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Luta histórica

Werdum x Fedor: como foi o triângulo de 69 segundos em 2010

O gaúcho que tinha perdido o contrato com o UFC finalizou o russo que estava dez anos sem perder. Quem conta é o próprio Werdum, o técnico, o amigo de córner e o jornalista que pegou um avião para ver.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · atualizado em 30 set 2026 · 5 min de leitura

Quando
26 de junho de 2010, segundo o Werdum
Onde
San Jose, na Califórnia, num evento do Strikeforce
Quem lutou
Fabrício Werdum, Fedor Emelianenko
Resultado
Vitória do Werdum por finalização num triângulo, com 69 segundos de luta, segundo ele e o Marcelo Alonso.

Quando perguntam ao Fabrício Werdum qual foi a melhor luta da carreira, ele diz que nem pensa: foi contra o Fedor Emelianenko, em 26 de junho de 2010. Foi um triângulo, e a luta durou 69 segundos. Ele brinca que prefere dizer 69 segundos a um minuto e nove, porque valoriza mais.

Nas entrevistas que eu li, essa noite aparece contada por vários lados: o Werdum, o mestre Rafael Cordeiro, o amigo Mário Reis, que estava lá, e o jornalista Marcelo Alonso, que foi de avião só para assistir. Cada um lembra de um pedaço, e os pedaços nem sempre batem.

“Eu finalizei o Fedor, o maior de todos os tempos. Eu representei o jiu-jitsu muito bem ali.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 1:07:39 · ler o artigo

O contexto: sem contrato e fora do UFC

O Werdum chegou a essa luta pela porta dos fundos. Ele contou que perdeu para o Júnior Cigano, perdeu junto o contrato com o UFC, mudou para os Estados Unidos e ficou cerca de um ano e meio sem emprego. Aceitou um contrato ruim no Strikeforce, chegou lá em 2009 e fez duas lutas antes do russo. A chance, nas palavras dele, veio porque vinha bem, mas também porque não tinha mais quem lutasse com o Fedor.

Nesse meio tempo, segundo o Rafael Cordeiro, o Werdum treinou nove meses na academia dele sem ter luta marcada, todo dia de manhã, sempre o primeiro a chegar. O Werdum veio da Chute Boxe pelas mãos do Rafael, e os dois abriram juntos a academia nos Estados Unidos. Ele diz que foi o primeiro aluno de lá.

Tem um detalhe que o Werdum conta para pouca gente. Entre 2004 e 2006, quando treinava com o Mirko Cro Cop na Croácia, ele assistiu no Pride à luta do Fedor contra o Minotauro. O irmão, Felipe, olhou para ele muito sério e disse que um dia ele ia ganhar do russo.

O plano: pegar cedo, antes do suor

O Werdum insiste que a luta foi estratégia. Ao Raul Gazolla, ele contou que montou o plano com o Rafael Cordeiro, o Cobrinha e o irmão Felipe. Numa outra conversa, cita o mestre e o Babalu. A ideia era levar o Fedor para o chão logo no começo, porque o triângulo encaixa melhor sem suor.

“A gente pensou até no suor, tu acredita? Se pegar sem suor, encaixa melhor.”

Fabrício Werdum, no Dos Nossos Podcast · 0:01:19 · ler o artigo

O Rafael Cordeiro tem uma frase sobre a preparação que eu gosto: se o Werdum tivesse visto só os melhores momentos do Fedor, nunca teria lutado. O trabalho dele, conta, era mostrar onde o russo abria o jogo.

Como foi a luta, em versões

O Rafael lembra do ambiente: um estádio inteiro de camisa vermelha com o símbolo do Fedor, em San Jose, na Califórnia.

Fedor Emelianenko em 2006
Fedor Emelianenko em 2006, no auge de sua invencibilidade de quase dez anos nos pesos-pesados do MMA mundial. (Wikimedia Commons)

“Parecia que estava na Rússia, mas estava nos Estados Unidos.”

Rafael Cordeiro, no Podcast Nem Me Viu · 0:36:40 · ler o artigo

Sobre a queda no início, muita gente achou que o Werdum tinha sido derrubado por um soco. Ele nega. Diz que já viu a luta mais de mil vezes e contou três socos dele contra seis do russo, tamanha a velocidade, e que só perdeu o equilíbrio na fuga. Ao Gazolla, admitiu que não queria ir ao chão naquela hora, mas aproveitou para colocar o plano em prática.

Sobre o triângulo, as leituras diferem. O Werdum descreve um ataque duplo que pouca gente percebe: quando o Fedor esticava para fugir, ele pegava o braço; quando voltava para defender o braço, ele apertava o pescoço. O Mário Reis, que ensinou ao amigo um triângulo com a mão na axila, usado no ADCC, diz que o do Fedor foi outro, feito no reflexo.

“Esse do Fedor ele pegou no reflexo. O cara foi dar um soco e, enquanto dá o soco, já se posiciona do jeito certo para tomar o triângulo.”

Mário Reis, no Podcast Nem Me Viu · 0:48:35 · ler o artigo

O Marcelo Alonso pegou um avião no sul da Califórnia para ver a luta porque acreditava no gaúcho. Para ele, talvez tenha sido a maior zebra da história. Ele também lembra que o Fedor vinha do sambo e sabia lutar no chão. No córner, segundo o Alonso, estava o Ratinho, professor dele.

O que veio depois

Naquele ano, o Werdum ganhou o prêmio de finalização do ano e o Rafael Cordeiro o de técnico do ano, os dois de terno alugado, numa festa em Las Vegas. Segundo o Werdum, a equipe do Fedor ligou oferecendo 1 milhão de dólares por uma revanche na Rússia, e ele recusou por medo de lutar lá naquela época. Hoje diz que iria, porque já esteve várias vezes no país.

Ele também lembra que o Fedor estava cerca de dez anos sem perder, que ele foi o primeiro a vencê-lo e que depois o russo perdeu várias seguidas. E diz ser o único a ganhar dos dois irmãos: finalizou o Aleksander com um katagatame e o Fedor com o triângulo. Depois veio a campanha no Twitter para voltar ao UFC e, mais tarde, o título contra Cain Velasquez no México.

Mesmo assim, o Werdum segue chamando o Fedor de maior de todos os tempos. O Minotauro também põe o russo como o maior peso-pesado da história. Quando um seguidor escreveu que o triângulo foi sorte, o Werdum respondeu sem se irritar.

“Eu pegaria o Fedor de novo. Não sei se seria no triângulo, mas eu finalizaria ele de novo, tenho certeza absoluta.”

Fabrício Werdum, no Werdum Responde · 0:04:10 · ler o artigo

Para ouvir tudo isso da boca dele, vale ver a conversa em que ele revê a luta, o papo com o Raul Gazolla e a história da revanche recusada. A passagem dele e de outros faixas-pretas pelos grandes eventos está em lutadores de jiu-jitsu no UFC e no Pride, e a pergunta de fundo em o jiu-jitsu ainda funciona no MMA.

O que foi contado

Esta página junta o que foi dito em várias entrevistas. Cada afirmação é de quem a disse e leva ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.