Podcast Nem Me Viu · Marcelo Alonso
Marcelo Alonso lembra quando Carlson Gracie apontou o jovem Vitor Belfort
Em 30 anos cobrindo luta, o jornalista viu o vale-tudo virar MMA. No Nem Me Viu, contou como Wallid o levou até Carlson e por que Rickson é lenda.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 2 dez 2022 (2:57:25).
No Campeonato Brasileiro de 1994, o Carlson Gracie chamou o fotógrafo Marcelo Alonso e apontou um garoto: fica de olho naquele moleque, é um fenômeno. O garoto ganhou o peso e o absoluto, e depois pediu as fotos. Não tinha dinheiro. O Alonso deu as fotos de presente, e o menino prometeu que ainda ia ser capa da Tatame. Era o Vitor Belfort.
Dois anos depois, contou o Alonso, ele fez em Los Angeles a primeira matéria com o Vitor, que morava com o Carlson e era apresentado como Vitor Belfort Gracie. Seis meses mais tarde, cobrindo o UFC 12, fez a capa da Tatame com ele no próprio estúdio. Assisti às quase três horas desse episódio do Nem Me Viu e essa foi só a primeira de muitas histórias.
O Fabrício Werdum chamou o convidado de enciclopédia do MMA. O Alonso disse que naquele ano de 2022 completava 30 anos de profissão, e que começou como hobby: era microbiologista, analisava produtos de farmácia num laboratório e vendia fotos nas academias depois do expediente.
Como Wallid abriu a porta do Carlson
O Alonso treinava no Clube Barra com o Cláudio França e não tinha ligação com a turma do Carlson. Um amigo o indicou para fotografar o Renzo Gracie na luta contra o Wallid Ismail. O plano era vender as fotos para o Renzo. Só que o Wallid venceu, e as fotos ficaram encalhadas.
Foi aí que ele foi vender para o Wallid. O Alonso contou que o Wallid pechinchou e o levou à academia do Carlson. Lá, o mestre folheou o portfólio cheio de fotos da turma da Barra, fez uma piada pesada com o fotógrafo e depois, vendo que ele ficou sem graça, mandou aparecer na academia. Ele diz que nunca mais saiu.
Para o Alonso, o Wallid tem um papel na história que pouca gente conhece. Segundo ele, foi o primeiro a colocar patrocínio de verdade no quimono. E foi quem, ainda faixa-marrom, foi ao jornal desafiar a luta livre, o que acabou no vale-tudo de 1991, o primeiro mostrado ao vivo na Globo.
“Esses dois são os maiores fazedores de campeões da história.”
Marcelo Alonso, no Podcast Nem Me Viu · 0:40:24
A frase é sobre o Carlson e o Rudimar Fedrigo. O Alonso se incomoda quando americanos discutem quem é o maior treinador de todos os tempos esquecendo que o esporte começou no Brasil há quase 100 anos. Ele citou o Jorge Gracie como talvez o Gracie que mais lutou.
Rickson, a fila de faixas-pretas e a frase profética
O Alonso disse que a entrevista em que mais ficou nervoso foi a primeira com o Rickson Gracie. Ele contou que viu um seminário em que o Rickson enfileirou uns 20 graduados, a maioria marrom e preta, com gente como Paulo Caruso e Renzo, e pegou todo mundo. Segundo o Alonso, o Fábio Gurgel contou sem vergonha nenhuma que bateu quatro ou cinco vezes numa visita à academia do Rickson.
Para o jornalista, o grande valor do Rickson está no que ele fez antes do MMA, nas brigas e desafios da época. Ele lembrou o discurso do Rickson depois do empate entre Eugênio Tadeu e Royler: hoje a gente luta pela honra, um dia vamos ganhar dinheiro com isso.
Na lista de quem merecia mais reconhecimento, o Alonso pôs o Eugênio e o Pelé Landi. O Eugênio, disse ele, estava no vale-tudo de 1984 que mudou a história, com Rolls contra Pinduca e Marcelo Behring contra Flávio Molina. O Pelé, segundo ele, foi quem levantou a bandeira da Chute Boxe, influenciou muito o Anderson Silva e venceu o Pat Miletich quando o americano era campeão do UFC.
Werdum, Fedor e a maior rivalidade do MMA
O Alonso acompanha o Werdum desde a faixa-azul e diz que o diferencial dele sempre foi escolher o caminho mais difícil. Saiu de Porto Alegre para morar sozinho em Curitiba, na Chute Boxe, e depois foi treinar na Croácia com o Cro Cop, que ninguém queria ver de perto. O Werdum confirmou e contou que um russo chegou à academia do croata, tomou um chute na cabeça, abriu o supercílio e foi embora sem voltar.
Quando o Werdum enfrentou o Fedor, o Alonso pegou um avião no sul da Califórnia só para ver, porque acreditava no gaúcho. Para ele, era a maior zebra da história. A luta durou 69 segundos.
“Talvez era a maior zebra da história.”
Marcelo Alonso, no Podcast Nem Me Viu · 0:59:56
Sobre rivalidade, o Alonso não tem dúvida: Brazilian Top Team contra Chute Boxe foi a maior do vale-tudo. Ele contou que, na final do GP do Pride de 2005, entre Arona e Shogun, fotografou japoneses na fila vestindo camisa das duas equipes brasileiras.
O Werdum aproveitou para contar a virada da carreira no ADCC de 2003. Tinha ido só como córner de um amigo, soube que um peso-pesado tinha se machucado, pegou a vaga na manhã da luta e subiu ao pódio. Depois venceu duas categorias em 2007 e 2009.
A chave de pé, os Fadda e as regras de hoje
Uma das partes mais interessantes para quem é do jiu-jitsu foi sobre a família Fadda. O Alonso explicou que essa linhagem fez o jiu-jitsu do subúrbio e manteve competições no Rio quando elas faltavam. Segundo ele, nos anos 1980 quem dava chave de pé era vaiado nos ginásios, como se fosse golpe sem técnica, enquanto os Fadda e a luta livre desenvolviam as pernas.
Ele contou que o Pedro Valente diz que o Hélio Gracie adorava a chave de pé, e que por causa desse preconceito o jiu-jitsu ficou para trás nos membros inferiores. Quem virou o jogo, na leitura dele, foi o John Danaher, levado pelo Renzo para dar aula e que criou um sistema inteiro de ataques às pernas.
Sobre regras, o Alonso prefere a do UFC. Tiraria o pisão e o tiro de meta, que hoje considera perigosos pelo nível dos atletas, tiraria a cotovelada de baixo para cima e voltaria a permitir a pedalada, o chute de quem está por baixo no rosto de quem está com o joelho no chão.
O que fica
O Alonso contou que chegou à faixa-roxa com o professor Ratinho, o mesmo que estava no córner do Werdum contra o Fedor, e parou por causa de uma hérnia. Talvez por isso ele conte a história da luta como quem esteve dentro dela. Saí do episódio com a sensação de que boa parte da memória do vale-tudo brasileiro passa pelas fotos e pelos cadernos desse cara.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.