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Podcast Nem Me Viu · Maurício Shogun

Shogun conta por que sofreu na troca do ringue do Pride pelo octógono

No Nem Me Viu, Maurício Shogun lembrou o GP do Pride em que entrou como último colocado, a rivalidade com a BTT e o cansaço que o fez dar uma pausa.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 16 mar 2023 (2:11:07).

O Maurício Shogun chegou ao UFC como campeão do GP do Pride e perdeu a estreia. No Nem Me Viu, ele explicou ao Fabrício Werdum o que mais pesou naquela transição: o espaço. Segundo o Shogun, a vida inteira ele imaginou a luta num ringue quadrado, e de repente se viu num octógono muito mais aberto.

“Eu me senti perdido. Eu nunca andei tanto numa luta, e cansei demais.”

Maurício Shogun, no Podcast Nem Me Viu · 0:44:01

Assisti ao episódio e gostei porque o Shogun fala de luta com a cabeça de quem já parou para pensar no que viveu. Ele tinha acabado de fazer a última luta, diz que está dando uma pausa e contou histórias do Japão, da Chute Boxe e dos mestres que o formaram.

O ringue, o octógono e o jogo da Chute Boxe

O Shogun explicou que o jogo da Chute Boxe era encurralar o adversário e soltar a sequência. No ringue, os cantos têm 90 graus e o cara fica preso. No octógono, segundo ele, o ângulo é aberto e o adversário roda com muito mais facilidade. Ele disse que foi como sair do futsal a vida inteira e cair num campo de futebol.

Para quem é do jiu-jitsu, a análise dele sobre a grade é a parte mais interessante. O Shogun disse que o Pride favorecia o jiu-jitsu, e que no UFC quem está por baixo com a grade nas costas não consegue fazer nada: fica difícil virar o quadril e armar um armlock. A grade ajuda a levantar, mas quem é do jiu-jitsu quer ficar no chão com espaço para trabalhar.

“No UFC, tu por baixo, o cara por cima, tu não consegue fazer nada. A grade nas tuas costas.”

Maurício Shogun, no Podcast Nem Me Viu · 0:45:37

Ele deu como exemplo o Cro Cop, que dominou o Pride e no UFC levou um chute na cabeça do Napão. O Shogun acredita que, no ringue, o Cro Cop teria muito mais chance. O Werdum contou que também perdeu a estreia no UFC, para o Andrei Arlovski, e que depois o evento ainda quis baixar o que ele ganhava no Pride.

O 16º colocado que venceu o GP

Quando o Werdum perguntou qual foi a vitória mais importante, o Shogun citou os dois títulos mundiais, mas disse que o GP do Pride tem mais sentimento. O torneio tinha 16 lutadores e ele entrou como o último, quase ficou de fora. Mesmo assim, contou que passou pelo Rampage, que era o segundo do mundo, pelo Minotouro, que era favorito, e pelo Ricardo Arona na final.

A semifinal teve um peso a mais. Segundo o Shogun, no mesmo dia o Wanderlei Silva, que ele chama de irmão, lutou contra o Arona do outro lado da chave e perdeu. Ele contou que a luta dele foi de pauleira sem parar e que entrou na final sem peso na consciência, porque o favorito era o Arona. Depois do título, disse, tudo mudou de patamar, inclusive a bolsa.

“Eu entrei como o último cara, o décimo sexto. Eu quase não entro no GP e fui campeão.”

Maurício Shogun, no Podcast Nem Me Viu · 0:50:52

O Shogun também lembrou que no Pride era permitido chutar a cabeça do adversário no chão e dar pisão, e que na Chute Boxe eles treinavam isso com um colchonete adaptado. E contou que chegou a fazer cinco lutas num ano só, somando as do GP.

Chute Boxe contra BTT e os mestres

Sobre a rivalidade com a Brazilian Top Team, o Shogun disse que houve bate-boca num café da manhã no Japão e que depois as equipes passaram a ficar separadas. Para ele, foi a maior rivalidade da história do esporte, e o Pride vendia isso porque dava valor à equipe. Hoje, segundo ele, conversa normalmente com o Paulão e com gente daquela época, porque todo mundo amadureceu.

O Shogun falou com carinho do Rafael Cordeiro, o mestre que o acompanhou da faixa-branca à faixa-preta. Disse que a Chute Boxe teve uma liderança que nunca viu em outra equipe no Brasil, com o Rafael e o Rudimar Fedrigo. Ele contou que o Rafael parou de lutar para assumir as aulas a pedido do Rudimar, e que hoje basta o sorriso do mestre no córner para deixá-lo calmo.

“Não basta ser bom treinador, tem que ser motivador e bom líder.”

Maurício Shogun, no Podcast Nem Me Viu · 1:55:31

Ele disse que aprendeu com o Wanderlei o jeito de tratar os fãs, vendo o exemplo no Japão. E contou que, no Japão, se sentia em casa por causa da relação do Rafael e do Rudimar com o evento, a ponto de os diretores do Pride irem ao hotel se despedir do ônibus da equipe.

A casa no México e o gerador

O Werdum aproveitou para contar a história mais tensa do programa. Na preparação para enfrentar o Cain Velasquez, a equipe alugou uma casa a 4 mil metros de altitude no México. Havia um gerador ligado dentro de casa e, de madrugada, todo mundo começou a passar mal. Segundo ele, só não morreram porque alguém abriu a porta e ventilou a casa, e o médico disse que mais duas ou três horas teriam sido fatais.

Ele também contou que, nas duas lutas de título no México, chorou como criança contra o Mark Hunt e não derramou uma lágrima contra o Velasquez, porque já sabia o que era ser campeão.

O que fica

O Shogun disse que parou na hora certa, cansado da rotina de corte de peso, imprensa e pesagem, e que o foco agora é a saúde e os negócios. O Werdum pediu que ele não use a palavra aposentadoria. Para mim, a conversa vale pela explicação do ringue contra o octógono: é raro ouvir um campeão dos dois lados dizer com tanta clareza como o formato do lugar muda a luta, inclusive para quem joga por baixo.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.