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Podcast Nem Me Viu · Wanderlei Silva, Thor Silva

Wanderlei Silva lembra a primeira luta na Chute Boxe e o filho no jiu-jitsu

Ao lado do filho Thor, o ex-campeão do Pride contou como Rafael Cordeiro o testou aos 17 anos e falou de Belfort, Dana White e Anderson Silva.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 23 fev 2023 (2:19:48).

Wanderlei Silva tinha 17 anos quando um faixa-preta de karatê, cara quadrado, de uns 27 ou 28 anos, apareceu na academia da Chute Boxe no centro de Curitiba. O professor Rafael Cordeiro escolheu o garoto para treinar com o visitante. Segundo o Wanderlei, ali o Rafael queria ver a bravura de cada aluno, mais até do que a técnica, para saber em quem apostar o tempo dele.

Essa história abre a conversa do Wanderlei no Nem Me Viu, o podcast do Fabrício Werdum, que desta vez recebeu também o filho dele, Thor Silva, de 19 anos. Assisti ao episódio e o que mais me chamou atenção foi ver pai e filho falando da mesma coisa em tempos diferentes: o começo difícil, o peso do nome e a primeira vitória.

Mochila da escola e 21 horas de ônibus

O Wanderlei contou que estudava à noite e ia da academia direto para a escola. Numa quinta ou sexta-feira, ainda com a mochila nas costas, ouviu do Rafael que a equipe ia lutar em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Ele não tinha roupa nem escova de dente. O Rafael disse que dariam um jeito. O Wanderlei ligou para a mãe avisando e embarcou: foram 21 horas de ônibus até lá.

No Rio, o Rafael mandou todo mundo raspar a cabeça. Segundo o Wanderlei, eram cinco lutadores da Chute Boxe e os cinco ganharam. Ele venceu em 20 segundos, numa época em que ainda nem treinava jiu-jitsu.

“O Rafael foi o primeiro cara que me deu a oportunidade de lutar.”

Wanderlei Silva, no Podcast Nem Me Viu · 0:22:07

Mais tarde veio o primeiro torneio de vale-tudo, com três lutas numa noite e prêmio de 10 mil reais para o campeão. O Wanderlei contou que venceu a primeira por pontos contra um lutador de karatê do Mato Grosso, mas quebrou o nariz e a mão e não pôde seguir no torneio.

Na conversa, ele disse que conhece o Rafael há 30 anos e que, quando entrou na academia, o professor ainda era faixa azul-escura. Lembrou também a lição do mestre Rudimar Fedrigo, que dizia aos alunos que eles podiam fazer frente a qualquer um e treinava a equipe para isso.

Thor Silva e o primeiro campeonato de jiu-jitsu

O Thor morou nos Estados Unidos dos 3 aos 13 anos e começou no jiu-jitsu com 5. Ele contou que fez um trato com o pai: pegaria a faixa-preta no jiu-jitsu e no muay thai. Na primeira luta amadora, acertou um chute na barriga e ganhou por nocaute.

O pai narrou o campeonato de jiu-jitsu em São Paulo como quem narra final de Copa. No primeiro dia, depois de horas esperando perto da balança, descobriram que a categoria faixa-branca até 70 kg já tinha sido chamada. No dia seguinte, segundo os dois, o Thor finalizou a primeira luta, venceu a segunda por dois pontos contra um adversário duro, que escapou de um triângulo, e ganhou a terceira. Na final, contou o Thor, o professor gritou para ir na queda de duas pernas. Ele entrou, montou e, no fim, pegou as costas e finalizou no mata-leão.

“Eu vou ser conhecido como Thor Silva, e não como filho do Wanderlei Silva.”

Thor Silva, no Podcast Nem Me Viu · 0:54:46

O Wanderlei lembrou que Shogun, no começo, era chamado de irmão do Ninja, e que cada um construiu o próprio nome. Sobre o Ninja, disse que é um dos lutadores mais valentes que já viu.

O Werdum, o Mirko e a maleta de dinheiro

O Werdum também contou a própria história. Segundo ele, começou no jiu-jitsu com 19 ou 20 anos, depois de só um mês de karatê, e antes disso vivia na praça com os amigos. Passou a ganhar dinheiro com o grappling, no ADCC, e depois no MMA. Quando via o Wanderlei lutando no Pride, dizia aos amigos que chegaria lá, e riam dele.

A porta do Japão se abriu, segundo o Werdum, depois de uma vitória no Jungle Fight, em 2003. Pouco depois, já morando na Espanha, recebeu a ligação de um empresário japonês que queria contratá-lo para treinar Mirko Cro Cop no chão. Na assinatura, em Madri, o empresário abriu uma maleta e entregou 10 mil dólares em dinheiro. O Werdum passou dois meses no Japão morando com o croata e depois dois anos na Croácia.

As histórias da Croácia renderam as melhores risadas. O Werdum contou que o Mirko construía uma mansão na montanha com um tatame de 200 metros quadrados, passava direto pela alfândega sem mostrar passaporte e só aceitava encerrar o basquete de aquecimento quando estava ganhando. O assessor dele, Igor Pokrajac, chegou a ser mandado morar com o Werdum para fazer companhia ao brasileiro. Segundo o Werdum, o Mirko adorava o Jacaré, e toda posição que ele mostrava ouvia um "o Jacaré faz assim".

No Pride, o Werdum lutou sete vezes. Contou que perdeu por decisão dividida para Sergei Kharitonov, venceu a terceira luta com um triângulo, perdeu para o Minotauro e entrou no GP dos pesados que o Mirko venceu. O Wanderlei, que lutou duas vezes com o croata, mostrou o corte que ficou do chute na cabeça na segunda luta.

Belfort, Anderson e Dana White

No quadro de opiniões do programa, o Wanderlei lamentou nunca ter feito a revanche com Vitor Belfort. A luta chegou a ser marcada, mas, segundo ele, o Belfort quebrou a mão. Contou ainda que uma vez xingou o rival numa convenção do UFC e, depois, pediu desculpa pessoalmente quando os dois se encontraram para gravar o TUF.

Sobre Anderson Silva, lembrou que chegava às 9 da manhã de sábado na academia dele, num bairro humilde de Curitiba, e o Anderson já estava lá havia tempo, suado de tanto treinar. Para o Wanderlei, é isso que explica a carreira, já que, nos torneios internos da Chute Boxe, o Anderson chegou a perder duas vezes para o Pelé Landi.

Com Dana White, o Wanderlei fez uma autocrítica. Disse que, influenciado por gente ao redor, brigou com quem pagava as contas, quando o UFC lhe deu oportunidades e dinheiro. O Werdum discordou e contou que nunca teve boa convivência com o presidente do UFC.

“Você nunca deve morder a mão que te alimenta.”

Wanderlei Silva, no Podcast Nem Me Viu · 1:31:53

O apartamento emprestado

Talvez a história mais bonita tenha sido a do Werdum sobre o Rafael. Ele contou que, ao chegar aos Estados Unidos sem crédito para alugar um imóvel, o mestre saiu do apartamento onde morava com a família e deixou o Werdum, a esposa e a filha morarem ali por uns seis meses. A academia, disse, começou com cinco pessoas treinando. Em 2010, o Werdum ganhou o prêmio de finalização do ano pela vitória sobre o Fedor e o Rafael, o de técnico do ano, os dois de terno alugado. A mãe do Werdum ligou só para comentar que a calça estava curta.

O Wanderlei, por sua vez, disse que se encantou pelo Werdum naquela época difícil, quando ele estava sem luta e chegava todo dia às 9 da manhã sorrindo e animando o time. O que fica do episódio é isso: três gerações da mesma escola, do garoto testado pelo Rafael em Curitiba ao filho que agora começa a própria trilha no tatame.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.