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Pura Connection · Rickson Gracie

Rickson Gracie conta como quase desistiu contra Zulu e o que mudou depois

Do pânico numa gravata aos 12 anos à perda do filho, Rickson explica o que chama de jiu-jitsu invisível.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 8 ago 2020 (1:23:40).

Assisti à conversa do Rickson Gracie no Pura Connection e o momento que mais me pegou foi quando ele contou que quase desistiu de uma luta. Foi contra o Zulu, que ele mesmo lembra como uma das mais difíceis da vida. Segundo o Rickson, ele já tinha feito tudo o que podia, estava um bagaço, e a cabeça começou a mandar parar.

Quem mudou a história foi o pai, Hélio Gracie. O Rickson contou que o Hélio falava que o adversário estava mais cansado do que ele, que aquela era a hora de ir para dentro. Um irmão jogou um balde de gelo na cabeça dele, o gongo bateu, ele voltou e viu que o pai tinha razão.

“Eu entendi que meu pior inimigo era minha própria mente.”

Rickson Gracie, no Pura Connection · 0:20:52

A partir dali, segundo ele, desistir saiu do vocabulário. Ele preferia perder a luta de qualquer jeito do que pensar em desistir. É desse tipo de coisa que o Rickson fala quando usa a expressão jiu-jitsu invisível: o que acontece na cabeça de quem luta e ninguém vê.

O menino que pediu para ser enrolado num tapete

O Rickson contou que nasceu dentro do tatame. Rolava antes de andar, usava quimono, comia na dieta da família e cresceu sabendo o peso de ser um Gracie. Mesmo assim, a primeira grande crise dele veio cedo.

Aos 12 anos, treinando com adultos, um deles pegou uma gravata de lado na brincadeira. O Rickson entrou em pânico e bateu. Ele disse que saiu de lá chateado com ele mesmo, porque sentia que não precisava ter batido. Foi para casa e pediu ao irmão que o enrolasse no tapete da sala, num verão de 40 graus.

Os primeiros minutos, segundo ele, foram horríveis. Depois começou a pensar na brisa da praia, entendeu que o ar entrava por cima do tapete e que precisava ficar calmo. Aguentou dez minutos e saiu de lá com a certeza de que dava para controlar aquela situação.

“O medo é o melhor amigo que você tem quando você pode controlar o medo.”

Rickson Gracie, no Pura Connection · 0:16:11

Ele explicou a ideia com um exemplo bom: se ouvir um leão no quarto ao lado, chama a polícia. Se ouvir o filho pedindo socorro no mesmo quarto, entra, mesmo que morra. Para o Rickson, a missão tem que ficar maior do que o medo.

Samurai no Japão e o médico que ninguém aguentava

O Rickson falou bastante do Japão. Contou que foi reconhecido como samurai logo que chegou, pela conduta e até por coincidências: lutava de calção branco, a cor que o samurai veste antes da armadura, e cumprimentava o adversário com respeito ao final. Segundo ele, os japoneses viram nele um bushido moderno.

A história mais divertida foi a do médico. Na época da última luta no Japão, ele foi chamado para um programa de TV em que um médico apertava um ponto do pé das celebridades. Se aguentasse 30 segundos, vencia. Segundo o Rickson, ninguém tinha resistido até ali.

Ele contou que entrou no modo guerra e decidiu que preferia perder o pé a bater. Ficou olhando para o médico enquanto ele apertava, os 30 segundos passaram e o médico perdeu. Na saída do hotel, o Rickson foi mancando, com muita dor. Mas na hora, disse ele, a cabeça e a respiração foram maiores do que a dor.

A perda do filho

O André tocou no assunto mais difícil da vida do Rickson: a morte do filho Rockson, aos 18 anos. O Rickson disse que ficou sem chão e que não usou técnica nenhuma para amenizar. Queria chorar. Passou quase dois anos sem vontade de treinar nem de pegar onda, com queda de testosterona e depressão.

Um dia, no bosque atrás de casa, resolveu construir uma plataforma em cima de uma árvore para conversar com o filho. Levou três semanas, pendurado de cabeça para baixo, errando furo, voltando na loja para comprar madeira. Lá em cima ele meditava, acendia incenso e olhava a foto do filho.

Ali lembrou de uma coisa que o pai dizia: nada é totalmente ruim nem totalmente bom. O que ele tirou da perda foi o valor do tempo. Segundo o Rickson, antes ele adiava as conversas com o filho para depois do surfe. Hoje trata o presente como diamante.

“O amanhã pode nunca existir.”

Rickson Gracie, no Pura Connection · 0:30:48

Os três mentores e a respiração

O Rickson disse que teve um pai e três mentores: Carlos Gracie, Hélio Gracie e Orlando Cani. Com o Orlando aprendeu a respirar e levou isso para a luta e para o surfe. Hoje usa a respiração para atacar, defender, ficar calmo e manter a cabeça oxigenada quando o corpo já está morto de cansado.

O André passou um vídeo do Orlando para o Rickson. O mestre disse que teve muitos alunos, mas que o Rickson foi o número um e o único que entendeu que aquilo ia além da luta.

“Você foi o único que entendeu bem o recado, pegou a essência.”

Orlando Cani, no Pura Connection · 0:38:45

Ele também contou que fazia treino funcional com elástico há uns 30 anos, tomava banho gelado e treinava respiração muito antes de isso virar moda. Hoje entra em banheira de gelo com a cabeça submersa para, nas palavras dele, encontrar paz no inferno.

Sobre a dieta, lembrou que foi criada pelo tio Carlos. Na infância tomava mamadeira de banana com água de coco, Coca-Cola era proibida e até o bolo de aniversário era feito em casa, com recheio de tâmara.

Um jiu-jitsu para quem não quer competir

A última parte da conversa foi sobre a Jiu-Jitsu Global Federation. Segundo o Rickson, de cada dez alunos que entram numa academia normal, oito saem nos primeiros seis meses, porque se machucam e não aguentam a pressão do treino. A proposta dele é um primeiro ano sem oponente: aprender a cair, a levantar, a distribuir o peso e a respirar.

Ele disse que não se preocupa com quem já compete. O que o preocupa são os 95 por cento da população que precisam do jiu-jitsu e nunca entrariam numa aula. E fez um alerta para o aluno bom de briga: hoje, quem dá um soco no bar vai preso, e o momento é de vencer sem lutar.

“Nosso momento hoje é de vencer sem lutar.”

Rickson Gracie, no Pura Connection · 1:15:14

O que fica da conversa é um Rickson muito mais preocupado com a cabeça do que com a técnica. A luta contra o Zulu, o tapete, o médico japonês e a árvore do filho contam a mesma coisa: para ele, o jiu-jitsu de verdade é o que te deixa calmo quando tudo aperta.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.