Pura Connection · Cristiano Marcello
Cristiano Marcello conta como Royler Gracie o liberou para a Chute Boxe
Faixa-preta criado na Gracie Humaitá, ele virou técnico do time mais temido do PRIDE, entrou no UFC com o bíceps rompido e hoje comanda a CM System.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 26 jan 2026 (1:49:23).
Quando Cristiano Marcello decidiu entrar no vale-tudo profissional, a academia dele, a Gracie Humaitá, não tinha time de MMA. Ele foi pedir permissão ao mestre. A resposta do Royler Gracie cabe numa palavra, e mudou a vida dele: vá.
Foi assim que um faixa-preta criado dentro da família Gracie foi parar em Curitiba, na Chute Boxe, onde passou nove anos treinando o jiu-jitsu de nomes como Wanderlei Silva, Maurício Shogun e Murilo Ninja. Assisti à segunda conversa dele no Pura Connection e o que fica é o retrato de alguém que viveu os dois lados de uma rivalidade que, na época, dividia o mundo das lutas.
“Eu falei com o Royler e o Royler falou: meu irmão, vão te tratar bem, vá.”
Cristiano Marcello, no Pura Connection · 0:16:23
Criado pelos Gracie
O Cristiano treina jiu-jitsu desde 1989, ainda criança. Ele recebeu a faixa-preta do Royler e chegou a morar com o Rickson Gracie. Nos campeonatos dos anos 90, era fácil reconhecer ele pelo gorro com o símbolo do Rickson.
Ele contou que foi para o vale-tudo porque as competições de jiu-jitsu já não bastavam. Queria a adrenalina e queria defender o jiu-jitsu do jeito que via os professores defenderem a família. Não havia dinheiro nisso. Antes do MMA profissional, conta ele, já tinha lutado vale-tudo sem luva e subido duas vezes ao pódio do Mundial de jiu-jitsu.
Para o Cristiano, a década de 90 foi o começo da profissionalização do jiu-jitsu. Ele deu crédito ao Carlinhos Gracie por ter levado os Pan-Americanos para fora do Brasil, o que permitiu que muita gente tirasse visto pela confederação pela primeira vez. Na opinião dele, o Carlinhos foi o único que conseguiu enxergar tão cedo o tamanho que o esporte ia ter.
Os nove anos na Chute Boxe
O convite veio por acaso. O Cristiano trabalhava numa produtora com o Joinha e um dia disse que queria voltar a lutar. O Joinha ligou para o Rudimar Fedrigo, sócio dele, e apresentou o Cristiano como um faixa-preta de jiu-jitsu agressivo acima da média, justamente o que faltava ao time. Segundo o Cristiano, o pessoal da Chute Boxe tinha contato com o jiu-jitsu, mas ninguém mostrava tudo a eles.
O estilo casou. O Cristiano sempre teve um jogo muito agressivo de finalização, e isso combinou com a forma como a Chute Boxe lutava. Ele diz que toda a visibilidade que teve no MMA veio do jiu-jitsu, treinando o Wanderlei, o Shogun, o Ninja e o Anderson Silva. Nenhum deles vestia kimono com frequência, com exceção do Rafael Cordeiro, que tinha mais contato com o jiu-jitsu.
Ele não esconde que viveu turbulências. Na época ainda se falava em luta de estilos, e cada comunidade era muito fechada. O Cristiano descreveu a Chute Boxe e a BTT como os dois maiores times do planeta e a maior rivalidade da história do esporte. Ele se definiu como boi de piranha sem saber, porque foi o primeiro a atravessar essa linha. Mesmo assim, diz que nunca trocou a Gracie Humaitá por outra academia de jiu-jitsu: estava representando a academia através do jiu-jitsu dele.
Um detalhe que eu não sabia: ele parou de lutar por um tempo para ser técnico do Wanderlei e do Shogun. Segundo ele, se lutasse uma vez por ano, ia tirar a atenção dos atletas, e como técnico ganhava melhor. Ele começou a comandar treinos na Chute Boxe com 22 ou 23 anos.
“Jiu-jitsu para porrada é só quem teve em campo. Ponto.”
Cristiano Marcello, no Pura Connection · 1:22:24
O TUF com um braço só
Quando a Chute Boxe da época se desfez e cada um seguiu seu caminho, o Cristiano se viu sozinho. Continuou lutando para mostrar ao próprio time que dava para fazer. Numa dessas, lutou num sábado, embarcou para a Jordânia no domingo e fez duas lutas em menos de uma semana.
Aí veio o The Ultimate Fighter. O empresário dele, Nima Safapour, sugeriu mandar um DVD falando inglês, mostrando o estilo de vida e fechando com o vídeo de uma luta famosa dele de vale-tudo. Ele foi pré-selecionado. Só que em 23 de dezembro de 2011 rompeu o bíceps e não conseguia nem levantar o bebê conforto do filho. Com 34 anos, era a última chance de entrar no UFC. Ele decidiu ir com um braço.
O TUF dele foi ao vivo na Fox, com três meses de confinamento em vez dos 45 dias de costume. Ele era o único brasileiro, o mais velho da casa, e a preocupação principal, disse, era mostrar uma postura de que os filhos se orgulhassem. Conseguiu finalizar o adversário para entrar na casa, deu aula de jiu-jitsu para os dois times e, quando saiu, o filho de seis meses não o reconheceu.
Depois do programa, conta ele, assinou um contrato de 10 lutas com o UFC, algo que segundo ele nenhum outro participante do TUF recebeu, e fez seis. A última, aos 36 anos, foi a pior da carreira na avaliação dele. O motivo, olhando hoje, foi o corte de peso: ele desceu para 70 kg e subiu para 81 de um dia para o outro. Por isso diz aos atletas que ninguém deve recuperar mais de 8 kg.
“Com 34 anos, a última oportunidade da minha vida de entrar no UFC. Meu irmão, falei: vou com um braço.”
Cristiano Marcello, no Pura Connection · 1:16:03
A CM System e o jiu-jitsu que funciona no MMA
Há quase duas décadas à frente da CM System, o Cristiano diz ter perto de 60 atletas e nenhum contrato assinado com eles. É acordo de cavalheiro. Ele admite que já se deu mal com isso, mas conta que tem atletas há 15 anos ao lado dele. A aposta hoje é o peso pesado Vitor Petrino, que segundo ele anda com 127 kg fora de luta e desce para o limite de 114.
Sobre o jiu-jitsu, ele é direto. Para o Cristiano, o jiu-jitsu que funciona na luta só ensina quem já passou por ela. Na Chute Boxe, ele tirou muita coisa do próprio jogo: não dá para trabalhar posição com calma quando o adversário está socando, e a guarda fechada, disse, quase nunca finaliza nem raspa no MMA. O que resta é ser um oportunista, aproveitando o erro, o soco que passa, o escorregão.
Ele também explicou por que tantos campeões de jiu-jitsu não brilharam tanto no MMA. Quando o apresentador citou Roger Gracie, Buchecha, Rodolfo Vieira e Jacaré, o Cristiano chamou todos de lendas e apontou o começo tardio. Hoje, segundo ele, o MMA exige excelência em wrestling, jiu-jitsu, boxe e muay thai. O filho dele, de 13 anos, é o exemplo: começou a treinar sério no ano passado, fez a primeira luta de boxe depois de sete meses e deixou o jiu-jitsu para o fim, por ser a arte mais complexa.
O que fica
O Cristiano repete várias vezes uma palavra: marcialidade. Ele acha que o MMA de hoje está mais para esporte do que para arte marcial, e tenta manter na academia o código que aprendeu na Gracie, de respeito ao mestre e ao parceiro de treino. Antes de cada treino, dá uma palavra ao grupo. Os filhos treinam lá, e ele diz que não pode ter um ambiente ruim no lugar onde os filhos estão.
Foi bonito ouvir alguém que esteve dentro da maior rivalidade das lutas brasileiras falar com tanto carinho do mestre que o deixou ir. No fim, ele resumiu a carreira numa frase que eu guardei.
“O dinheiro se gasta, a medalha enferruja, o que fica são as lembranças e o legado que você pode deixar pro próximo.”
Cristiano Marcello, no Pura Connection · 1:48:03
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.