Dos Nossos Podcast · Raul Gazolla
Raul Gazolla conta que o coração parou durante um treino de jiu-jitsu
No Dos Nossos Podcast, o ator lembrou como começou no tatame à força e ouviu do Werdum os detalhes da vitória sobre Fedor.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Dos Nossos Podcast, publicada em 6 out 2025 (1:22:52).
Todo mundo conhece o Raul Gazolla da televisão, mas pouca gente sabe o tamanho da história dele com o jiu-jitsu. No Dos Nossos Podcast, sentado com o Fabrício Werdum, ele contou que já teve seis infartos e que, no último, o coração parou no meio de um treino de jiu-jitsu.
Assisti à conversa e essa foi a parte que mais me pegou. Ele conta tudo com calma, quase rindo, e o detalhe que causou o problema é uma coisa que acontece em qualquer academia: um cronômetro ajustado com tempo diferente do combinado.
Oito minutos no lugar de cinco
Segundo o Gazolla, ele tem uma condição física que não permite passar de 180 batimentos por minuto. Por isso treina com relógio e só com colegas que sabem da situação. A rotina é sempre a mesma: aquecimento, posições e depois rolas de cinco minutos com cinco de descanso, no máximo três vezes.
No dia do infarto, um colega chamado Douglas colocou oito minutos no cronômetro sem avisar, e o Gazolla estava sem o relógio. Ele lembra que achou estranho, porque nunca tinha visto cinco minutos tão longos. O parceiro era um faixa-azul muito forte, e os dois passaram o tempo todo numa disputa de força, um empurrando e o outro puxando.
“Meu coração parou.”
Raul Gazolla, no Dos Nossos Podcast · 0:23:08
Quando sentou, ele percebeu que não estava bem. Pediram para ele levantar, ele chegou até a escada e apagou. Segundo o Gazolla, um faixa-preta que era médico fez massagem cardíaca ali mesmo, enquanto um faixa-roxa segurava as pernas dele para cima. Quando ele abriu os olhos, os colegas colocaram ele no carro e levaram para o hospital.
Ele também descreveu o que sentiu enquanto estava apagado: um campo verde, muitas árvores, um casal de branco e pessoas chamando o nome dele. Depois entendeu que a voz era do médico fazendo a massagem. Para quem é professor, como eu, fica o recado: aluno com restrição médica precisa de um combinado claro com o parceiro e com quem controla o tempo.
Três faixas-brancas fortes contra oito faixas-pretas
A entrada dele no jiu-jitsu foi quase à força. O Gazolla contou que tinha 14 anos de capoeira quando foi para São Paulo, onde tinha muitos amigos faixa-preta que insistiam para ele treinar. Ele recusava, porque não queria ficar agarrando quimono suado.
Até que num domingo, às seis da manhã, o Celso Cavallini subiu no quarto de hotel onde ele estava, empurrou ele da cama e jogou um quimono em cima dele. Segundo o Gazolla, o Celso deu três opções: ou ele ia, ou ele ia, ou ele ia. Foram para a academia de Mário Yamazaki e Fernando Yamazaki.
Chegaram às nove: o Gazolla, o Alexandre Frota e o Ricardo Macchi, três faixas-brancas grandes e fortes. Do outro lado, oito faixas-pretas, dos magrinhos aos médios. Até o meio-dia, segundo ele, os três foram jogados para a direita, para a esquerda, para cima e para baixo sem conseguir fazer nada.
“Eu preciso aprender esse esporte.”
Raul Gazolla, no Dos Nossos Podcast · 1:00:49
Nos três primeiros anos, ele contou, fazia duas ou três aulas por dia, de segunda a sábado, e se pudesse treinava no domingo também. No fim do programa, lembrou rindo que dos três amigos só ele continuou, justamente o que não queria começar.
Do tatame para a palestra
Hoje o Gazolla dá palestras sobre superação e disse que um terço delas é sobre jiu-jitsu. Citou uma apresentação no Sebrae para empreendedores com mais de 50 anos. A frase que ele mais usa aprendeu no tatame.
“Todo faixa-preta é um faixa-branca que não parou de treinar.”
Raul Gazolla, no Dos Nossos Podcast · 1:01:50
A ideia, segundo ele, vale para o trabalho: a pessoa pode ter diploma e toda a teoria, mas chega no emprego novo como faixa-branca, e quem tem experiência de vida vai ensinar. A outra lição é ficar confortável no desconforto. Ele usa a imagem de estar embaixo de um adversário de 120 quilos: quem se desespera perde o fôlego e bate; quem respira vai saindo devagar e provoca o outro a se mexer para abrir espaço.
Ele também falou do tatame como um lugar sem classe social. Todo mundo usa o mesmo quimono, e o bilionário que chega de faixa-branca tem de respeitar o faixa-roxa que trabalha de pedreiro. O Werdum concordou e contou que também tem um slide chamado o poder do jiu-jitsu nas palestras dele, embora diga que recomenda qualquer arte marcial para quem pergunta onde colocar o filho.
Os 69 segundos do Werdum contra Fedor
A conversa abriu pelo lado do anfitrião. O Gazolla lembrou da vitória do Werdum sobre Fedor, finalizado num triângulo, e o Werdum contou que tudo tinha sido planejado com o mestre Rafael Cordeiro, com o Cobrinha e com o irmão, Felipe Werdum. Segundo ele, pensaram até no suor: o triângulo encaixa melhor no começo, antes de o corpo ficar escorregadio.
“A gente pensou até no suor.”
Fabrício Werdum, no Dos Nossos Podcast · 0:01:19
Muita gente achou que ele tinha caído atordoado. O Werdum explicou que não queria ir para o chão naquele momento, mas que aproveitou a situação para colocar o plano em prática logo no início. Ele brinca que prefere dizer 69 segundos em vez de um minuto e nove, porque valoriza mais.
E contou uma história que, segundo ele, conta para pouca gente. Na época em que treinava com o Mirko Cro Cop, entre 2004 e 2006, assistiu no Pride à luta do Fedor contra o Minotauro. O irmão Felipe olhou para ele, muito sério, e disse que um dia ele ia ganhar do russo.
Cinco lesões em 60 dias
O Werdum também falou da luta sem luvas contra o Cigano, mostrada no documentário Acima da Dor. Segundo ele, foram 60 dias de preparação e cinco lesões: os dois dedos do pé quebrados dez dias antes da luta, o quadrado lombar, o punho, o joelho e o cotovelo. Ele diz que não faltou a nenhum treino.
Faltando cinco minutos para o fim de um treino, o braço dele travou num soco e, segundo ele, hoje não estica por completo. Quando avisou o treinador, ouviu uma resposta que ele repete arrepiado.
“Que bom que tu tá aquecido. Vamos embora.”
Fabrício Werdum, no Dos Nossos Podcast · 0:18:29
Capoeira, Jungle Fight e uma costela quebrada
Antes do jiu-jitsu, a luta do Gazolla era a capoeira. Ele contou que treinou dez anos com o Mestre Camisa e que, em Barcelona, pediu para entrar no show dos Furacões da Bahia, grupo do Camisa Roxa, irmão do Camisa. O Camisa Roxa ligou para o irmão para confirmar quem era o tal Maluquinho, apelido dele na capoeira, e ele entrou na roda naquela mesma noite.
Também lembrou de uma luta casada, em tom de brincadeira, contra o narrador Rhoodes Lima, com quem trabalha nas transmissões do Combate. Segundo o Gazolla, ele entrou com uma costela quebrada num treino, lutou com o tronco enfaixado e perdeu: o Rhoodes derrubou ele duas vezes e ganhou os pontos, merecidamente, nas palavras dele. Hoje os dois transmitem juntos o Jungle Fight, evento do Wallid Ismail, que passa na Globo depois do Altas Horas.
O que fica da entrevista é a imagem de um cara de 70 anos que quase morreu no tatame e continua treinando, agora de relógio no pulso e com parceiro avisado. Para quem acha que jiu-jitsu tem idade certa para parar, o Gazolla é uma boa resposta, desde que se respeite o próprio limite.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.