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Pura Connection · Paulão Filho

Paulo Filho revela a ajuda de Rickson Gracie antes da final do GP do Pride

O ex-lutador do Pride lembra o treino de apanhar na academia do Carlson, a rivalidade com a Chute Boxe e a luta contra Chael Sonnen.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 7 jun 2026 (1:26:25).

Paulo Filho já tinha três títulos mundiais de jiu-jitsu, na roxa, na marrom e na preta, e estava na final de um GP do Pride quando sentiu que estava perdendo posição demais. O Carlson já não estava por perto. Ele procurou o Margarida, que indicou o nome óbvio: Rickson Gracie. Havia uma rixa entre o Carlson e o Hélio naquela época, e o Paulo foi mesmo assim.

Segundo ele, a lição começou humilhante. O Rickson pediu para ele montar e saiu rápido. Montou no Paulo e cada movimento do Paulo piorava a situação. O mesmo com as costas e com todos os fundamentos que ele achava que fazia muito bem. O Rickson ensinou três ou quatro ajustes simples, sem cambalhota nem mil detalhes, e o Paulo diz que chegou ao GP sem perder posição.

“Toda vez que eu me movia era para piorar.”

Paulão Filho, no Pura Connection · 0:12:50

Assisti à conversa do Paulão no Pura Connection, e essa história resume bem o que ele defende hoje: menos posição, mais repetição e um jiu-jitsu que não esqueça que nasceu como arte de defesa.

Do judô com bronquite à academia do Carlson

O Paulo conta que começou no judô com 4 anos, com o mestre Soares, na Ilha do Governador. Era uma criança arteira, que mordia e batia nos amigos, e tinha bronquite. O pediatra mandou botar no judô e na natação. Ele lembra que o judô daquela época era bem japonês: quem aprontava levava queda e ia para o canto de castigo.

O jiu-jitsu veio depois de apanhar na rua. Segundo ele, levou um golpe no pescoço de um amigo e chegou em casa furioso. O pai disse que, no dia em que ele quisesse aprender a lutar de verdade, o levaria à academia. Foi assim que chegou ao Carlson, no fim dos anos 80. No judô, virou faixa-preta com 17 anos e competiu muitos anos pelo Flamengo.

Ele credita ao judô boa parte do que fez no jiu-jitsu e no vale-tudo. Com 13 ou 14 anos, conta, já fazia levantamento terra, supino e agachamento no clube. Com 16 ou 17, ia para o circuito europeu adulto apanhar dos georgianos, japoneses, cubanos e franceses. Lembra de um mês na Europa competindo todo fim de semana, medalhando em dois torneios e levando surras nos mais fortes, pouco antes de lutar o Mundial de faixa-roxa de jiu-jitsu, com uns 18 anos.

No jiu-jitsu, diz ele, até os 16 anos nem fazia guarda, porque não precisava. Depois decidiu aprender a parte técnica. Além do Carlson e do Rickson, cita o mestre Osvaldo Alves, que, segundo ele, adaptou muito bem o judô dele para o jiu-jitsu.

O cadeado na porta e o treino de apanhar

As histórias do Carlson são as melhores da conversa. O Paulo diz que o treino lá era pesado e competitivo demais, o que ajudou muito, mas também deixou sequelas e um clima difícil. Para ele, o Carlson democratizou o jiu-jitsu: não queria saber se o aluno tinha dinheiro, queria saber se era casca-grossa e se queria competir.

Na geração do Paulo, conta, o Carlson já quase não botava kimono e deixava as aulas com a velha guarda, gente como Bolão, Peixotinho e Murilo. Mas puxava o treino como ninguém. O Paulo lembra de um dia em que o Carlson soube que ele não gostava de treinar com o André, o apresentador. Mandou quem não fosse treinar sair, trancou a porta com um cadeado e botou os dois para lutar no meio da sala.

O treino que ele mais defende é o de bloqueio. Em pé, um batia com soco e chute, e o outro só podia agarrar, derrubar e estabilizar. No chão, um fazia guarda e só podia se defender enquanto o outro batia. Segundo o Paulo, se o aluno perdesse a paciência e devolvesse um soco, o Carlson parava tudo e botava ele para apanhar ainda mais. Quem fizesse cara feia apanhando era cortado.

“A única valência positiva que você precisa ter numa luta de vale-tudo é saber levar sufoco.”

Paulão Filho, no Pura Connection · 0:55:29

Ele conta que o Murilo tinha uma guarda em que ninguém conseguia dar um tapa na cara dele. E lembra que o próprio Carlson, na luta com Ivan Gomes, não ficou por cima: teve que segurar o grandalhão fazendo guarda.

Chute Boxe, Ninja e as lutas no Japão

O Paulo fala da rivalidade com a Chute Boxe com respeito. Segundo ele, os caras queriam literalmente arrancar os dentes dos lutadores do jiu-jitsu, e o muay thai brasileiro deles foi o mais bem aplicado ao vale-tudo que ele conheceu. Ele cita Wanderlei Silva, o Shogun, o Ninja e o Pelé como caras de verdade, que levavam knockdown, levantavam e seguiam.

Quando lutou com o Ninja, diz, não foi para brigar. Foi para anular: não dar a distância que ele queria, cortar na hora certa e não deixá-lo se mexer, porque quanto mais posição perdesse, mais risco teria de abrir o supercílio. Ele lembra que o Zé Mário tomou um knockdown no início da luta com o Ninja, passou a perder posição, cansou e foi atropelado.

Outra luta marcante, contou, foi contra o holandês Melvin Manhoef. O empresário dele queria que ele enfrentasse o Sakuraba, mas o evento exigiu o Melvin, com cachê muito bom e uns 15 dias para treinar. O Paulo diz que tomou um knockdown, sentou, puxou para a guarda para não levar o segundo golpe, se recuperou, levantou, derrubou e controlou no chão até vencer.

Contra o Chael Sonnen, em 2008, a história foi outra. O Paulo conta que sofria para bater 84 quilos e não recuperava bem. Sabia que ia ser derrubado e decidiu não gastar força defendendo quedas. Esperou por baixo, viu o adversário respirar mal no segundo round, arriscou a chave de braço e pegou.

A morte do pai e a vontade de voltar

Perguntado sobre o momento mais difícil, o Paulo não fala de luta. Fala da morte do pai. Ele conta que o pai o educava sem bater: quando ele aprontava, quebrava a caneca de que ele gostava, o videogame, e chegou a rasgar um kimono. Filho único, diz que descobriu que lutava muito também pelo pai. Quando ele morreu, o Paulo ainda tinha contrato e lutas pela frente, mas o rendimento e o ânimo já não eram os mesmos.

Hoje ele está se preparando para botar uma prótese no quadril e agradece à família Gracie, do lado do Carlson, pelo apoio. Conta que está na casa da Tia Vera, que cuida da dieta dele para a cirurgia. E diz que a chama nunca apagou: quer voltar a lutar de kimono, no master, e dar seminários.

O Paulo resume a história do jiu-jitsu assim: Carlos começou, Hélio aprimorou e Carlson democratizou. Para ele, o Hélio foi a pedra angular, pela coragem de enfrentar o Kimura sabendo que ia perder e de lutar 3 horas e 40 minutos com o Waldemar Santana. É esse jiu-jitsu de quem apanhou para aprender que ele quer ensinar de novo.

“Jiu-jitsu é minha religião.”

Paulão Filho, no Pura Connection · 0:42:31

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.