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Pura Connection · Fabrício Camões

Morango conta como lutou 27 minutos sem luvas contra Anderson Silva

O faixa-preta da Gracie Tijuca lembra a viagem de ônibus até Mato Grosso do Sul, o vale-tudo dos anos 90 e o caminho até o UFC.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 18 fev 2026 (1:20:42).

Antes de virar o Anderson Silva que o mundo conhece, o Spider subiu num ringue em Mato Grosso do Sul, sem luvas, e passou 27 minutos brigando com um faixa-preta carioca que tinha viajado um dia e uma noite de ônibus para estar ali. Esse faixa-preta era Fabrício Camões, o Morango, e ele contou essa história inteira no Pura Connection.

Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi o jeito leve com que ele fala de uma época em que ninguém sabia direito o que ia encontrar do outro lado das cordas. O Morango saiu da Academia Gracie da Tijuca, lutou vale-tudo sem luva, ganhou três lutas numa noite só, foi para os Estados Unidos, chegou ao UFC e hoje toca uma academia em San Diego com a esposa, a Letícia Ribeiro.

“Primeiro bico que eu dei, eu levei dois. Aí eu falei: meu irmão, esse cara é bravo.”

Fabrício Camões, no Pura Connection · 0:48:35

O primo que apresentou o jiu-jitsu

Tudo começa com o primo, Cristiano Marcello. Os dois foram criados praticamente juntos, as mães eram amigas. O Morango era um menino hiperativo e, segundo ele, um médico receitou judô para a mãe dele. Ele começou aos 8 anos, passou pelo taekwondo e pelo muay thai.

O Cristiano já treinava jiu-jitsu e um dia apareceu na academia de muay thai propondo um treino. O Morango mandou botar luva, o primo recusou. Na primeira tentativa de soco, o Cristiano derrubou, pegou as costas e aplicou o primeiro mata-leão da vida dele. Na segunda, veio o triângulo. Ele saiu dali com a sensação de que o primo tinha uma magia que ele não tinha.

O Cristiano levou o Morango para a Academia Gracie da Tijuca. Ele contou que ainda pegou umas duas aulas com o Ralph Gracie, que estava de saída para São Francisco. Depois disso, o Royler Gracie assumiu a academia e passou a ir lá duas vezes por semana. Em 1994, o Morango disputou a primeira competição, um estadual, e ganhou.

Dois ídolos dentro da mesma academia

O Morango fala com carinho de ter crescido vendo dois caras muito diferentes. De um lado, o Royler, mais professor, voltado para a técnica. Do outro, o Saulo Ribeiro, que estava subindo como competidor e fazia o papel de treinador que puxa o aluno.

Segundo ele, o Royler competia em alto nível de kimono, sem kimono e no vale-tudo, e isso dava a ele fundamento para ensinar. O Morango lembrou que o próprio Carlson Gracie dizia que o Royler era o mais bravo da família, porque não lutava só a categoria dele, entrava também no absoluto. Já o Saulo, para o Morango, jogava em todas as linhas: dava queda, passava e raspava.

Tem um detalhe bonito nessa parte. A família do Morango não tinha dinheiro para pagar academia, kimono e aula particular. Ele contou que o Royler resolveu isso colocando o garoto para ajudar nas aulas de criança e nas aulas particulares do Humaitá. Lá, ele via o Hélio Gracie dando aula de defesa pessoal para os Valente. Para o Morango, o programa de defesa pessoal que a Gracie Humaitá ensina hoje é fruto desse trabalho do mestre Hélio.

“Tinha aquele Royler que não tava competindo, era o melhor cara do mundo. E tem o Royler que vira a chave para lutar, meu irmão, é um leão.”

Fabrício Camões, no Pura Connection · 0:20:21

Os 27 minutos contra Anderson Silva

A luta aconteceu, pelas contas do Morango, em 1997 ou 1998. Um amigo tinha uma fazenda em Mato Grosso do Sul e avisou que ia ter um evento de vale-tudo num ringue por lá. Ele e o Cristiano toparam na hora. Chegaram na rodoviária, ninguém estava esperando, e como não existia celular, os dois resolveram raspar a cabeça num barbeiro ali mesmo. Quando saíram, a cidade inteira olhava para eles.

Quem foi buscar a dupla foi o Dilson, o Dilsinho que depois apareceu no Big Brother. Segundo o Morango, o pai dele organizava o evento. Na pesagem, o Cristiano se ofereceu para perder peso e deixou o primo na categoria de cima. Quando o Morango viu o tamanho dos caras de 80 kg, pediu para trocar. Não deu.

Era um torneio. Na primeira luta, o Morango pegou Eliaser Ninja, aluno do Pelé, surpreendeu com uma combinação de boxe, derrubou, montou e ganhou por nocaute técnico. No vestiário, viu o Anderson entrar para a luta dele e achou o adversário magrinho. Os amigos garantiram que um chute na coxa resolvia. Não resolveu.

Ele contou que as regras deixavam o Anderson segurar nas cordas, o que tornava quase impossível levar a luta para o chão. E já naquela época o Anderson fazia o que faz até hoje: jogava o jab, tirava a cabeça e voltava com o contragolpe. Os rounds eram de 10 minutos. Foram dois de 10 e um terceiro que parou aos 7, somando os 27 minutos. No fim, o Morango chegou a encaixar uma chave de pé, mas o Anderson, bem mais alto, defendeu. Cansado, o Morango se recusou a levantar quando o juiz mandou, e o juiz parou a luta.

O Cristiano ganhou as duas lutas dele. A bolsa era de mil reais para quem vencesse e nada para quem perdesse. O primo dividiu o dinheiro e comprou passagem de avião para os dois não voltarem de ônibus. Hoje, segundo o Morango, o próprio Anderson conta essa luta e diz que foi o primeiro contato dele com o jiu-jitsu.

“Eu nem sabia quem era Anderson Silva. Se eu soubesse, eu ia estar dormindo quieto, descansando.”

Fabrício Camões, no Pura Connection · 0:47:03

Do Super Challenge ao UFC

O Morango lutava perto dos 80 kg, com peso de jiu-jitsu, e sofria contra caras enormes. O professor de boxe dele, o Guti, insistiu que ele cortasse 10 kg. Ele desceu para 73, ganhou uma luta em Volta Redonda e sentiu a diferença.

Duas semanas depois, o telefone tocou às 8 da manhã. Era o Pena, e em seguida o Marcelo Tetel, oferecendo uma vaga no Super Challenge a 10 dias do evento. Segundo o Morango, o Rodrigo Damm tinha se machucado. O evento reunia lutadores de 73 e 83 kg, e era preciso fazer três lutas na mesma noite. Ele finalizou o Mauro Xuxa na guilhotina, venceu uma batalha contra Luciano Azevedo, da RFT, e pegou na final o Jean Silva, da Chute Boxe, que finalizou no armlock. Na 83, quem ganhou foi o Demian Maia.

Depois disso, segundo ele, o empresário Joinha avisou que não havia mais luta para ele no Brasil. Em 2007, o Saulo ligou pedindo ajuda para treinar o Diego Sanchez, que tinha acabado de sair do The Ultimate Fighter. O Morango foi para os Estados Unidos junto com a Letícia e ajudou em camps contra Clay Guida, Jon Fitch e BJ Penn. Ao mesmo tempo, venceu duas lutas no EliteXC e uma no Strikeforce.

No UFC, estreou com empate contra Caol Uno e depois perdeu para o Kurt Pellegrino. Saiu, venceu fora, incluindo o Efrain Escudero, e foi chamado de volta. Ele lembra que entrou no UFC já com 30 anos, numa época em que um lutador fazia duas ou três lutas por ano. Por isso começou a dar aula para se sustentar.

O que fica da conversa

Hoje, o Morango e a Letícia são cidadãos americanos e têm uma academia em San Diego que, segundo ele, vai fazer 15 anos. Ele diz ter umas 300 crianças e mais uns 150 adultos, e que sabe o nome de cada um. Os alunos chamam o lugar de consulado brasileiro, porque todo mundo fala português.

Com 50 anos e 33 de tatame, ele também falou do jiu-jitsu no MMA de hoje. Treinou com o Kron Gracie para a tentativa de volta dele e ouviu do Kron que estava cada vez mais difícil colocar o adversário onde o jiu-jitsu acontece. Para o Morango, falta ao jiu-jitsu uma guarda melhor contra o wrestler que segura por cima e um trabalho mais eficiente de clinch para levar a luta ao chão.

O que eu levo dessa entrevista é a linha que ele mesmo traçou no fim: sem o Cristiano, ele não teria conhecido o Royler; sem o Royler e o Saulo, não teria virado o atleta que virou. E foi esse atleta que, com a cabeça raspada numa rodoviária de Mato Grosso do Sul, aguentou 27 minutos com o Anderson Silva.

“Se não tivesse o Cristiano na minha vida, eu nunca ia conhecer o Royler.”

Fabrício Camões, no Pura Connection · 1:17:15

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.