Pular para o conteúdo

Podcast Nem Me Viu · Mário Reis

Mário Reis revela como finalizou Werdum no primeiro treino de jiu-jitsu

O professor da Alliance em Porto Alegre conta a amizade de 25 anos com Fabrício Werdum, a faixa-preta em cinco anos e a virada de Nicholas Meregali.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 23 nov 2022 (2:33:35).

A amizade entre Mário Reis e Fabrício Werdum começou numa praça de Porto Alegre, atrás de uma goleira, e foi selada num colchão. Assisti à conversa dos dois no Nem Me Viu e a história que abre tudo é essa: no primeiro treino juntos, o Mário pegou o Werdum num triângulo. O Werdum ficou bravo, pediu revanche e bateu de novo.

Segundo o Mário, eles se conheceram há uns 25 anos jogando bola. Cada um treinava numa academia rival da cidade: o Werdum estava na Behring, o Mário em outra casa forte de Porto Alegre, uma rivalidade que eles comparam a Grêmio e Inter. No papo atrás da goleira, os dois descobriram que tinham acabado de começar no jiu-jitsu. O Werdum convidou o Mário para treinar na casa dele. Em vez de tatame, tinha um colchão.

O Mário contou que o triângulo é um dos golpes favoritos dele. Pegou o Werdum, pegou de novo, e ainda finalizou o Guto Campos, o terceiro amigo da turma, que também virou campeão mundial. Os três saíram do mesmo bairro, e o Mário acha que a rua preparou todo mundo: no bairro deles, quem ficava na defesa era cobrado.

O triângulo que ninguém viu no Gaúcho

A rivalidade de treino chegou ao campeonato. Na faixa azul, os dois se enfrentaram na final do absoluto do Campeonato Gaúcho, o evento mais esperado do Sul naquela época. Pela versão do Mário, ele encaixou um triângulo invertido, o Werdum apagou de olho aberto e o árbitro não percebeu. Como o Mário estava numa posição lateral, o juiz ainda deu três pontos de passagem para o Werdum, que terminou com o braço levantado.

O Werdum, claro, deu risada e fez uma ressalva sobre o amigo.

“Tudo o que ele fala tu tem que tirar 30%. Ele aumenta, mas não inventa.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 0:35:57

Faixa-preta em cinco anos e campeões com sete meses de preta

Depois disso, o Mário foi para a equipe do Werdum e os dois passaram a treinar juntos todos os dias. Ele contou que chegavam a treinar oito horas seguidas, ninguém aguentava acompanhar, e a turma apelidou a dupla de Bob Pai e Bob Filho. Segundo o Mário, cada Mundial era uma troca de faixa: campeões na azul, segundos lugares na roxa, terceiros na marrom.

A faixa-preta veio junto, com pouco mais de quatro anos de treino, num evento da equipe em São Paulo com cerca de 500 pessoas. O Mário lembrou que havia gente próxima dizendo que os dois não mereciam a preta, porque não tinham ganhado o Mundial de marrom. Ele diz que esse tipo de dúvida motivava a dupla muito mais do que qualquer incentivo. Sete meses depois, os dois foram campeões mundiais na faixa-preta.

“Eu acho que é difícil ter alguém que com sete meses de preta seja campeão mundial.”

Mário Reis, no Podcast Nem Me Viu · 0:44:53

O Mário se define como um lutador de guarda que entra para finalizar. Ele disse que ficou 17 anos seguidos no pódio do Mundial, com três títulos, quatro segundos lugares e nove terceiros, pelas contas dele mesmo, e que nunca teve medo de reencontrar quem o tinha vencido.

“Eu gosto de entrar para matar ou morrer. Nunca gostei de fazer estratégia.”

Mário Reis, no Podcast Nem Me Viu · 0:40:11

No córner do Werdum, do Pride ao triângulo em Fedor

O Mário foi o primeiro córner do Werdum como treinador. Ele viajou com o amigo para o Japão, para a luta contra Minotauro no Pride, evento que ele descreve como maior que o UFC para eles na época, com um silêncio impressionante na arena. Segundo o Mário, o Werdum pegou uma amigdalite, passou uma semana no hospital sem treinar e foi direto para o ringue. Perdeu por decisão dividida, dois a um.

O Mário também estava lá na noite mais importante da carreira do amigo, a vitória sobre Fedor. Ele contou que ensinou ao Werdum um triângulo sem pegada na faixa, com a mão na axila, que o Werdum usou muito no ADCC e em outros eventos. Mas o de Fedor, na leitura do Mário, saiu no reflexo: o russo foi dar um soco, se posicionou do jeito certo para tomar o triângulo, e o Werdum acertou o tempo no segundo exato.

A aposta em Meregali contra a própria equipe

A parte que mais me pegou foi a história de Nicholas Meregali. Segundo o Mário, o Nicholas começou com ele na faixa branca, numa filial, e morou sete anos dentro da academia. Já faixa-preta, perdeu três vezes em seis meses. Às vésperas do Mundial, a Alliance ia inscrevê-lo como segundo atleta da categoria, e o Mário conta que foi falar com Fábio Gurgel: o Nicholas ia ganhar.

O Mário diz que ninguém acreditava. Ele contou que se trancou com o aluno numa espécie de caverna dentro da academia, cercado dos amigos que acreditavam nele, e o Nicholas foi campeão mundial. Depois, segundo o Mário, ainda venceu uma luta casada para mostrar que não tinha sido sorte. Num Mundial mais recente, a academia de Porto Alegre saiu com dez medalhas, incluindo o absoluto do Nicholas.

“O impossível torna-se possível até que tu faça.”

Mário Reis, no Podcast Nem Me Viu · 1:04:41

O fim da parceria deixou marca. O Mário admitiu que guarda mágoas do jeito como o Nicholas saiu da equipe, mas disse que ele foi o aluno mais íntimo que já teve, que passaram seis ou sete Réveillons juntos e que ainda quer vê-lo feliz. Ele também lembrou que, desde a infância na academia, Buchecha apanhava dos mais velhos no treino e foi endurecendo até virar campeão, e que Yuri Simões frequentava o time desde os nove anos.

O que fica da conversa

Hoje o Mário diz ter mais de 40 alunos com título mundial saídos da academia e cerca de 70 filiais, que ele está passando para o modelo de franquias da Alliance. Ele separa as turmas por nível: iniciantes, masters, crianças, avançados e, à parte, os campeões. Para ele, o faixa-branca iniciante misturado com os graduados foi um dos motivos de tanta gente largar o jiu-jitsu.

No quadro final, ele elogiou Gordon Ryan por ter entrado na categoria do ADCC além da superluta, e deu a John Danaher o mérito de ter formado o Gordon. Lembrou ainda que Zé Mário disse a ele em 1998 que o jiu-jitsu sem kimono seria o esporte do futuro. O Mário acha que cresceu, mas que fora o ADCC ainda falta evento grande.

Saí da conversa com a sensação de que a história do Werdum campeão tem um capítulo que pouca gente conhece: o amigo do bairro que o finalizou no colchão, apostou nele e estava no córner quando tudo começou.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.