Podcast Nem Me Viu · João Zeferino
João Zeferino conta por que rompeu com o PFL após trocas de adversário
O faixa-preta de Florianópolis, formado na escola de Renzo Gracie em Nova York, fala das lesões, da luta que fez doente e do plano de lutar até os 45.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 14 dez 2022 (1:22:45).
João Zeferino estava no PFL desde a época em que o evento ainda se chamava WSOF. Em 2022, saiu. Na conversa com Fabrício Werdum no Nem Me Viu, ele explicou o motivo com calma, sem querer falar mal do evento, mas deixando claro que houve coisa que ele não aceitou.
“A minha situação foi uma situação que eu nunca vi na minha vida.”
João Zeferino, no Podcast Nem Me Viu · 0:21:20
Assisti ao episódio e é essa a história que prende. O Zeferino tem 36 anos, é de Florianópolis, passou cinco anos morando em Nova York com Renzo Gracie e, pelo que contou, está treinando melhor do que nunca. Mas antes de falar do futuro, ele abriu os bastidores de dois torneios seguidos.
Três vezes contra o mesmo russo que não tinha visto
Segundo o Zeferino, no torneio de 2021 ele treinou para enfrentar um lutador russo. Ficou 17 dias na bolha do evento, e a caminho do aeroporto soube que o russo não tinha visto. A 48 horas da luta, o adversário virou Gleison Tibau. Ele aceitou e venceu. Ganhou também a segunda luta, mas quebrou o dedo e não conseguiu seguir no torneio. Ele contou que um parceiro caiu com o osso do quadril em cima do dedo, justamente o mais importante para a pegada.
Em 2022, o PFL casou os dois de novo. Ele treinou para o mesmo russo e, de novo, a 48 horas do evento, o visto não saiu. Colocaram outro adversário. O Zeferino contou que o árbitro chegou a levantar a mão dele, mas a vitória ficou com o outro lutador. Mesmo assim, recebeu o bônus de vitória.
Para a luta seguinte, o evento anunciou pela terceira vez o duelo com o russo. O treinador dele, Diego, descobriu por outro empresário que um reserva de Curitiba estava avisado para lutar no lugar, porque o visto ainda não tinha saído. Na semana da luta, já no hotel, disseram que seria um terceiro nome. O anúncio prometido para quarta ao meio-dia não saiu. Às cinco da tarde, o visto do russo apareceu.
O ponto final, segundo ele, veio na noite anterior à pesagem. O PFL avisou que o bônus da luta passada tinha sido pago por engano e que ele lutaria sem receber o valor de apresentação. Ele recusou.
“Foi uma coisa que eu não pude perdoar. Para mim foi muito descarado contra mim.”
João Zeferino, no Podcast Nem Me Viu · 0:27:40
Ele contou que o impasse foi resolvido depois, mas decidiu seguir outro rumo. Disse ainda que o russo é duro, bom de guilhotina, e que treinou meses saindo desse golpe. Queria a luta, só que nas circunstâncias certas.
Lesões na hora errada e uma luta vencida doente
O dedo quebrado não foi a primeira frustração. O Zeferino lembrou que em 2018, também no PFL, rompeu o menisco a cerca de 20 dias da semifinal e precisou operar. Ele disse que o formato de torneio é duro porque as lutas vêm coladas, às vezes com seis semanas de intervalo. Ficou triste, mas aprendeu que cada um tem sua hora.
Duas lutas marcaram a carreira dele, segundo o próprio. Uma foi o nocaute em cerca de um minuto e meio sobre Paul Bradley, no PFL de 2018, num momento em que ele estava desmotivado e pensando se continuaria lutando. A outra foi a semifinal que ele fez doente em Atlantic City.
O Zeferino contou que, na segunda-feira da semana da luta, depois de uma corrida para o corte de peso, teve a pior dor de cabeça da vida. Apareceram sete furúnculos e uma amigdalite. Não podia tomar antibiótico por causa da luta, não conseguiu dar entrevistas e só o time dele sabia. Havia 30 ou 40 alunos indo assistir, com ingresso comprado.
“Vou lutar, vou vencer, vou dar exemplo para eles.”
João Zeferino, no Podcast Nem Me Viu · 0:51:25
Ele venceu por mata-leão no terceiro round. Depois disso, contou, a infecção voltou por seis meses, e foi nesse período que o joelho estourou.
Nova York com Renzo e a turma de Florianópolis
A ligação com Renzo Gracie vem de longe. O Zeferino contou que vai a Nova York treinar com ele desde 2005, que em 2015 se mudou para lá e passou cinco anos dando aula numa filial da academia. Ainda comanda uma filial na cidade e volta quatro ou cinco vezes por ano para treinos e seminários. Na mesa, a descrição do Renzo foi unânime: ele atrai gente por onde passa e, em cinco minutos, parece amigo de 20 anos.
Em Florianópolis, onde mora desde criança, ele treina com Rangel Farias. Contou que o conheceu por volta de 2010 ou 2011, quando o treinador que o preparava para uma luta o abandonou de repente. Ligou para o Rangel, foi à academia e deu certo logo de cara.
Ele também falou do amigo Rafael Natal, o Sapo. Os dois se enfrentaram na semifinal do Brasileiro de 2008, na faixa-marrom, e depois no UFC. Viraram amigos por meio de um conhecido em comum em Nova York.
Do jiu-jitsu ao MMA e o plano de lutar até os 45
Numa pergunta do chat, o Zeferino explicou o próprio jogo. No jiu-jitsu, sempre gostou de fazer guarda, mas se sente confortável em cima também. Em 2022 voltou a competir sem kimono, perdeu a final do absoluto e ganhou a categoria. Sobre a passagem para o MMA, citou três desafios: o condicionamento, que é outro por causa da troca de golpes e das quedas; a estratégia, porque gastar energia para buscar uma finalização e ver a luta voltar em pé frustra; e a velocidade, já que sem kimono e com suor tudo escorrega mais.
O Werdum aproveitou para contar a sua experiência de ficar sem contrato. Disse que, quando saiu do UFC pela primeira vez, passou um ano e meio sem contrato e aceitou um acordo ruim no Strikeforce.
“Tive que aceitar um contrato horrível, mas depois veio a glória.”
Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 0:34:21
A glória, no caso, foi a vitória sobre Fedor Emelianenko, que ele chamou de a melhor luta da vida. O recado para o Zeferino era claro: pensar bem antes de assinar e dar a volta por cima.
O Zeferino não parece preocupado. Disse que nunca para de treinar, que o corpo e a cabeça estão melhores, que está mais rápido e mais experiente. Citou o Werdum, Lyoto Machida, Demian Maia e Glover Teixeira como exemplo de quem seguiu em alto nível com mais idade. Se conseguir manter o alto nível, quer lutar até os 44 ou 45 anos. O que fica da conversa é um veterano que saiu de um evento grande por princípio e que ainda acha que o melhor dele está por vir.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.