Dos Nossos Podcast · Júnior dos Santos
Cigano e Werdum encerram 15 anos de rivalidade e abrem os bastidores do UFC
No primeiro Dos Nossos Podcast, os dois ex-campeões peso-pesado do UFC conversam pela primeira vez e contam o que ficou escondido atrás das lutas.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Dos Nossos Podcast, publicada em 4 fev 2024 (2:51:13).
Foram mais de 15 anos de rivalidade e nenhuma conversa. Júnior Cigano e Fabrício Werdum lutaram duas vezes, trocaram provocações pela imprensa e nunca tinham sentado para falar. Isso mudou no primeiro episódio do Dos Nossos Podcast, gravado em São Paulo. O Cigano, segundo o Werdum, pegou um voo na véspera saindo dos Estados Unidos, a um mês de uma luta pelo cinturão, só para estar ali.
Assisti à conversa inteira e o que mais me chamou atenção foi o tom. Ninguém fingiu que a rivalidade não existiu. Os dois falaram das lutas, dos erros e das derrotas com uma sinceridade rara entre ex-adversários.
O Cigano explicou o motivo de ter aceitado o convite. Ele contou que era fã do Werdum e do Minotauro quando começou, que os via como os grandes pesos-pesados do Brasil, e que a rivalidade impediu que isso fosse dito.
“A única coisa que sempre ficou mal resolvida foi essa coisa entre nós.”
Júnior dos Santos, no Dos Nossos Podcast · 0:07:03
A primeira luta e a curva do Werdum
O Werdum abriu o jogo sobre a primeira luta, a estreia do Cigano no UFC. Segundo ele, naquela época estava se achando, falava demais e fez um papel de polêmico que não era o dele. O Cigano confirmou que as provocações o deixaram nervoso e disse que hoje entende que era uma estratégia.
O Werdum perdeu, e contou que perdeu também o contrato. Mudou para os Estados Unidos e passou cerca de um ano e meio sem emprego. Foi nesse desvio que veio a vitória sobre Fedor. Depois, segundo ele, fez uma campanha no Twitter, imprimiu cerca de 10 mil mensagens de fãs e entregou na mão de Dana White numa coletiva. Uma semana depois foi chamado de volta, venceu Roy Nelson e seguiu até o título.
“Tu fez uma reta e eu fiz uma curva.”
Fabrício Werdum, no Dos Nossos Podcast · 0:41:56
De lavador de pratos a campeão
A parte mais bonita do episódio é a história do Cigano antes da luta. Ele contou que saiu de Caçador, em Santa Catarina, aos 18 anos e chegou a Salvador em dezembro de 2002 com 80 reais na carteira. No dia seguinte foi lavar pratos numa churrascaria. Em poucos dias passou a polir pratos, depois a levar prato ao salão, até chegar a passar carne, começando pelo frango e pela linguiça.
Em 2005, já mais gordinho, procurou uma academia para malhar e encontrou aula de jiu-jitsu com o professor Yuri. Dois meses depois foi chamado para o treino de MMA. Segundo ele, cerca de um ano e meio depois veio a estreia contra um adversário com sete lutas, vencida com um chute na cabeça, que naquela época era permitido no chão.
O momento mais duro veio logo depois de assinar com o UFC. O Cigano contou que perdeu uma revanche por chave de braço num evento já marcado e que, no dia seguinte, o UFC desfez o contrato. Abatido, voltou a treinar por insistência do professor Luiz Dórea e achou um papel largado num canto da academia.
“A vitória só chega depois que se perde o medo da derrota.”
Júnior dos Santos, no Dos Nossos Podcast · 0:38:23
Ele venceu a luta seguinte, recuperou o contrato e o primeiro adversário foi justamente o Werdum. Antes disso, contou que se preparou no Rio com Minotauro e Minotouro, dormiu na academia e resumiu aquele período numa frase: apanhava num dia e no outro estava lá para apanhar de novo.
Velasquez, a altitude e o golpe baixo de Cro Cop
O Cigano lembrou que ganhou o cinturão de Cain Velasquez em 1 minuto e 4 segundos, mesmo com uma lesão no menisco dez dias antes. Nas duas lutas seguintes, segundo ele, o americano veio preparado, não aceitou mais a trocação e o pressionou com o wrestling durante os cinco rounds.
O Werdum contou a própria preparação contra Velasquez no México. Ele disse que o boxeador Juan Manuel Márquez o convenceu a chegar bem antes por causa da altitude, com uma pergunta que não saiu da cabeça. A equipe bancou dois meses e meio escondida lá. Uma semana antes, Dana White ligou avisando que Velasquez tinha se machucado e que o título seria disputado contra Mark Hunt.
“Tu quer ficar com a tua família ou tu quer ser campeão?”
Fabrício Werdum, no Dos Nossos Podcast · 0:56:23
Já perto do fim, o Cigano relembrou o golpe baixo que levou de Mirko Cro Cop. Com a dor, pensou em não voltar. O Dórea olhou para ele no córner e disse que campeão não sente dor, que o croata tinha feito aquilo de propósito. O Cigano voltou, e o Cro Cop desistiu no fim da luta.
“Você não sente dor, campeão.”
Júnior dos Santos, no Dos Nossos Podcast · 2:42:39
A luta sem luva e as suspensões
Sobre a segunda luta, sem luvas, o Werdum contou que chegou depois de três anos parado, aos 46, com cinco lesões em dois meses e dois dedos do pé quebrados, e que quase não voltou do segundo para o terceiro round. O Cigano disse que não botou força nos socos para não quebrar a mão e que treinou com o técnico de wrestling a defesa da queda preferida do Werdum. O corte no supercílio do gaúcho, segundo o Werdum, veio de um jab.
Os dois também falaram das punições da USADA. O Cigano contou que ficou um ano afastado por traços de um diurético barato, até provar que era contaminação de suplemento. O Werdum disse que pegou dois anos, que chorou numa reunião em Nova York e que recusou a proposta de reduzir a pena entregando outros atletas.
O que fica
No fim, o Werdum ligou para o mestre Rafael Cordeiro, que ouviu os dois ao vivo e falou em respeito entre adversários. O Cigano fechou do jeito mais simples possível.
“Devia ter tido essa conversa muito antes.”
Júnior dos Santos, no Dos Nossos Podcast · 2:48:54
Para quem acompanhou essa rivalidade desde o começo, ver os dois rindo na mesma mesa vale mais que qualquer luta de revanche.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.