assim. Desde então segue a dieta criada por Carlos Gracie.

Boqueirão, Maracanãzinho e o cronômetro

O Sergio diz que estava no Boqueirão quando o Hélio levou o Rickson à academia de Luta Livre. Ele recebeu a ligação no escritório, tirou o terno e foi. Na chegada, segundo ele, eram só os três. Molina tomou a frente, o Hélio disse que tinha ido provar que o filho era o melhor, e o Rickson se ofereceu para lutar com todos, um por um. Marco Ruas pediu três meses para se preparar. Dali saiu o desafio no Maracanãzinho, em que, pelo relato dele, Eugênio Tadeu venceu Renan Pitanguy, Pinduca empatou com o Marco Ruas e Marcelo Behring venceu o Molina.

O Sergio também conta que marcou o tempo de todas as lutas do Rickson no tatame. Ele contava de dez para trás, e só duas passaram do nono minuto. Numa delas, contra um aluno de Osvaldo Alves, o Rickson perdia faltando um minuto e virou com uma finalização. A briga do Rickson com Hugo Duarte na praia ele não viu, porque era contra briga de rua. Mas conta que foi o confidente do Rickson naquele dia: ouviu o relato, avisou que o Hugo ia querer revanche e mandou o amigo raspar o rabo de cavalo. Naquela noite, o Rickson apareceu careca.

Ringman no Japão

Anos depois, o Hélio chamou o Sergio e disse que ele iria ao Japão com o Rickson. Ele virou o ringman, mas conta que, numa luta em que o japonês se agarrava às cordas, viu Royler tomar uma iniciativa que ele não teria. A partir dali, o Royler passou a falar e ele recuou. O Sergio faz questão de dizer que sempre pagou passagem, hotel e comida do próprio bolso e nunca se meteu em contrato.

“O meu negócio era estar com ele na hora da luta.”

Sergio Zveiter, no Pura Connection · 1:33:41

Uma vez, atravessando a Ponte Rio-Niterói, ele ligou para dizer que talvez não conseguisse ir. A resposta do Rickson fez ele comprar a passagem no mesmo dia.

“Eu prefiro perder aqui contigo do que ganhar sem você aqui.”

Rickson Gracie, no Pura Connection · 1:34:14

O papel dele também era segurar o amigo. Quando um aluno de Carlson estava sendo preparado para enfrentar o Rickson, e o Rickson quis ir à academia onde o rapaz tinha sido convidado, o Sergio não deixou. O rapaz era Amaury Bitetti. O argumento, segundo ele, foi simples: resolver no ringue e levar a bolsa para casa. Ele também estava na casa do Colorado antes do primeiro UFC, quando os Gracie foram rezar no ginásio e o Rickson chamou todo mundo para um mergulho num rio congelado.

Carlos e Hélio, as perdas e o Kron

O Sergio morou na mesma rua de Carlos Gracie e diz que viu de perto a relação dos dois irmãos. Para ele, quem fala em rixa entre Carlos e Hélio está enganado. O Carlos, dez anos mais velho, era uma espécie de mentor, e o Hélio ouvia. Ele também elogia Carlos Gracie Júnior por ter criado uma federação que levou o jiu-jitsu ao mundo, e cita Renzo como quem levou o Rickson para tratamento nos Emirados Árabes.

“Se o jiu-jitsu é o que é no mundo hoje, ele deve ao Carlos e ao Hélio.”

Sergio Zveiter, no Pura Connection · 0:55:55

Ele esteve nos momentos mais duros. Quando Rockson, filho do Rickson, morreu, foi com o amigo a Los Angeles. No voo, conta, o Rickson só perguntava o que tinha feito de errado. Segundo o Sergio, a próxima luta do Rickson seria contra Sakuraba, e ele parou de lutar depois dessa perda. Quando o Hélio morreu, não havia vaga no cemitério e falavam em colocar o corpo numa gaveta. O Sergio escreveu a petição à mão e conseguiu autorização judicial para abrir espaço e enterrar o mestre.

Com Kron Gracie, que ele viu nascer, a relação é de quase pai. O Sergio acompanhou as lutas do Kron no UFC, com o Rickson no córner em uma, Demian Maia em outra e Nate Diaz na última, quando o Kron foi nocauteado com uma cotovelada ao puxar para a guarda. Ele diz que tentou fazer de Murilo Bustamante o ringman do Kron, depois de o Murilo dar uma aula ao Kron numa casa no Havaí, e acredita que com o Murilo no córner o Kron teria sido campeão. Sobre as diferenças entre pai e filho, conta que não deixa nenhum dos dois reclamar do outro na frente dele.

O que fica da conversa

O que mais me marcou foi o tamanho da lealdade. O Sergio se define como aluno, não como lutador nem como professor, e mesmo assim esteve em quase todos os momentos que importaram para o Rickson. Ele diz que deve metade do sucesso ao pai e metade ao Hélio. E fecha com a regra que ouviu do Grande Mestre: pode divergir do irmão e do primo, mas na hora da luta todo mundo está junto.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.