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Pura Connection · Sylvio Behring

Sylvio Behring: brigar com o American jiu-jitsu só fortalece o movimento

O mestre fala da tradição que o Brasil exportou, da disciplina no tatame e de como a história do jiu-jitsu às vezes deixa gente importante de fora.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 4 abr 2022 (1:08:28).

Tem muita gente no jiu-jitsu brasileiro irritada com o tal do American jiu-jitsu, a turma que tirou o kimono, criou regra nova e diz que está fazendo outra coisa. O mestre Sylvio Behring tem uma resposta que me pegou de surpresa: deixa rolar.

Assisti à conversa dele no episódio 50 do Pura Connection e ele foi direto. Para o Sylvio, quanto mais a gente briga com o movimento, mais força dá para ele. Ele acha que o que os americanos fazem é um processo natural da liberdade que o próprio jiu-jitsu brasileiro sempre teve.

“Quanto mais resistência a gente colocar, mais fortalece o movimento.”

Sylvio Behring, no Pura Connection · 0:35:13

O American jiu-jitsu toma açaí

O raciocínio do Sylvio é que o Brasil exportou a técnica e, junto com ela, um jeito de viver. O André lembrou que lá fora a contagem é feita em português, assim como no judô ela é feita em japonês. O Sylvio completou com uma brincadeira: o cara pode chamar de American jiu-jitsu, mas está tomando açaí. Para ele, o impacto cultural é mais profundo do que parece.

Ele diz que o jiu-jitsu nunca foi uma arte fechada como as japonesas mais tradicionais. Sempre teve esse jeito carioca, de liberdade. Então os brasileiros ensinaram, os americanos aprenderam e resolveram fazer do jeito deles. Segundo o Sylvio, os atletas de hoje são super treinados, super suplementados, e fazem coisas que ele mesmo teria que nascer de novo para fazer.

Ele também lembra que a procura por jiu-jitsu no mundo é muito maior do que a oferta de professores, então há espaço para todo mundo. A comparação que ele usa é a de uma planta: dá para podar por um tempo, mas depois só arrancando pela raiz, e isso já não tem mais como.

A marcialidade está na disciplina

Isso não quer dizer que o Sylvio aceite qualquer coisa no tatame dele. Pelo contrário. Ele conta que, onde não tem disciplina, ele nem entra, e que nos seminários dele até o aluno mais bagunceiro fica disciplinado, porque as regras são combinadas antes. Quem erra paga flexão, e todo mundo paga rindo.

“A marcialidade é a disciplina. Essa é a grande parada.”

Sylvio Behring, no Pura Connection · 1:01:41

Com criança, ele pergunta se ela quer que ele seja justo ou bonzinho, e diz que elas escolhem o justo. Também critica quem separa os alunos de projeto social dos garotos de classe média com medo de que alguém se machuque. Para ele, isso tira do garoto protegido a chance de enfrentar situação difícil, e um dia ele vai precisar.

“Se você nunca foi estrangulado, você não sabe o que é sufoco.”

Sylvio Behring, no Pura Connection · 0:43:30

Sobre a briga entre o jiu-jitsu raiz e o moderno, ele tem uma posição equilibrada. Segundo o Sylvio, o jiu-jitsu da família Gracie foi desenvolvido para combater as agressões comuns daquela época, e muita coisa mudou. Ele gosta de preservar tudo porque acha o sistema inteligente e acha que é cultura, mas diz que não aceitar evolução é uma atitude retrógrada.

A família Gracie e os nomes esquecidos

A parte de história foi a de que eu mais gostei, porque é o tipo de coisa que quase ninguém conta. O Sylvio conta que entrou no jiu-jitsu em 1966, com 4 anos. O avô dele, segundo ele, era amigo do Hélio Gracie e foi quem colocou o pai, Flávio Behring, para treinar. Ele diz que a família Gracie tinha penetração no topo da sociedade carioca, por causa da postura, da educação e da autoconfiança de tratar qualquer um de igual para igual.

Para o Sylvio, a importância da família Gracie é incontestável: todo mundo que tentou desmistificar só acabou enaltecendo. Mas ele lembra que os irmãos eram todos feras, e que alguns ficaram menos citados. Ele destaca o Jorge, que chama de craque, e diz que, numa pesquisa que fez no Rio Grande do Sul em 1997 ou 1998, era o nome dele que aparecia por lá.

Ele tem uma frase sobre isso que eu acho importante para quem estuda o assunto: quem faz a história às vezes deixa nomes de fora, por ciúme, insegurança ou briga pessoal. Ele admite que já sentiu isso com gente do próprio caminho e que está tentando contar tudo como foi.

“Não importa se eu gosto do cara. Se fez parte da história, tem que ser citado.”

Sylvio Behring, no Pura Connection · 0:12:48

O Sylvio também alerta para a memória romântica. Ele contou de uma lembrança que repetia sobre um bastão todo trabalhado em jacarandá, até alguém corrigir que era de pau-brasil e lisinho. Por isso, ele diz, é preciso conversar com outras pessoas da mesma época antes de dar a história como certa.

Dormindo na academia para plantar a semente

Quem vê o jiu-jitsu cheio de alunos hoje não imagina o começo lá fora. O Sylvio conta que, no início, cansou de dormir na academia porque não tinha como pagar hotel. No Canadá, segundo ele, viajava para dar seminário para 16 pessoas, às vezes doente ou machucado, e não tinha como recuar.

Ele diz também que foi um bom aluno antes de ser um bom lutador: anotava tudo em caderno e depois foi estudar educação física. Para ele, a maioria hoje acha que vai aprender por osmose, só assistindo. Aos quase 60 anos, a preocupação dele é o legado, preparar os professores que seguem o sistema dele para terem a cabeça aberta e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de preservar a cultura que receberam.

O que fica da conversa é essa mistura. O Sylvio é tradicional no tatame e tranquilo com o mundo lá fora. Faça a sua parte bem feita, preserve o que recebeu e deixe os outros seguirem o caminho deles.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.