Pura Connection · Flávio Behring
Flávio Behring condena a falsa defesa pessoal vendida na internet
Aos 85 anos, o aluno de Hélio Gracie e João Alberto Barreto diz que jiu-jitsu de campeonato e autodefesa pedem treinos diferentes.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 28 ago 2023 (1:45:55).
Flávio Behring tem 85 anos e começou no jiu-jitsu com 10, na academia que funcionava na casa de Hélio Gracie. Com essa bagagem toda, ele usou a conversa no Pura Connection para fazer um alerta sério: quem vende defesa pessoal pela internet sem ter preparo está enganando gente e colocando vidas em risco.
Assisti à entrevista inteira e saí com a sensação de ter ouvido um professor falando para outros professores. O mestre Flávio fala pouco de medalha e muito de como se ensina, de por que se ensina e para quem. E, no fim, conta de um jeito muito sereno como a morte de dois filhos mudou a vida dele dentro e fora do tatame.
“O sujeito que vem a público pela mídia eletrônica e se vende como professor de defesa pessoal não sabe nada.”
Flávio Behring, no Pura Connection · 1:09:52
Da casa do Hélio Gracie ao lugar de João Alberto Barreto
O Flávio conta que chegou à academia na casa do Hélio com 10 anos. Com 13 ou 14, o Hélio apresentou a ele um rapaz de 16 ou 17, forte, já campeão e, nas palavras dele, um lutador fascinante e elegante. Era João Alberto Barreto. Segundo o Flávio, foi ali que o jiu-jitsu despertou de verdade para ele.
Com o tempo, ele virou professor na mesma academia, substituindo o próprio João Alberto, o que ele descreve como uma honra. Os dois viraram amigos, quase irmãos, e fizeram muita coisa juntos depois disso. Quando fala de gratidão no jiu-jitsu, o Flávio divide em dois nomes: o Hélio, que o acolheu na casa dele, e o João Alberto, que o levou adiante.
Uma coisa que ele repete é que nunca se contentou com a técnica pronta. Queria saber o porquê de cada movimento e onde ele se encaixa. Chegou a procurar um ortopedista para entender as articulações e encurtar o caminho de uma finalização como a americana. Segundo ele, o médico explicou tudo com um esqueleto na casa dele, e a partir daí ficou mais fácil fazer e ainda mais fácil ensinar.
“Um bom professor não mostra a técnica. Ele ensina e demonstra a técnica.”
Flávio Behring, no Pura Connection · 0:09:25
Por que ele não assiste mais campeonato
Perguntam muito ao Flávio o que ele acha da evolução do jiu-jitsu. A resposta dele é que houve transformações, e que elas vêm das regras. Os atletas se adaptam ao que dá ponto, e as academias que priorizam o esporte vão atrás.
Ele confessa que não assiste campeonato faz tempo porque se aborrece. O que mais incomoda é ver dois lutadores começarem a luta e sentarem. Para ele, se a queda não é valorizada na regra, ninguém mais projeta, e o jiu-jitsu perde a parte em pé que o torna uma arte completa. O Flávio faz questão de dizer que a crítica tem base prática e que o lado esportivo tem seus benefícios, só que ele prefere chamar isso de recreação.
“Eu não posso conceber uma arte marcial em que duas pessoas começam a lutar e sentam.”
Flávio Behring, no Pura Connection · 0:18:26
Autodefesa pede condicionamento, frequência e realismo
Aqui está o centro da conversa. O Flávio lembra que a defesa pessoal da academia Gracie nos anos 50 era dada em aula individual, com o professor corrigindo cada aluno de acordo com o corpo e a necessidade dele. Numa turma cheia, isso some, e o professor precisa escolher o que ensinar para cada tipo de pessoa.
Ele conta uma cena que viu em Ipanema, há muitos anos. Um carro quase atropelou pedestres na faixa, um rapaz forte, de sunga, foi tirar satisfação, o motorista desceu e o atleta pulou na cintura dele e puxou para a guarda, em cima do asfalto quente. Para o Flávio, esse é o reflexo de quem só treina esporte: na hora da realidade, o corpo faz o que fez mil vezes na academia.
“Você não vai fazer uma guarda no asfalto, você vai se machucar.”
Flávio Behring, no Pura Connection · 0:22:35
O remédio, segundo ele, é treino com frequência e muito próximo do real. Ele lembra que na academia antiga a simulação do soco tinha que ter autenticidade, e se a mão passasse era um tapão na cara. E diz que hoje, aos 85, ainda tem reflexos que surpreendem muita gente, fruto de uma vida inteira de condicionamento para autodefesa.
O Flávio também separa realidade de realismo. Realidade é saber que uma esquina é perigosa. Realismo é estar lá dentro, com toda a intensidade. E faz perguntas duras para quem quer aprender: você é capaz de quebrar o braço de alguém olhando nos olhos da pessoa? Ele diz que já fez essa pergunta em seminários no Brasil e no exterior, e quase todo mundo entra em choque quando o assunto fica real.
Por isso ele insiste na prevenção. Antes de qualquer técnica, quer saber a expectativa do aluno, o ambiente onde ele vive e do que ele quer se defender. E lembra que chegou a propor a federações e confederações um curso específico de autodefesa, anos atrás, mas não houve interesse.
Presídios da França, polícia e faixas que ninguém ganhou
Boa parte da carreira do Flávio foi dando seminário pelo mundo, e ele aprendeu inglês, espanhol e francês para ensinar sem depender de tradução. Na França, deu vários cursos para as equipes regionais que intervêm dentro dos presídios quando a situação é grave, e depois foi chamado para a escola nacional de administração penitenciária.
O primeiro pedido dele foi ver os agentes vestidos com o equipamento completo, que pesa quase 50 quilos. A partir daí adaptou as técnicas à realidade deles: a porta da cela só passa um, então o primeiro a entrar fica sozinho por alguns segundos. Segundo o Flávio, o retorno foi sempre positivo. Nos Estados Unidos, quando dois alunos o levaram para uma aula na polícia, ele disse que antes de ensinar qualquer coisa era preciso estudar a lei que diz o que o policial pode fazer.
Tem também a história do começo do jiu-jitsu na França. No primeiro seminário, apareceram judocas, caratecas e gente de faixa colorida que tinha aprendido por DVD. Um ou dois anos depois, pediram que ele avaliasse vários praticantes em Paris para troca de faixa. Ninguém passou. Ele diz que não podia ser menos rigoroso sem trair a escola onde aprendeu, e que por causa disso passou a ser considerado alguém que não deveria mais fazer avaliação.
A humildade é outro assunto que ele puxa o tempo todo. Contou que, na França, frequentou aulas de um mestre de aikido, e que um grande mestre de kung fu na Alemanha era aluno dele e assistia a todas as aulas sentado no cantinho. O apresentador lembrou que, num retiro, o Mica Galvão disse que ia aproveitar para aprender defesa pessoal porque nunca treinava isso.
“Eu sou campeão mundial, e daí? É efêmero.”
Flávio Behring, no Pura Connection · 0:49:19
A missão que o filho Marcelo deixou
O fim da entrevista é o trecho mais bonito. O Flávio perdeu o filho Marcelo e, tempo depois, a filha Bia, com quase sete anos, de leucemia. Ele conta que trabalhava na área de marketing e levava o jiu-jitsu em paralelo, e que foi o Marcelo quem o convenceu a se dedicar ao jiu-jitsu em tempo integral. Custou a aceitar, mas aceitou.
Sobre a filha, contou que ela foi cremada numa terça-feira e que no sábado ele estava dando seminário no interior de São Paulo. Segundo ele, o sentimento fica no fundo do coração e a mente continua livre para cumprir o que tem de ser cumprido. Ele diz que as duas perdas o tornaram uma pessoa mais concentrada no amor, e que hoje o que mais o entusiasma é dar aula e passar adiante tudo o que carrega.
“Eu tenho a missão que eu tenho que cumprir.”
Flávio Behring, no Pura Connection · 1:40:59
O que fica para mim, como professor, é o recado da conversa: técnica se treina, mas ensinar pede estudo, humildade para perguntar a quem sabe e responsabilidade com o aluno. Quando o assunto é salvar a pele de alguém na rua, o mestre Flávio não aceita meio-termo.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.