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Pura Connection · Zé Mário Sperry

Zé Mário Sperry revela sua luta favorita: a derrota para Murilo Ninja

O campeão do ADCC e ex-lutador do Pride fala do erro que cometeu naquela guerra, dos treinos com Carlson Gracie e do dia em que decidiu parar.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 8 nov 2021 (1:10:09).

De todas as lutas que fez no jiu-jitsu, no grappling e no MMA, a preferida de Zé Mário Sperry é uma que ele perdeu: a guerra contra Murilo Ninja. Quem conta é ele mesmo, no Pura Connection. E o motivo diz muito sobre o lutador que ele foi.

Assisti à conversa e fiquei impressionado com a calma com que ele fala de tudo, até do nocaute. O Zé Mário lembra da rivalidade da época, do erro que cometeu, dos treinos com Carlson Gracie, do ADCC e do dia em que percebeu que não ia mais ser campeão do Pride.

A guerra contra a Chute Boxe

Segundo o Zé Mário, a rivalidade entre a equipe dele e a Chute Boxe era real. Os dois times pegavam aviões separados, ficavam separados e, se se encontrassem, podia sair briga. No dia da luta, contou, todo mundo estava nervoso, gente chorava dos dois lados, e até Minotauro chorou.

Ele se descreve como um cara muito controlado. Mesmo assim, diz que naquele dia levou a luta para o emocional. A estratégia era dar um ou dois socos e buscar a queda ou esperar o Ninja chegar perto para agarrar na cintura, já que a especialidade dele era a luta greco-romana. Em vez disso, resolveu trocar.

“Foi um erro grotesco de estratégia. Eu fiz exatamente o que eu não havia planejado fazer.”

Zé Mário Sperry, no Pura Connection · 0:41:28

Logo no começo, levou um golpe no queixo, caiu e machucou o joelho: ligamento colateral, cruzado e menisco. Ele faz questão de dar o crédito ao Ninja, que aproveitou o golpe. E explica como é voltar depois de apagar: segundo o Zé Mário, toda a energia do corpo vai para o cérebro, você fica feito bebê engatinhando e, quando volta, já não tem a mesma força. Ele conseguiu voltar o bastante para seguir vivo na luta, e é por isso que tem saudade dela.

Na academia do Carlson, a gente ia para a guerra

O Zé Mário diz que o que mais o atraiu no vale-tudo foi o desconhecido. Não tinha peso, luva, regra definida nem vídeo do adversário. Ninguém sabia se ia sair com lesão para a vida toda. Para ele, a vantagem da equipe era ter o Carlson, que, segundo o Zé Mário, era um homem à frente do seu tempo e já conhecia o vale-tudo. Desde garotos, os alunos faziam treinos com tapa na cara, a coisa mais realista possível para a época.

“A gente não ia para o trabalho, ia para a guerra.”

Zé Mário Sperry, no Pura Connection · 0:31:59

Ele lembra de chegar à academia, olhar de ponta a ponta e ver Murilo, Amaury, Wallid e Paulão esperando. Em 1997, contou, fez três lutas numa mesma noite, sem tempo e sem luva, e foi campeão. Com o tempo, percebeu que precisava aprender boxe para entender o adversário que vinha trocando, mas diz que, quando passou a trocar demais, perdeu um pouco do próprio jogo. A luta começa em pé, lembra ele, e o caminho do lutador de jiu-jitsu continua sendo o chão.

O cara das fitas que virou campeão do ADCC

A ligação com Abu Dhabi começou com uma fita VHS. O Zé Mário conta que, em 1996 ou 1997, gravou nos Estados Unidos uma fita de instrução que bateu recorde de vendas. Nessa época, o sheik Tahnoon, que tinha estudado em San Diego e treinado jiu-jitsu, levou o professor Nelson Monteiro para os Emirados e decidiu fazer uma competição. Segundo o Zé Mário, o sheik quis chamar justamente o cara das fitas.

As regras eram novas e muitos atletas reclamaram. Ele preferiu estudar o regulamento e treinar três meses em cima dele. Venceu o peso e, apesar de ouvir que ia se expor, entrou no absoluto e ganhou tudo. Nos anos seguintes, contou, fez superlutas: venceu um campeão do Pancrase por 16 a 0 e depois Roberto Traven. Mais tarde voltou para as lutas de mestres, contra Renzo Gracie em 2011 e Fábio Gurgel em 2013, e fez meia hora de 0 a 0 com Ricardo Libório, que ganhou na decisão.

Ele diz que é o grappler com mais títulos: tricampeão mundial de jiu-jitsu pela federação e seis títulos em Abu Dhabi. E lembra que foi ao Japão 52 vezes para lutar.

Disciplina, o pai e a hora de parar

O Zé Mário estudou em colégio militar e se formou em Economia na UERJ. Estava estagiando quando recebeu uma proposta para lutar MMA que pagava 20 ou 30 vezes o salário do estágio. Com medo, foi falar com o pai, um homem sério que ele diz ter visto rir umas três vezes na vida. O pai tirou os olhos do jornal e respondeu: faça o que você quiser, mas seja o melhor. Segundo o Zé Mário, é o que ele tenta até hoje.

“A única coisa que supera o talento é disciplina.”

Zé Mário Sperry, no Pura Connection · 0:07:33

Ele conta que gostava mais de treinar do que de ganhar. Depois de uma luta no Pride, voltava do Japão e ia direto para a academia, porque vencer era obrigação. Aprendeu com muita gente além do Carlson, como Luiz Alves no muay thai e Claudinho Coelho no boxe, e treinou por 11 anos lutadores como Anderson Silva, Minotauro, Minotouro, Ricardo Arona e Paulão Filho.

“O meu maior inimigo era a minha própria ignorância.”

Zé Mário Sperry, no Pura Connection · 1:03:00

O auge físico, segundo ele, foi aos 38 anos. O fim veio quando percebeu que, por mais que treinasse, não ia superar Arona, Paulão e Minotauro no treino. Aos 41 anos, entendeu que não seria mais campeão do Pride e se aposentou. Ele admite que foi um erro, porque ainda estava voando. Aos 48, machucou o ombro, e hoje, aos 55, diz que treina no máximo de um cara de 55 anos.

O que fica da conversa é um lutador que conhece os próprios limites e não tem vergonha de contar onde errou. Para quem compete, a história do Ninja vale mais do que muita vitória: o plano estava certo, e o que perdeu a luta foi a cabeça.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.