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Podcast Nem Me Viu · Rafael Cordeiro

Rafael Cordeiro relembra a guerra entre Chute Boxe e Brazilian Top Team

O mestre formado na Chute Boxe lembrou a rivalidade com a Brazilian Top Team, a mudança para os Estados Unidos e a manhã na garagem do Tyson.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 7 dez 2022 (2:15:40).

Primeira semana da pandemia, um domingo, e o telefone de Rafael Cordeiro toca. Era o empresário de Mike Tyson numa chamada de vídeo, com o próprio Tyson do lado. O ex-campeão queria voltar a treinar e perguntava se o Rafael podia começar no dia seguinte. Foi assim, segundo o mestre, que ele virou treinador do maior nome da história do boxe.

O Rafael contou essa e outras histórias no Nem Me Viu, o podcast do Fabrício Werdum, que foi aluno dele por muitos anos. Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi como ele fala de arte marcial. Para ele, a academia serve para formar gente, e o lutador é só uma parte disso. Ele se apresenta como professor de artes marciais e diz que continua aluno do mestre dele até hoje.

“Você é aluno para sempre.”

Rafael Cordeiro, no Podcast Nem Me Viu · 0:17:58

Do taekwondo do vizinho à Chute Boxe

A história começa em Curitiba. O Rafael contou que, com 11 anos, abriu a janela e viu o vizinho, professor de taekwondo, fazendo movimentação de quimono. Fã de Bruce Lee, correu para pedir à mãe e bateu na porta do professor, que o chamou para treinar na academia dele. Aos 13 foi para a Chute Boxe, onde está, segundo ele, até hoje, pelo menos por dentro.

Na Chute Boxe, o primeiro professor dele foi o Edmar. Quando o Edmar saiu da academia, o Rafael, ainda garoto, assumiu o lugar dele como professor e como lutador na mesma categoria. Contou que foi três vezes campeão brasileiro de muay thai e cinco vezes campeão interestadual, sempre sob o comando do mestre Rudimar Fedrigo, que ele chama de mestre até hoje.

A carreira de lutador terminou em 1999, com uma derrota que mudou o jeito dele de ensinar. Ele contou que, até ali, não deixava os atletas verem vídeo do adversário para não criar fantasma. Naquela noite, porém, passaram no telão os melhores momentos do japonês que ele ia enfrentar, e a cabeça dele foi junto. Caiu numa posição e tomou uma chave de joelho que nunca tinha visto. Dali em diante, passou a estudar vídeo com os alunos, mostrando onde cada adversário abria o jogo.

A guerra com a Brazilian Top Team

Quem acompanhou o Pride vai lembrar da rivalidade entre a Chute Boxe e a Brazilian Top Team. O Rafael contou que as duas equipes ficavam muitas vezes no mesmo hotel no Japão e não podiam se cruzar nem no café da manhã. Do outro lado estavam Murilo Bustamante, Zé Mário Sperry e Paulão Filho, gente que ele chama de casca-grossa.

Segundo o Rafael, tudo esquentou depois de uma discussão entre Wanderlei Silva e Ricardo Arona num café da manhã. A partir dali, as equipes passaram a ficar em hotéis separados. Na revanche entre os dois, contou ele, o professor de jiu-jitsu da Chute Boxe, Cristiano Marcello, brigou dentro do vestiário com um lutador americano enquanto o Wanderlei aquecia. O Rafael assumiu a responsabilidade pela confusão, pediu ao Wanderlei foco total no Arona, e o Wanderlei venceu.

Entre os momentos que mais marcaram a carreira dele, o Rafael citou o Wanderlei nocauteando Quinton Jackson pendurado nas cordas, Shogun vencendo o Arona e a vitória do Werdum sobre Fedor Emelianenko. Segundo ele, foram 16 campeões formados ao longo da carreira.

Vender tudo e recomeçar nos Estados Unidos

Em 2007, contou o Rafael, a Chute Boxe decidiu abrir uma academia nos Estados Unidos, porque o mercado estava indo para lá e o Pride estava acabando. Ele vendeu tudo e se mudou em março de 2008 para a Califórnia. Muita gente apostou que ele voltaria em pouco tempo. Não voltou. Hoje a Kings MMA, a academia que ele fundou, tem unidades nos Estados Unidos e começou a abrir no Brasil, a primeira em Brasília.

O Werdum chegou logo depois, recém-saído do UFC. Segundo o Rafael, ficou nove meses treinando sem ter luta marcada, todo dia de manhã, sempre o primeiro a chegar. Depois veio o Strikeforce, a vitória sobre o Fedor diante de um estádio cheio de torcedores do russo, e mais tarde a volta ao UFC. O Werdum lembrou que recebeu cerca de 7 mil mensagens no Twitter pedindo que ele voltasse, imprimiu tudo e levou ao Wanderlei.

“A vitória, o grande sinônimo dela, é o que você fez para chegar nela.”

Rafael Cordeiro, no Podcast Nem Me Viu · 0:37:14

O Rafael também contou a história do quarto de hotel em Goiânia. Na véspera de um evento, Jon Jones subiu para conversar com os brasileiros, tirou o relógio e aceitou um desafio de brincadeira com o Werdum, ali mesmo, entre a cama e a televisão. Segundo o Rafael, o Werdum foi para a kimura e para a americana até ele mandar parar. Terminou tudo em risada.

Jiu-jitsu para criança aprender a perder

Mesmo vindo da trocação, o Rafael disse que o jiu-jitsu sempre esteve presente na vida da Chute Boxe, com treino de quimono. Para ele, todo pai deveria colocar o filho para competir no judô ou no jiu-jitsu desde pequeno, porque o maior ensinamento do esporte é aprender a perder. Elogiou o trabalho infantil da Alliance e comentou que se encantou com vídeos de Kyra Gracie brincando de jiu-jitsu com o filho.

“O grande ensinamento do esporte hoje em dia é a criança aprender a perder.”

Rafael Cordeiro, no Podcast Nem Me Viu · 1:00:38

Perguntado sobre o aluno que mais sofreu na trocação no começo, ele apontou o próprio Werdum, que chegou já como campeão mundial de jiu-jitsu. Contou ainda que foi um dos primeiros a treinar Charles do Bronx, quando o menino, com menos de 15 anos, viajava de São Paulo para treinar em Curitiba.

A manhã na garagem de Mike Tyson

Voltando ao Tyson. O Rafael contou que já conhecia o empresário dele desde uma viagem à Tailândia com o Werdum. No dia seguinte à ligação, às 8 da manhã, estava na garagem da casa do Tyson, com a família toda olhando. Segundo o Rafael, os filhos nunca tinham visto o pai treinar, porque fazia 15 anos que ele não batia manopla. O Tyson se cansou muito, mas foi até o fim, e o Rafael saiu da garagem para deixar a família comemorar sozinha.

Dali nasceu uma amizade. O Tyson decidiu voltar a lutar, e o Rafael virou o único a fazer manopla com ele. Contou um detalhe de ofício: coloca a bandagem sempre primeiro na mão esquerda, porque o Tyson aprendeu que o jab é a principal arma de uma luta.

“Só com o Rafael. Rafael, faz minha mão. Rafael, bota minha luva.”

Rafael Cordeiro, no Podcast Nem Me Viu · 2:00:06

O que fica da conversa é a imagem de um mestre que atravessou quatro décadas de luta sem perder o jeito de professor de bairro. Da janela do vizinho em Curitiba à garagem do Tyson, o Rafael fala de tudo como quem ainda está aprendendo, e é isso que ele diz tentar passar aos alunos.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.