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Podcast Nem Me Viu · Fabrício Werdum

Werdum conta como deu aula de jiu-jitsu para a seleção de judô da Espanha

Faixa-azul e recém-chegado a Madri, ele montava o tatame todo dia, apanhava em pé dos judocas olímpicos e ganhava deles no chão.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 24 nov 2023 (1:28:51).

Anos antes de finalizar o Fedor, Fabricio Werdum era um faixa-azul que montava um tatamezinho numa sala de dança em Madri. Com o tempo, o professor da seleção olímpica de judô da Espanha pediu que ele desse aula de jiu-jitsu para os atletas dele. Essa é a história que mais me pegou no episódio 60 do Nem Me Viu.

O programa era para ter um convidado de muay thai, que perdeu o voo. Sobrou o Werdum com o amigo Rangel Farias, sem roteiro, respondendo o chat. E foi justamente no improviso que ele abriu o baú: começo tardio, judô na Espanha, a noite do Fedor, o Pride e a dúvida sobre uma luta contra o Bob Sapp.

Pioneiro do jiu-jitsu em Madri

O Werdum contou que foi morar com a mãe na Espanha já faixa-azul. Segundo ele, em Barcelona já havia um Gracie dando aula, mas em Madri ninguém conhecia o jiu-jitsu.

“Eu fui pioneiro de jiu-jitsu em Madri.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 0:29:35

O começo foi pequeno. Ele treinava dentro da estrutura do Atlético de Madrid, onde a seleção olímpica de judô também treinava. O tatame grande, de uns 200 metros quadrados, era só do judô. Ele montava todo dia um tatame menor numa área de dança, com um ou dois alunos e o irmão, Felipe, treinando junto.

Segundo o Werdum, a turma foi crescendo até chegar a 180 alunos, a maioria entre a faixa-azul e a roxa. Ficou tão cheio que a academia mandou ele para o tatame grande, logo depois da aula de judô. Nesse meio tempo ele voltava ao Brasil para lutar o Mundial e retornava para a Espanha. Numa dessas viagens, contou, foi campeão do absoluto na faixa-azul.

Aula para judocas olímpicos

O professor da seleção era Carlos Sotillo. O Werdum contou que se apresentou com educação, pediu para treinar e passou a frequentar as aulas de judô. Enquanto isso, os alunos de jiu-jitsu dele esperavam do lado de fora do tatame.

Um dia, segundo ele, o Sotillo pediu que ele desse aula para os atletas da seleção. Um faixa-azul ensinando jiu-jitsu para judocas faixas-pretas. Ele diz que até hoje fala com o antigo professor, que foi quem lhe deu a faixa marrom de judô.

“No chão eu ganhava deles, finalizava eles direto, mas em pé me jogavam.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 0:31:38

O preço veio no randori em pé. Ele lembra de um judoca chamado Fernando e, principalmente, de Ernesto Pérez, que segundo ele foi medalhista olímpico e pesava uns 130 ou 140 quilos. O Werdum conta que finalizava os caras no chão e, quando o treino começava em pé, eles o arremessavam e caíam por cima dele de propósito.

“Quem apanha nunca esquece, né?”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 0:32:09

Mesmo assim, ele diz que era o primeiro a chegar em todo treino. Na visão dele, foi a insistência que conquistou o respeito dos espanhóis. O Sotillo chegou a colocá-lo numa competição de judô por equipes, no centro de alto rendimento da Universidade Complutense. Foi uma luta só: o adversário tentou um tomoe-nage, ele puxou a perna para o lado, pegou o braço e finalizou. Segundo o Werdum, foi a única vez que competiu no judô.

O judô mexeu no jogo de um guardeiro

O Werdum admite que era guardeiro de puxar direto, sem nem tentar derrubar. O judô, diz ele, deu uma base que mudou um pouco esse jogo. O Rangel lembrou que, mesmo com anos de judô e wrestling, as vitórias mais marcantes do amigo vieram da guarda, com guilhotina e triângulo. O Werdum concordou.

E tem um detalhe que eu gosto de repetir para aluno meu: ele começou tarde. O Werdum contou que só pisou no tatame de jiu-jitsu com 19 para 20 anos. Antes disso, fez um mês de caratê quando era criança, levou um soco no peito do professor e nunca mais voltou. Também fez um único dia de capoeira com o irmão. A palestra que ele dá, lembrou, se chama Nunca É Tarde.

A noite em que finalizou o Fedor

Quando perguntam qual foi a melhor luta da carreira, o Werdum diz que nem pensa: foi contra o Fedor Emelianenko, em 26 de junho de 2010.

“Eu finalizei o Fedor, o maior de todos os tempos. Eu representei o jiu-jitsu muito bem ali.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 1:07:39

Ele conta que já assistiu à luta mais de mil vezes. No começo, contou três socos seus contra seis do russo, tamanha a velocidade. Segundo o Werdum, ele não ficou tonto: perdeu o equilíbrio na fuga e aproveitou para levar a luta ao chão. A ideia da equipe, com Rafael Cordeiro e Babalu, era pegar o Fedor logo no início, antes do suor atrapalhar a finalização.

O triângulo, diz ele, foi um ataque duplo que pouca gente percebe. Quando o Fedor esticava para fugir, ele pegava o braço. Quando o russo voltava para defender o braço, ele apertava o pescoço. Mesmo com a vitória, o Werdum segue dizendo que o Fedor foi o maior de todos os tempos.

Pride, Bob Sapp e um jiu-jitsu que iguala

O Werdum também disse que o Pride foi o evento mais legal em que lutou. Ele lembrou as regras da época: primeiro round de dez minutos, pisão e chute na cabeça do adversário caído liberados, cotovelada no chão proibida. Contou ainda que foi 12 vezes ao Japão e que Wanderlei Silva passou de cem viagens para lá.

Sobre uma possível luta contra Bob Sapp, ele contou que chegou a receber mensagem do próprio Sapp e ficou empolgado. Numa viagem a Angola, porém, um empresário amigo e faixa-preta, o Silvio, disse que só valeria a pena pelo dinheiro. Rômulo Barral, que estava junto, concordou. O Werdum comparou com a luta contra Júnior Cigano, que para ele fazia sentido pela rivalidade de muitos anos. Resumo dele: depende da proposta.

No fim, veio a parte que conversa com todo praticante. O Werdum contou que deu um seminário na Alliance dos Jardins, em São Paulo, academia de Fábio Gurgel, e que Bruno Malfacine fez a aula. Um cara de 60 quilos, muitas vezes campeão mundial, que segundo ele pode finalizá-lo de kimono ou sem kimono se ele vacilar um segundo.

“É impressionante como o jiu-jitsu te iguala com todo mundo.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 1:04:28

Saí da conversa com essa imagem na cabeça. Um faixa-azul brasileiro, sozinho em Madri, montando e desmontando tatame todo dia, apanhando em pé dos judocas olímpicos e devolvendo no chão. Anos depois, o mesmo cara finaliza o Fedor com um triângulo. A trajetória dele cabe numa frase que ele mesmo repete: nunca é tarde.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.