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Podcast Nem Me Viu · Rangel Farias

Rangel Farias e Werdum contam histórias da Tailândia, Chute Boxe e Cro Cop

No episódio de perguntas do Nem Me Viu, o treinador de muay thai e o ex-campeão do UFC lembram de treinos, mestres e bastidores.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 23 jun 2023 (2:10:25).

O contrato era de três meses. Fabricio Werdum foi para a Croácia ajudar Mirko Cro Cop a se preparar para uma luta contra Aleksander Emelianenko, irmão do Fedor, e acabou ficando dois anos. Foi uma das histórias que ele contou no episódio de perguntas e respostas do Nem Me Viu com o treinador Rangel Farias, especialista em muay thai para MMA e treinador do próprio Werdum.

Assisti à conversa, que tem muita brincadeira no meio, e separei o que interessa para quem gosta de luta: a vida do Rangel na Tailândia, a chegada do Werdum à Chute Boxe, os bastidores com Cro Cop e o começo da Kings MMA.

Dez viagens à Tailândia

O Rangel conta que vai à Tailândia desde 2010. Foram dez viagens: quatro como atleta e seis já como treinador, para vivenciar, aprender e lapidar o trabalho. Mesmo como treinador, ele diz que vai para treinar como atleta. O Werdum viu as filmagens e ficou impressionado com o quanto ele treinou, cansado e voltando todo dia.

Lá, o Rangel treina com o Léo, um brasileiro que segundo ele está na Tailândia desde 2009, começou como atleta e por volta de 2014 já tinha moral com os tailandeses como treinador. O Rangel destaca como isso é raro: entrar no alto nível do muay thai tailandês como atleta já é difícil, e como treinador é muito mais. Ele diz que, por falar português, o Léo consegue corrigir os mínimos detalhes, coisa que o treinador tailandês, com inglês médio, não consegue do mesmo jeito.

“O mais impressionante é a humildade. A galera pensa que ele machuca, mas é um controle gigantesco. Ele vai no limite de cada um.”

Rangel Farias, no Podcast Nem Me Viu · 1:23:23

Ele fala assim de um treinador tailandês com quem fez dois treinos, que segundo o Rangel começou a treinar com 4 anos e parou de contar as próprias lutas quando passou de 250. Também conta como a estrutura mudou: em 2010, poucas academias eram boas para estrangeiros, e hoje há complexos com academia de muay thai, galpão de MMA, loja e hotel no mesmo lugar.

Tem também o lado duro. O Rangel lembra que nas primeiras vezes no Muay Thai Plaza os treinadores davam água aos atletas com uma concha tirada de um cooler, no meio do calor, com gato, galinha e cachorro em volta. Ele levava a própria garrafa, mas uma hora, exausto, bebeu daquela água mesmo. Na viagem mais recente, teve uma crise alérgica que nunca tinha tido no Brasil, e acredita que foi o calor intenso somado ao estresse.

O gaúcho que pintou a bandeira na Chute Boxe

O Werdum aproveita para anunciar a visita de Rudimar Fedrigo, o mestre da Chute Boxe, e conta que foi ele quem o buscou no aeroporto quando decidiu ir treinar em Curitiba. O Rudimar levou o Werdum à academia e o apresentou a todos. O Werdum morou dois anos no alojamento da Chute Boxe no bairro Hauer, atrás da academia.

Emocionado por estar lá, ele pintou o símbolo da Chute Boxe na parede inteira do quarto. Segundo o Werdum, o Rudimar entrou um dia, olhou e disse que agora ia ser difícil tirar aquele gaúcho dali.

Dois anos com Cro Cop na Croácia

A ida para a Croácia veio depois. Segundo o Werdum, Cro Cop fez uma proposta muito boa, ele ainda não tinha esposa nem filhas, e os três meses viraram dois anos. O trabalho dele era ensinar jiu-jitsu ao croata, e ele diz que Cro Cop nunca o ensinou nada em pé, porque estava pagando para aprender jiu-jitsu.

O Werdum descreve Cro Cop como alguém que mandava no próprio treino: marcava os horários, e os técnicos não tinham voz. Conta que até no basquete de aquecimento, três contra três, o croata escolhia os melhores para o time dele, e quando viu que ia perder, encerrou o jogo e mandou começar o treino. Para ensinar posições, o Werdum diz que precisava de psicológico, porque Cro Cop duvidava que funcionassem, e ele respondia que o Jacaré fazia aquilo havia anos.

“Ele nunca me chutou na cabeça. Ele me respeitava muito como professor de jiu-jitsu.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 0:46:39

O Werdum também desmente uma história que, segundo ele, Cro Cop conta na televisão croata: a de que o teria pegado num mata-leão. Pela versão do Werdum, foi brincadeira. Ele estava de costas, conversando, quando Cro Cop saiu de casa, onde ficava a academia, e o agarrou por trás. Ele bateu rindo.

Kings MMA, Charles e Dariush

Outro assunto foi a luta entre Charles do Bronx e Beneil Dariush, que o Charles venceu. O Werdum explica que conhece o Dariush há 15 anos e que ele faz parte da equipe que ajudou a criar. Segundo o Werdum, ele foi o primeiro aluno do mestre Rafael Cordeiro na Kings MMA, que começou em 2009 com os dois e mais o Bettega, numa academia pequena. Hoje, diz ele, é uma esquina inteira com mais de 500 alunos.

O Werdum diz que não se arrepende de ter torcido pelo companheiro e que considera o Charles o campeão do povo, depois de José Aldo. O Rangel analisou a luta: o Dariush é um canhoto que usa muito o direto pisando por fora, e ele temia que o Charles se complicasse. Na visão dele, o Charles dominou esse jogo e voltou a brilhar.

Luva, vaselina e o que fica

Com uma luta sem luvas no horizonte, o Werdum explicou a diferença. Para ele, o boxe sem luva exige bater com muito mais cuidado, porque a mão quebra fácil, enquanto com luva o lutador toma mais concussão. Ele conta que a vaselina no rosto serve para a luva deslizar e não rasgar a pele, e que o treinador passa horas antes da luta amaciando a luva nova, que vem dura.

Sobre o próprio aluno, o Rangel diz que perguntou ao Werdum como ele gostava de jogar, e ouviu que fariam o que ele mandasse. O Werdum confirma: em seminário gosta de liderar, mas no treino gosta de ser aluno. Na ligação de Lyoto Machida no fim do programa, o recado resume a noite: nada vem da noite para o dia, e todos os campeões passaram por vitória, derrota e disciplina.

“Não teve segredo, e nada foi da noite para o dia. Teve um processo de vitória e de derrota.”

Lyoto Machida, no Podcast Nem Me Viu · 2:07:28

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.