Pura Connection · Carlos Gama
Carlos Gama conta como Rickson Gracie aprendeu a vencer pela respiração
Sócio do mestre, ele relembra o sufoco aos 13 anos, o balde de gelo contra o Zulu e a aula que levou antes de começar a ensinar.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 26 out 2021 (1:40:26).
Aos 13 anos, Rickson Gracie ficou sufocado embaixo de um parceiro na academia e bateu. Em vez de fugir da posição, pediu ao irmão que montasse nele de novo, e de novo, para aprender a respirar ali embaixo. Quem conta essa história é Carlos Gama, sócio do Rickson na plataforma de ensino dele e cofundador da federação que o mestre comanda. Segundo o Carlos, foi dali que o Rickson entendeu que manter a calma no desconforto era o caminho da sobrevivência.
O Carlos treina jiu-jitsu desde 1974, quando tinha 12 anos, e trabalha há anos ao lado do Rickson para registrar o legado dele. Na conversa com o André, no episódio 30 do Pura Connection, o assunto voltou o tempo todo para o mesmo lugar: a respiração, a defesa pessoal e o que o Rickson chama de jiu-jitsu sensorial.
Assisti à entrevista e gostei muito de ouvir alguém que conviveu de perto com o Rickson explicar, com exemplos concretos, de onde vem aquela calma que a gente sempre viu nas lutas dele.
Orlando Cani e o controle do medo
Segundo o Carlos, a busca do Rickson pela respiração ganhou método quando ele cruzou com Orlando Cani, criador da bioginástica. O Carlos explica que o trabalho do Cani é todo fundamentado em yoga, tai chi chuan e artes marciais inspiradas nos movimentos e na respiração dos animais. O Rickson, diz ele, entendeu que a respiração seria a ferramenta que faria toda a diferença para ele como lutador.
O argumento do Carlos é simples. A respiração é a única função essencial à sobrevivência que a gente consegue controlar, e controlando os pulmões você mexe no coração e no cérebro. Ele lembra que o Rickson costuma dizer que tem medo de tudo, e que o medo é um companheiro que mostra onde não enfiar a mão. O controle desse medo começa pela respiração.
O Carlos conta também como o Rickson usava isso antes das lutas. Segundo ele, o mestre respirava de um jeito que levava os batimentos a 120 uma hora antes, e entrava no ringue com o coração entre 70 e 80 e a mente vazia.
“O grande oponente dele era a própria cabeça.”
Carlos Gama, no Pura Connection · 1:12:52
O balde de gelo contra o Zulu
A frase acima é sobre a primeira luta do Rickson contra o Zulu. Segundo o Carlos, o Rickson tinha 19 anos e chegou ao córner se arrastando, certo de que não tinha condição de voltar. O pai, Hélio Gracie, jogou um balde de água com gelo nele e mandou continuar. O Rickson voltou, pegou as costas e finalizou no mata-leão. O Carlos conta que o próprio Rickson diz ter tomado ali a decisão de nunca mais desistir na vida.
Para o Carlos, essa luta resume a ideia que atravessa toda a entrevista: o adversário mais difícil está dentro da cabeça. E ele leva isso para fora do tatame. Conta que usou a mesma lógica no surfe, que pratica desde menino no Arpoador. Antes, tomava uma vaca grande e achava que ia morrer. Depois do que aprendeu com o Rickson, passou a usar toda a capacidade dos pulmões, inclusive na pesca submarina, e percebeu que, se aguenta minutos sem respirar, não tem motivo para se apavorar com um caldo de 20 ou 30 segundos.
A aula que o Rickson mandou ele dar
O Carlos ajudou o Rickson a produzir o curso de defesa pessoal que ele descreve como uma releitura do livro de jiu-jitsu do Hélio, com as defesas em pé pela frente e por trás, contra faca, revólver e bastão, e as saídas da montada, do cem-quilos, das costas e da guarda. Mesmo assim, quando disse ao mestre que queria começar a dar aula, depois de 40 anos treinando sem competir, levou uma lição.
Segundo o Carlos, o Rickson pediu que ele desse uma aula ali mesmo. Ele achava que sabia todas as posições do manual, passo a passo. O Rickson corrigiu: aula não é verbal. O professor tem de fazer a agressão de forma leve, mostrar as etapas e ir aumentando a pressão até o aluno sentir que, com o quadril no lugar certo, o outro não consegue dobrá-lo.
“A genialidade reside na simplicidade.”
Carlos Gama, no Pura Connection · 0:11:13
O Carlos resume o que o Rickson ensina hoje em três coisas que aparecem em qualquer posição, de ataque ou de defesa: base, distribuição de peso e conexão. Ele cita uma entrevista do Paulão Filho, que teria dito que com o Rickson não aprendeu posição nenhuma e sim ajuste. E dá o exemplo mais banal possível: ninguém vê numa foto se o peso está no calcanhar ou na ponta do pé, mas quem executa sente a diferença entre cair e ficar em base.
Rolls, Murilo e as lutas sem tempo
O papo passou por outros nomes. Sobre Rolls Gracie, o Carlos lembra uma entrevista em que o Rickson destacava a rapidez de raciocínio do primo, que com 70 quilos vencia caras 20 ou 30 quilos mais pesados, e a busca por wrestling e sambô. Para o Carlos, essa rapidez que Rolls e Rickson tinham em comum funciona como um reflexo, algo que só aparece depois de muita prática.
Ele também defende as lutas do Rickson no Japão contra quem diz que eram fáceis. Cita o Yuki Nakai, que chegou à final cego de um olho, e o Funaki, segundo ele 15 ou 20 quilos mais pesado e muito duro, na última luta do Rickson.
E sobra um elogio enorme a Murilo Bustamante. O Carlos conta que, numa luta pelo cinturão do UFC, o Murilo finalizou o adversário, o árbitro não viu a batida, a luta seguiu e o Murilo respirou fundo, voltou e finalizou de novo. Para o Carlos, o Murilo é um dos grandes samurais do jiu-jitsu.
“O que eu quero é a pessoa vencer sem lutar, não lutar para vencer.”
Carlos Gama, no Pura Connection · 1:35:11
O tio que levou o jiu-jitsu para a universidade
No fim, o Carlos falou do tio, Pedro Gama Filho, que o levou para o judô aos 4 anos e para o jiu-jitsu aos 12. Segundo ele, o tio fez o primeiro intercâmbio de judô com a Kodokan no Brasil, montou na Gama Filho um trabalho que chegou a ser campeão por dez anos e criou a primeira cadeira de jiu-jitsu numa escola de educação física. O Carlos conta que foi na Gama Filho que o Júlio montou o time de competição que depois virou a GF Team.
Ele conta ainda que competia pelo Olímpico, de Osvaldo Alves, e que o embrião do Instituto Reação, na Rocinha, foi um projeto do tio numa Vila Olímpica em Jacarepaguá, como reconhece Flávio Canto.
O que fica da conversa é uma imagem do Rickson que vai além do lutador invicto. Pelo relato do Carlos, é alguém que transformou o próprio sufoco embaixo de um parceiro em método, e que hoje passa o tempo tentando ensinar isso de forma simples para qualquer pessoa.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.