Podcast Nem Me Viu · Bruno Blindado
Bruno Blindado: do acidente de moto à vitória sobre Brad Tavares no UFC
O peso-médio paraibano conta a clavícula quebrada no dia do aniversário, os três russos nocauteados na Rússia e a carreira que, nas palavras dele, deu certo errado.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 25 mai 2023 (1:41:27).
No dia 7 de setembro, dia do próprio aniversário, o Bruno Blindado pegou uma moto emprestada na academia para buscar uma coisa em casa. Um carro cruzou na frente, ele bateu de frente com o capacete folgado e quebrou a clavícula. Estava com luta marcada no UFC para dezembro, contra um russo. No Nem Me Viu, ele disse que era a primeira vez que falava do assunto em público.
Assisti à conversa com o Fabricio Werdum e o que ficou foi a história de um cara que começou tarde, sem planejamento, e chegou ao UFC na teimosia. A vitória recente sobre o Brad Tavares foi o ponto de partida, mas o papo foi bem mais longe.
O acidente e os três meses de recuperação
O Bruno contou que naquela manhã saiu de casa sem falar com ninguém, coisa que nunca fazia. Na academia, ficou em dúvida entre manopla e jiu-jitsu e resolveu buscar o que tinha esquecido. Fazia dez anos que não andava de moto justamente por causa do risco. Depois da batida, olhou para o chão, tentou apoiar a mão e o braço não tinha força.
“Eu falei meu Deus, acho que era a última vez que eu vi minha família hoje.”
Bruno Blindado, no Podcast Nem Me Viu · 0:29:03
Segundo ele, o médico deu de três a seis meses de recuperação. O braço parecia ter resetado: não conseguia nem apertar o interruptor para acender a luz. Ele fez os exercícios três vezes por dia, gelo oito vezes e fisioterapia duas vezes ao dia. Com três meses já estava treinando MMA, e o médico disse que nunca tinha visto aquilo. No meio do drama, ainda sobrou espaço para rir: no mesmo dia da cirurgia, um amigo especialista fez nele um implante de cabelo.
A luta que era pessoal
Antes do acidente, o Bruno vinha de duas derrotas. Uma para o Poatan, que ele chamou de lutão. A outra, em agosto, ele admitiu que lutou muito mal. Para ele, o motivo foi a cabeça: estava lutando para calar a boca dos outros nas redes sociais.
“Eu comecei a lutar para calar a boca dos outros. Eu esqueci disso, estava lutando para os outros.”
Bruno Blindado, no Podcast Nem Me Viu · 0:25:48
Por isso a luta com o Brad Tavares virou assunto dele com ele mesmo. Contou que disse ao Dida, o treinador, que dessa vez a luta era pessoal. Passou 12 dias treinando em Miami e entrou para bater. O Tavares, que ele descreveu como um cara gente boa, veio para a troca no começo e começou a gostar da luta. Foi quando o Bruno acertou e viu o olhar do adversário sumir, a mesma coisa que tinha visto num russo anos antes.
Os três russos em casa
Quando o Werdum perguntou do momento de que mais se orgulha, o Bruno não escolheu o UFC. Escolheu a Rússia. Segundo ele, foi levado para lá para apanhar do Shlemenko, com o ginásio lotado, a família do russo na plateia. Nocauteou em três minutos. Depois pediu o cinturão, pegou um campeão invicto e venceu no quarto round, também na casa dele. Foram três russos nocauteados dentro da Rússia no mesmo ano.
O que mais o deixa orgulhoso, disse, é que depois disso vários colegas da equipe começaram a ganhar dinheiro lutando lá. Ele contou que via brasileiro no avião já reclamando da comida e do dinheiro, indo com desculpa pronta. O pensamento dele era outro: ir lá e bater no russo.
Uma carreira que deu certo errado
O Bruno nasceu em São Paulo e foi criado em Cajazeiras, no interior da Paraíba. Jogava futebol de volante, largou aos 15 anos e só foi lutar em 2009, convidado numa festa por um professor que achou que ele era grande. Três meses depois de começar no jiu-jitsu, o pai morreu. Segundo ele, o treino virou terapia: ficava na academia até as dez da noite para esquecer o mundo.
Ele contou que começou direto no MMA, sem saber jiu-jitsu, e que era dos mais fracos da academia. Também odiava o apelido Blindado. Hoje a filha, Laura, tem Blindado no nome.
“Eu fui o único que deu certo na luta porque eu era o cara que mais treinava e o menos habilidoso.”
Bruno Blindado, no Podcast Nem Me Viu · 0:18:56
Antes do UFC, trabalhava como vigilante na Paraíba. Largou tudo e foi para Curitiba com uma mala, morando numa pensão e dando aula, até entrar na Evolução Thai, onde está há quase uma década. Depois do TUF, em 2014, perdeu e não foi para o UFC. Emendou dez vitórias no Brasil, perdeu no Líbano e só então foi para a Rússia. Contou que o Wanderlei Silva, de quem copiou do Google a tatuagem "Deus é fiel" no ombro sem imaginar que um dia o conheceria, olhou para ele e disse que ele ia estar no UFC.
Respeito, Poatan e Hulk
No quadro de opiniões, o Bruno disse que se arrepende do que falou antes da luta com o Poatan. Segundo ele, o Alex pediu desculpas quando a luta acabou e, no UFC Rio, parou para conversar e o convidou para treinar. Ele também falou com carinho do Bruno Hulk, judoca com quem troca treino: ele ajuda o Hulk em pé e o Hulk virou o professor dele no chão.
O Werdum, do lado dele, contou que o momento mais marcante da carreira foi a vitória sobre o Fedor, em 26 de junho de 2010, e depois o título contra o Cain Velasquez no México, para onde foi passar quase três meses. Lembrou que na véspera jantou com o Babalu, o irmão e o Rafael Cordeiro tomando só água.
O Bruno quer parar aos 42 anos, com 25 a 30 nocautes na carreira, e com a filha já entendendo quem foi o pai. Pelo que ouvi, vai chegar lá do jeito que chegou até aqui: treinando mais que todo mundo.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.