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Pura Connection · Relson Gracie

Relson Gracie conta como o jiu-jitsu acalmou o Havaí e virou dia oficial

Filho de Hélio Gracie, ele lembra a garagem onde começou a dar aula, os 700 alunos depois do primeiro UFC e por que acha que as regras de hoje afastaram o jiu-jitsu da rua.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 2 mai 2022 (1:30:02).

No Havaí, 6 de abril é o dia de Relson Gracie. Segundo ele, a data foi oficializada com mais de 500 assinaturas e a assinatura da governadora da época, e o rosto dele foi pintado num edifício, ao lado do pai, Hélio Gracie. Relson conta que é uma homenagem rara para um brasileiro numa ilha que dá dia a poucos nomes, como o do surfista Eddie Aikau.

Assisti à conversa dele no Pura Connection e fui atrás de entender como um filho do Hélio chegou a esse ponto. A resposta passa por uma garagem, por um bairro de surfistas violentos e por um aluno que botou o filho do homem mais temido da ilha para dormir. Passa também por uma opinião que o Relson não esconde: o jiu-jitsu de competição de hoje, para ele, esqueceu a rua.

De São Francisco à garagem no Havaí

Relson conta que chegou a São Francisco em 1985, oito anos antes do UFC, junto com Carlinhos Sauer, irmão de Pedro Sauer. Ninguém sabia o que era jiu-jitsu. Enquanto não conseguia alunos, trabalhou como ajudante de bombeiro e de pedreiro, cortando pedra nas montanhas que tinham pegado fogo. O problema, segundo ele, era vender uma luta de chão vinda do Brasil para quem nunca tinha ouvido falar dela.

A virada veio com um convite de um amigo, o Carlão, que morava no Havaí. O trato era montar um tatame na garagem, receber 1.500 dólares por mês e cozinhar para ele, que queria fazer a dieta. A turma começou com 10 pessoas, foi a 15 no mês seguinte e logo a garagem ficou apertada. Um amigo que estudava na universidade conseguiu um espaço maior, e ali o Relson encontrou o que não tinha achado em São Francisco: um povo apaixonado por arte marcial. O primeiro aluno trouxe o irmão, depois os primos, e aparecia com peixe de presente.

O jiu-jitsu que acalmou a praia

O Havaí daquela época, nas palavras dele, era turbulento. Havia briga na água por onda, e brasileiro que chegava apanhava de grupo. A casa do Relson virou uma espécie de embaixada para quem fugia dessas confusões.

O episódio que mudou tudo, segundo ele, envolveu um aluno garoto. O filho de Fast Eddie, figura temida da ilha, foi mandado provocar o menino. O garoto pediu para parar, levou empurrão e chute e acabou estrangulando o outro até ele apagar. O pai viu, ficou furioso e disse que ia botar o professor para fora da ilha. O Relson conta que foi sozinho até ele, apresentou-se como Gracie, pediu desculpas pelo incidente e convidou o filho para treinar. O clima, segundo ele, acalmou ali.

“Uma comunidade violenta acalmou. Eu cheguei simples, não tive medo.”

Relson Gracie, no Pura Connection · 0:13:23

Hoje, conta o Relson, quando surge briga na água, o havaiano sai do mar e resolve no jiu-jitsu, sem soco, e muitas vezes ganha do brasileiro. Para ele, a luta diminuiu muito a violência na ilha.

De 80 para 700 alunos depois do Royce

A explosão veio em 1993. O Relson tinha 80 alunos na universidade quando Royce fez a primeira luta no UFC. Segundo ele, a turma dobrou para 160, depois foi a 300, e na quinta vez que o Royce lutou já eram 700 inscritos, com uma lista de 180 pessoas esperando seis meses para entrar. Como a universidade não deixava cobrar mensalidade, ele pedia 10 dólares de doação na porta. Com 120 alunos numa noite, fazia 1.200 dólares.

No mesmo dia da primeira luta do Royce, em 1993, o Relson recebeu a faixa vermelha e preta. Ele diz que passou 20 anos ensinando nos Estados Unidos com essa faixa até ganhar a vermelha, em 2013, num 6 de abril, junto com a homenagem havaiana.

O trabalho chegou ao governo americano. Ele conta que o Serviço Secreto descobriu as aulas por meio de filhos de agentes e o convidou para uma demonstração. Levou dois alunos faixas-azuis pequenos e pediu que agentes grandes tentassem algemá-los em cinco minutos. Ninguém conseguiu, e um dos alunos ainda estrangulou um agente. Segundo o Relson, ele dá aula para o Serviço Secreto há 30 anos, e os cadetes do exército treinam jiu-jitsu de uniforme e bota, por isso chave de pé não entra no programa.

Invicto e contra as regras de hoje

O Relson diz que competiu 22 anos sem perder uma luta e parou aos 32. Nos últimos anos, Rickson entrou na mesma categoria, mas o pai não deixava os dois se enfrentarem. Segundo ele, o preparo incluía um mês inteiro de disciplina antes de cada campeonato, dormindo às nove da noite, sem festa e sem droga.

“Eu nunca perdi uma luta. Vinte e dois anos campeão.”

Relson Gracie, no Pura Connection · 0:45:03

Ele credita muito a Rolls, que chama de irmão mais velho e que fazia aniversário no mesmo dia que ele, 28 de março. O Rolls, conta o Relson, era um grande incentivador e trazia judô, wrestling e sambo para a academia. Ele lembra que Carlson foi quem começou a competição dentro da família, e que todos abraçaram a ideia.

Sobre as regras atuais, a crítica é dura. O Relson acha absurdo um atleta somar nove pontos em um segundo, com queda, passagem e montada sem estabilizar nada. Ele quer voltar aos campeonatos com as regras do Hélio, e conta que organizou torneios no Havaí até 2006 que foram de 220 para 2.700 inscritos, com prêmio de 4.000 dólares no absoluto e, segundo os bombeiros, só dois atendimentos em três dias. Pelas contas dele, gente como Xande Ribeiro, Saulo Ribeiro, Feitosa e Cacareco competiu lá.

A outra crítica é às chaves de pé e à mão de vaca, que ele diz tirarem atleta do esporte para sempre. Para o Relson, o Hélio tirou essas posições das regras justamente para proteger os filhos. E, numa briga de rua, ele não vê sentido nelas.

“Numa briga de rua, eu quero ver quem pega meu joelho.”

Relson Gracie, no Pura Connection · 0:26:52

A defesa pessoal que ficou para trás

O centro de tudo, para o Relson, é o sistema do pai. Ele diz que não muda nada do que o Hélio criou, só aprimora a forma de ensinar para o faixa-branca aprender mais rápido, e compara com trocar o pneu de um carro sem mexer no motor. No currículo que ensina, segundo ele, são 22 defesas contra arma de fogo e 13 contra faca. Ele chegou a desafiar qualquer academia do Brasil a tirar uma faca da mão dele.

“Eu nunca vou mudar o sistema dele.”

Relson Gracie, no Pura Connection · 0:18:03

Na visão do Relson, a comunidade deixou essa parte de lado porque todo mundo manda o aluno para a competição. Ele cita grandes campeões como André Galvão e Marcelo Garcia como exemplos de um jiu-jitsu que brilha no campeonato mas, na opinião dele, não foi feito para a rua. Também lamenta a mudança do Royce para a trocação na luta contra Matt Hughes, que ele diz ter se afastado do que o Hélio ensinava.

“O meu esporte vai para a rua. O esporte que o pessoal faz não vai para a rua.”

Relson Gracie, no Pura Connection · 1:11:22

Aos quase 70 anos, com dez associações no Brasil e um time que, segundo ele, levou 70 alunos a um campeonato e voltou com 66 medalhas, 50 delas de ouro e todas por finalização, o Relson segue na mesma linha. O que fica da conversa é um filho do Hélio que ainda mede o jiu-jitsu pela pergunta do pai: funciona ou não funciona na hora da verdade.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.