Pura Connection · Pedro Valente
Pedro Valente: Hélio Gracie disse que perderia lutas no jiu-jitsu de pontos
Aluno direto de Hélio, o cofundador da Valente Brothers explica por que a regra de pontos castiga a defesa e defende um jiu-jitsu sem força.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 15 set 2025 (1:28:29).
Hélio Gracie teria perdido a maioria das lutas da vida se elas fossem decididas por pontos. Quem conta é Pedro Valente, que ouviu isso do próprio Hélio. Segundo o Pedro, o grande mestre chegou a presidir a federação que criou o sistema de pontos e, anos depois, percebeu que aquela regra ia contra o jiu-jitsu que ele tinha construído.
“Se esse sistema de pontos original da federação tivesse sido aplicado, eu teria perdido a maioria das minhas lutas. Eu não seria o Hélio Gracie hoje.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 0:38:22
Assisti à conversa do Pedro com o André no Pura Connection, a primeira gravada depois do episódio 200 do canal. Pedro é cofundador da Valente Brothers, em Miami, filho do médico Pedro Valente e aluno direto de Hélio. O papo passou por alimentação, controle emocional e defesa pessoal, mas o que ficou comigo foi a crítica dele ao jiu-jitsu de pontos.
Como os pontos mudaram o jiu-jitsu
Segundo o Pedro, até a década de 60 não existia ponto no jiu-jitsu. Carlos e Hélio rejeitavam a ideia: para eles, uma luta só terminava com desistência ou com alguém perdendo os sentidos. Fora disso, não havia vencedor. Os japoneses que estavam no Brasil insistiam nos pontos porque achavam as lutas longas e monótonas, e Hélio empatou muitas.
O sistema veio com a primeira federação. Pedro diz que entende a lógica: os pontos formavam um mapa de progressão técnica. Na época, queda e passagem de guarda valiam dois pontos, joelho na barriga valia três, montada e pegada pelas costas com os ganchos valiam quatro. Quanto mais perto da finalização, mais pontos.
O problema, na visão dele, é que a regra premia o domínio, enquanto a base do jiu-jitsu sempre foi a defesa.
“A essência do jiu-jitsu foi a defesa. E essa regra de pontos, ela pune a defesa.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 0:35:12
Ele explicou com um exemplo de tatame. Contra alguém muito mais pesado, que sabe passar guarda, gastar tudo para segurar a guarda deixa você esgotado. Então ele cede a passagem de propósito, confia na defesa por baixo da atravessada e da montada e vai cansando o adversário no corpo e na cabeça. Da montada, segundo ele, o upa pode levar você para cima com menos risco do que uma raspagem que expõe o rosto a socos. Por isso, conta o Pedro, a raspagem tradicional era a tesoura: o joelho fica protegendo e o outro não consegue socar.
Na conversa, os dois lembraram da luta de Rickson contra o Rei Zulu. No primeiro round, de dez minutos, o Zulu derrubou. Com pontos, o placar seria 2 a 0 para ele. E Hélio, segundo o Pedro, dizia que Royce teria perdido para Dan Severn se a luta fosse decidida no ponto.
Para o Pedro, o resultado foi um jiu-jitsu mais de força, com mais lesão e menos longevidade. O contraponto é o próprio Hélio, que segundo ele seguia treinando com 90 e poucos anos sem estar quebrado, justamente porque usava pouca força. Ele citou ainda a luta de Ryron Gracie com André Galvão no Metamoris: Ryron cedeu várias vezes a passagem e ficou se defendendo. Com pontos, diz o Pedro, teria perdido. Sem eles, quem saiu frustrado foi o André.
O jogo de xadrez de Hélio
O jiu-jitsu que o Pedro aprendeu com Hélio funciona como um jogo de xadrez. Relaxado, você sente a preparação do golpe do outro e anula antes que ele aconteça. Segundo o Pedro, Hélio seguiu desenvolvendo essa defesa até os últimos dias de vida, e dizia em entrevistas que entrava no ringue para não perder.
Ele admite que é o mais difícil de ensinar, porque o instinto manda usar força. Nada é mais contraintuitivo, diz, do que pedir para alguém relaxar no meio de um combate. E aqui veio uma crítica aos professores: se toda vez que o aluno está por baixo alguém grita para ele sair de lá, o treino ensina desespero.
“Então o jiu-jitsu é uma faca de dois gumes. Esse treinamento pode ir tanto para um lado quanto pro outro.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 0:31:32
Segundo o Pedro, é comum ver grandes campeões que são pessoas nervosas, de temperamento pouco controlado. O caminho que ele usa com os alunos vai no sentido oposto. Quando o sufoco aperta e dá vontade de bater pelo cansaço, o aluno conta até 50 antes. Quando chega no 50, a posição quase sempre já mudou e ninguém precisou bater.
Comida, calma e o código 753
Pedro diz que o jiu-jitsu sempre andou junto com uma filosofia, desde os japoneses que o trouxeram para o Ocidente até os irmãos Gracie. E faz um alerta.
“Quando o jiu-jitsu se desconecta da sua filosofia, ele se torna perigoso e até negativo.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 0:06:53
Para ele, essa filosofia é a busca constante por saúde do corpo, da mente e do espírito. Foi o que os irmãos Valente tentaram organizar no código 753. Segundo o Pedro, Carlos Gracie era um sábio: lia muito, tinha uma biblioteca e estudou a fundo os princípios de saúde. Passou isso para os irmãos, mas quem abraçou de verdade foi Hélio, que confiava na orientação do irmão mais velho.
O nome original do que hoje se chama dieta Gracie, conta o Pedro, era regime de alimentação racional: comer usando a razão, sem deixar a vontade mandar. Ele considera a alimentação parte do próprio jiu-jitsu, porque sem saúde ninguém se defende. A família respeitava a hora de comer, com quatro a cinco horas entre as refeições e nada de beliscar. E ele repetiu uma frase do pai: é melhor comer um chocolate de bom humor do que uma maçã de mau humor.
Defesa pessoal sem romantismo
Segundo o Pedro, Hélio dizia que a autoconfiança dá à pessoa a capacidade de deixar para lá, porque ela não tem nada a provar. Ele viu isso de perto nos Estados Unidos, onde dá aula para militares de forças especiais. Depois de uma aula, um grupo que bebia num estacionamento provocou os militares. Eles riram e seguiram andando.
Também contou um erro próprio. Numa briga de rua em Porto Rico, estava com o joelho na barriga do adversário quando o homem agarrou seu pescoço, e ele foi no reflexo para a chave de braço. Pedro reconhece que podia ter levado um chute. Na hora, fez o que treinava.
Ele rebate quem vê uma queda e diz que é judô, ou vê um soco e diz que é kickboxing. Segundo ele, o jujutsu de antes de Jigoro Kano já tinha quedas, luta de chão e golpes traumáticos. Hélio era perito em chute e treinava um bom boxe, e Carlson também era fera em chute e soco. Maeda, diz o Pedro, já falava em luvas com os dedos de fora para o vale-tudo. Na Valente Brothers, o irmão Guilherme cuida dessa parte.
Sobre defesa pessoal feminina, Pedro contou o caso de uma aluna do professor Gustavo Dantas, que ensina o método dos Valente, atacada à noite num aeroporto no Arizona. Faixa azul, de salto e com mochila, ela caiu, deitou, dobrou os joelhos, girou com o agressor e acertou uma pedalada no queixo dele. O homem desistiu. Segundo o Pedro, a Valente Brothers já tem várias mulheres faixas-pretas dando aula em tempo integral.
Do tatame da Gracie a Miami
Pedro cresceu fazendo aula coletiva na academia Gracie. Todo verão ia para a Califórnia, na época dos desafios, e treinava perto de Rorion, Rickson e Royce. Ele contou que, no fim de seminários com 100, 200 pessoas, os professores treinavam com todo mundo, e ele, com 15, 16 anos, faixa azul, pegava uma fila de alunos para treinar um por um.
Depois do mestrado na Universidade de Miami, precisou escolher entre o mercado e o tatame. Escolheu dar aula em tempo integral com os irmãos, com o apoio e a supervisão de Hélio. Quando decidiram focar em defesa pessoal e sair das competições, eram os únicos, e ouviram muita crítica.
“E houve um preconceito: isso aí não é real, isso não é jiu-jitsu.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 1:24:39
Hoje, segundo ele, a comunidade abraçou o trabalho, e os grandes professores da competição passam pela academia quando vão a Miami. O convite dele para quem ainda duvida é simples: ir lá e fazer aula.
O que fica da conversa, para mim, é a ideia de um jiu-jitsu que protege quem treina. Pedro diz que a chance de um praticante de verdade entrar numa briga de rua é pequena, e que o maior ganho aparece na batalha do dia a dia: receber uma notícia ruim, encarar um problema grande sem perder a calma. Dá para concordar ou discordar da crítica aos pontos, mas é difícil negar que o velho Hélio, treinando aos 90 e poucos anos, tinha alguma coisa a ensinar.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.