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Podcast Nem Me Viu · Rangel Farias, Paboom

Quanto tempo leva para lutar? Rangel Farias e Paboom respondem a Werdum

No Nem Me Viu, os treinadores de muay thai e boxe falam de método, lutas justas e bastidores, e Werdum conta como virou o jogo com Fedor e Walt Harris.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 10 nov 2023 (2:40:35).

Cinco moleques de 15, 16 anos, que jogavam bola e já brigavam na rua, treinaram todos os dias por três meses e estrearam. Os cinco venceram. Rangel Farias trata essa história como exceção. Segundo ele, a literatura fala em um ano e meio a três anos para formar um atleta capaz de competir em alto rendimento.

Assisti ao episódio do Nem Me Viu em que Fabricio Werdum recebeu o Rangel, treinador de muay thai, e o professor de boxe Paboom, que fazia ali o primeiro podcast da vida. A pergunta que puxou a conversa é a que todo professor escuta: quanto tempo alguém precisa treinar antes de lutar?

O que vem antes da primeira luta

Para o Rangel, o que fez aqueles cinco estrearem tão rápido foi o histórico esportivo e físico que eles já traziam. Faltava só técnica e metodologia. Ele diz que nunca mais viu aquilo se repetir. Quem chega sem passado no esporte, com sobrepeso, ele manda primeiro para três meses de musculação, para proteger as articulações antes do impacto do muay thai.

Ele também conta que mudou o jeito de enxergar a própria academia. Dos mil alunos, uns dez vão ser atletas. Antes, segundo o Rangel, ele cuidava desses dez e os outros 990 saíam frustrados, e era a época em que tinha problema financeiro. O Paboom concorda: a porrada sozinha não sustenta uma academia, e quem ensina precisa de sistema, fundamento e método progressivo.

“Antes eu cuidava dos 10, e os 990 saíam frustrados da minha escola.”

Rangel Farias, no Podcast Nem Me Viu · 0:27:52

Luta justa, ou luta nenhuma

O Rangel insiste na ideia de luta parelha: estreante contra estreante, mesmo peso, mesmo nível. Ele diz que não vê mérito nenhum em vencer uma luta desigual e lembra um caso no Brasil em que uma faixa-preta de taekwondo foi inscrita como iniciante de muay thai, deu um chute na adversária, e a menina morreu meses depois no hospital. Na leitura dele, a culpa foi também de quem casou a luta sem conhecer as atletas.

O Paboom completa com o que diz ter visto em eventos não federados: gente tirando o enchimento da luva e fazendo rolinho de esparadrapo sobre os ossos da mão, uma soqueira improvisada. Ele lembra que no boxe só é permitida a bandagem, e chama aquilo de crime. Por isso, diz, prefere eventos ligados a federação.

“Eu não tenho mérito nenhum se vencer uma luta que não é parelha.”

Rangel Farias, no Podcast Nem Me Viu · 0:45:41

Paboom, o adestrador que treinou com Popó

A história do Paboom rende. Ele conta que antes do boxe foi adestrador de cães por anos, entrou em mais de 300 casas para ensinar, e diz que foi ali que descobriu que gostava de ensinar. Chegou a ter três profissões ao mesmo tempo: atleta, professor e motorista de van escolar. Começou a dar aula de boxe ensinando o básico, fez o curso da federação e foi evoluindo com outros treinadores.

Em 2010 ou 2011, segundo ele, Popó estava em Porto Alegre como deputado federal, vistoriando obras dos estádios da Copa, e um aluno o convidou para o Clube do Boxe. O Paboom foi buscar Popó no hotel. Ele conta que o tetracampeão fez nove rounds com os alunos, dois com ele, e que foi dormir às três da manhã de tão elétrico. Tempos depois, num evento, Popó o chamou na porta do ônibus e brincou que aquele cara tinha enchido ele de porrada.

“Tu acha que eu vou entrar num ring com um tetracampeão mundial, o cara que eu sou fã, e vou bater uma mão dura nesse cara? Não.”

Paboom, no Podcast Nem Me Viu · 1:54:37

Werdum, Fedor e o reserva que pulou do lado dele

O Werdum aproveitou para refazer a linha do tempo da carreira. Segundo ele, lutou o Jungle Fight 1 e 2 em 2003, o Pride de 2004 a 2006 e chegou ao Strikeforce em 2009, com duas vitórias antes de ganhar de Fedor Emelianenko em 2010. Ele diz que a chance veio também porque não havia quem enfrentasse o russo.

Sobre a careta que virou marca dele, o Werdum conta que fez a cara na pesagem contra Fedor, e o russo, que segundo ele nunca ria para ninguém, riu. Diz que fez o mesmo com Cain Velasquez e ganhou também, e que a ideia veio da boca do Coringa, do Batman.

A melhor história foi a da luta que caiu em cima da hora. O adversário seria Derrick Lewis. O Werdum conta que os dois se encararam na pesagem e que ele respondeu com palavrão a uma provocação. No dia da luta, com a mochila nas costas, recebeu a ligação de Dana White: Lewis tinha machucado as costas. Havia um reserva, Walt Harris, que o Werdum nunca tinha visto, a não ser horas antes, quando um homem enorme deu um pulo ao lado dele no cassino e o pé passou na altura do ombro dele. Ele aceitou, foi para a luta irritado e finalizou no braço.

Fury, Ngannou e o que fica

O Paboom também analisou Tyson Fury contra Francis Ngannou. Para ele, pela regra do boxe, Fury venceu: Ngannou derrubou num round, que vale 10 a 8, mas nos outros esperou e contra-atacou mais do que foi para cima. Ele diz que o treino com Mike Tyson fez diferença para o camaronês. E lembra que dominar o centro do ringue, sozinho, não soma pontos.

Quem mais apareceu no fim foi o jiu-jitsu. O Werdum viu de perto Jailton Malhadinho contra Derrick Lewis e elogiou a paciência do brasileiro com o katagatame. Na opinião dele, pelo que mostrou no chão, Lewis seria um faixa-azul iniciante. Uma boa amostra da conversa toda: técnica, método e respeito valem mais do que pressa.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.