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Connect Cast · Carlson Gracie Júnior

Carlson Gracie Jr. revela a origem da briga do pai com Hélio Gracie

O filho do lendário Carlson conta como a derrota para Waldemar Santana, a academia própria e a ida para os Estados Unidos com Vitor Belfort mudaram a família Gracie.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 11 jan 2024 (2:28:31).

Assisti à conversa do Carlson Gracie Júnior no Connect Cast e saí com uma certeza: tem muita coisa sobre o pai dele que a gente conta errado. O Júnior mora em Chicago há 27 anos, tem academia lá e outra no Texas, e passou duas horas e meia falando do Carlson Gracie sem esconder nada. Da briga com o tio Hélio ao racha da equipe, passando pela ida para os Estados Unidos com Vitor Belfort.

O ponto de partida de tudo, segundo ele, foi uma noite de derrota. Quando o Hélio perdeu para Waldemar Santana, a família precisava de alguém para lavar a honra. O Júnior lembra que, naquela geração, a escolha era entre o Carlson e o tio Robson, e o Robson não tinha físico para ganhar do Waldemar. Sobrou para o Carlson.

“Meu avô tocou no ombro dele e falou: agora você entra lá e desafia.”

Carlson Gracie Júnior, no Connect Cast · 0:16:45

O desafio saiu na mesma hora, antes mesmo de levantarem o braço do Waldemar. O curioso é que os dois eram amigos. Segundo o Júnior, foram seis ou sete lutas entre eles, e a amizade continuou. A mãe dele contou que na última o Waldemar pediu para o Carlson ir devagar, porque precisava do dinheiro e podia perder o emprego se fosse finalizado. O Carlson aliviou, e o avô, Carlos Gracie, ficou bravo.

Onde começou a briga com o Hélio

Na versão do Júnior, o Hélio tinha um ego grande e não gostou de ver o sobrinho subir justamente quando ele caiu. O atrito começou dentro da Academia Gracie: o Carlson queria ensinar o que achava certo para alunos que ele via com potencial, e o Hélio dizia que aquilo não era do programa. Junte a isso o fato de o Carlson não receber direito pelo trabalho, e ele decidiu sair para abrir a própria academia.

O Júnior acredita, sem ter certeza, que a primeira academia do pai foi aberta com Ivan Gomes em 1966, depois daquela luta entre os dois em que, nas palavras dele, ou viravam amigos ou se matavam. O Carlson contava que bateu tanto que a mão ficou inchada, e que o Ivan era um monstro.

O que mais pesou na relação, segundo o filho, foi o rótulo. O Carlson passou a ser tratado como ovelha negra porque ensinava gente de fora, numa época em que o jiu-jitsu era aula particular e cara, só para quem tinha dinheiro. E quando os alunos dele começaram a ganhar dos alunos da família nos campeonatos, a coisa azedou de vez. As eliminatórias eram internas, e a maior parte dos atletas saía da turma do Carlson, uma boa parte do Rolls e uma parte pequena do Hélio. Aí o Hélio decidiu que cada um ia lutar por si.

O Júnior faz questão de lembrar que o Rolls, segundo ele, virou o que virou treinando na academia do Carlson, na Figueiredo Magalhães. Ele diz que viu, sentado com a irmã, os dois treinando de porta fechada. Também conta que o Hélio foi quem o graduou nas primeiras faixas e chegou a dar a faixa-preta antes do pai.

“Meu pai falou: não, preta sou eu que decido.”

Carlson Gracie Júnior, no Connect Cast · 1:49:42

A ida para os Estados Unidos com Vitor Belfort

A mudança para a América, segundo o Júnior, foi ideia do Vitor, que tinha 15 anos e convenceu o Carlson a ir. O filho foi chamado para uma luta de MMA com dois meses e meio de antecedência, sem nunca ter lutado vale-tudo. No dia da viagem, o pai avisou que ele ia ficar por lá, porque precisava de um professor. Ele chegou em 1995 e encontrou tudo bagunçado: sem casa e com a academia quase fechando.

A luta, no Extreme Fighting, acabou saindo na Carolina do Norte. O Júnior empatou e o Zé Mário perdeu na mesma noite. Depois veio a proposta que mudou a vida dele: alunos tinham conhecido um brasileiro em Chicago que treinava numa garagem e arrumado um investidor. Ele foi no fim de 1996, achou a cidade horrível no inverno e ficou. Em quatro meses, conta, a academia tinha 200 alunos.

A relação entre o Carlson e o Vitor era boa, mas foi desgastando. Outro ponto sensível foi o nome Gracie: segundo ele, Rorion levou o caso à Justiça para que quem usasse o nome pagasse royalties.

O treino mais duro do Rio e o racha

Quem treinou com o Carlson descreve a academia como um caldeirão, e o filho confirma. O pai anotava tudo num papel durante o treino em pé, provocava o ego dos alunos e só graduava quando havia vaga. O Júnior conta que o Crezinho teve de voltar para a faixa azul depois de ser finalizado pelo De La Riva no teste. Briga no treino se resolvia ali mesmo: três minutos de pau e depois kimono de volta.

Dinheiro era outra história. O Carlson quase não cobrava ninguém, e o filho, que também não recebia, fez um acordo: dava aulas para o pai e ganhava o horário das três da tarde. Ninguém botava fé, mas por ali passaram Wallid, Zé Mário e outros atletas da nova geração.

Por isso o Júnior diz que já esperava o racha, quando parte dos alunos saiu com o MMA começando a dar dinheiro. Ele cita nomes como Murilo, Libório e Bebeo, e critica a forma, com a tentativa de levar todo mundo junto. Para ele, o problema estava na base.

“Se meu pai não consegue cobrar mensalidade, imagina a bolsa de uma luta onde ele não fala nem inglês.”

Carlson Gracie Júnior, no Connect Cast · 0:41:54

Segundo o filho, o Carlson nunca superou aquilo. Ficou com raiva, falava do assunto e, na leitura dele, isso foi consumindo o pai aos poucos.

A última conversa e o legado

O relato mais forte da entrevista é o do hospital. O Júnior conta que o pai o chamou fora do horário de visita, encostou a cabeça na dele e disse que aquele era o último dia. Pediu que cuidasse da mãe e das irmãs, mantivesse o legado e confiasse nas pessoas certas. O telefone tocou às cinco da manhã. Ele diz que ficou horas sem conseguir falar.

Depois vieram dois meses de silêncio. O telefone não parava, e ele desligou tudo. Com a ajuda da mãe, do amigo Sonequinha e de conselhos do tio Carlinhos, voltou a organizar a equipe, que segundo ele estava praticamente morta e hoje briga entre as dez melhores. Nos dez anos da morte do pai, organizou uma homenagem no Mundial Master de 2016 e lutou, mesmo depois de um acidente de carro que o deixou um mês em cadeira de rodas.

“Onde houver um praticante de jiu-jitsu, há uma semente de Carlson Gracie.”

Carlson Gracie Júnior, no Connect Cast · 0:48:07

O que fica da conversa é um filho que não esconde os defeitos do pai (o ódio de perder, o jeito de não cobrar, a raiva que carregou) e ao mesmo tempo defende que foi ele quem abriu o jiu-jitsu para todo mundo. O Júnior contou que ia receber a faixa-coral no dia seguinte, junto com o Wallid e o Marcelo Alonso, e que um documentário sobre o Carlson está sendo montado. Pelo que ouvi, a história da família Gracie ainda tem muito lado para ser contado.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.