Pura Connection · Cristiano Marcello
Cristiano Marcello, cria dos Gracie, conta por que foi ensinar a Chute Boxe
Aluno de Royler e ex-morador da casa de Rickson, ele lembra a chegada a Curitiba em 2001, as brigas daquela época, o TUF com o bíceps rompido e a CM System.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 4 abr 2024 (1:46:20).
Em 2001, poucos dias antes do atentado de 11 de setembro, um faixa-preta criado na família Gracie desembarcou em Curitiba para lutar no Meca e treinar na Chute Boxe. A aposta era de que ele pediria para ir embora em duas semanas. Cristiano Marcello ficou. Contou no Pura Connection que está lá há 23 anos.
“Eu tinha uma aposta que em duas semanas eu ia pedir para sair embora.”
Cristiano Marcello, no Pura Connection · 0:07:27
Assisti à conversa e gostei muito de ouvir alguém que viveu os dois lados de uma rivalidade que marcou a luta brasileira. O Cristiano foi aluno de Royler, morou na casa de Rickson na Califórnia e, anos depois, virou o homem do chão de uma equipe que muita gente no jiu-jitsu via como inimiga.
De Casquinha à Gracie Tijuca
Ele começou em 1989 com o mestre César Guimarães, o Casquinha, no subúrbio do Rio, e ficou lá dois anos e meio. Por meio de um amigo de colégio, conheceu Ralph Gracie, que estava começando a dar aula na Gracie Tijuca. O Ralph ofereceu uma bolsa com uma condição: a partir dali, ele competiria pela academia. O Cristiano diz que foi o primeiro contato dele com profissionalismo no jiu-jitsu.
Pouco depois o Ralph foi embora, e quem assumiu a Gracie Tijuca foi o Royler. Os alunos iam pelo menos duas vezes por semana à Gracie Humaitá para treinos e seletivas. O Cristiano conta que na casa dos Gracie ninguém sabia quando ia ganhar faixa. O professor via que o aluno estava duro e graduava. Ele diz que faz igual até hoje.
Dois anos na casa de Rickson
Em 1995, o Cristiano foi à Califórnia lutar o primeiro Pan-Americano. Lá reencontrou Rockson, filho mais velho do Rickson, de quem tinha ficado amigo no Brasil. Ele conta que os dois se viram no aeroporto vestidos com a mesma roupa da Gracie Tijuca, e que o Rockson pediu à mãe para levar o amigo para morar com a família. De 1995 ao fim de 1997, o Cristiano viveu na casa do Rickson, teve aulas na garagem e ajudava nas particulares.
“O que eu mais aprendi com o Rickson? Ser um ser humano melhor. Eu nunca vi aquele cara falar mal de ninguém.”
Cristiano Marcello, no Pura Connection · 0:15:21
O Cristiano diz que viu o Rickson fazer coisas que ninguém fazia, finalizando campeões mundiais sempre da mesma maneira. Compara o jogo dele à água, que acha a brecha e passa. Do Rockson, que morreu cedo, ele fala com carinho: era quatro anos mais novo, dividia o quarto com ele e amava o Brasil a ponto de ficar furioso quando a dentista fez o aparelho com a bandeira americana.
A bênção de Royler e a chegada à Chute Boxe
A ida para Curitiba começou numa conversa com o Joinha, que era sócio de Rudimar Fedrigo no Meca. O Cristiano já tinha feito vale-tudo em 1997 e queria voltar. O Joinha ligou para o Rudimar e disse que tinha um jiu-jitsu agressivo, perfeito para completar o jogo da equipe. Antes de aceitar, o Cristiano foi à Gracie Humaitá pedir permissão ao Royler.
“Cristiano, vão te tratar bem. Vá.”
Royler Gracie, no Pura Connection · 0:06:26
A adaptação, segundo ele, foi na base de cartela de Dorflex. No começo não podia mostrar muito, porque estava na casa dos outros. Aos poucos, a pedido do Rudimar, passou a dar aulas particulares para Wanderlei Silva. Ele conta que foram nove anos, que formou campeões mundiais de jiu-jitsu dentro da Chute Boxe e que levou Cris Cyborg até a faixa-roxa, colocando ela para lutar contra homens porque não havia mulheres do peso dela. Ele cita Shogun, Ninja e o Wanderlei mostrando jiu-jitsu nas lutas.
O preço foi ser chamado de traidor. O Cristiano diz que doía ficar no córner contra atletas de jiu-jitsu que ele admirava. Numa das histórias mais bonitas, ele conta que Ryan Gracie foi tirar satisfação no Mundial e o Royler interveio.
“Ô Ryan, é o ganha-pão do cara. O cara não deixou de ser quem ele é.”
Royler Gracie, no Pura Connection · 0:21:36
Brigas de outra época
O Cristiano não esconde que viveu a era das brigas. Ele conta que, na noite em que o Wanderlei disputou o cinturão do Pride contra Ricardo Arona, a Chute Boxe dividiu o vestiário com a equipe de um lutador que o Cristiano tinha desafiado. Houve provocação, um deles partiu para cima e, segundo o Cristiano, ele caiu por baixo, tomou uns socos, fechou o triângulo e botou o adversário para dormir sem bater nele depois. Em Curitiba, conta ainda que resolveu uma rixa com um professor de uma equipe rival num mata-leão, atrás de um parque. Ele mesmo diz que hoje não se vê numa situação dessas, mas que era assim que o esporte crescia.
Depois de sair da Chute Boxe, veio o TUF Brasil. O Cristiano conta que rompeu o bíceps no último treino do ano, em 23 de dezembro, e mesmo assim foi selecionado numa entrevista de 15 segundos. Finalizou o adversário para entrar na casa, ficou três meses e dez dias confinado e chorou quando os lutadores foram levados à Strip de Las Vegas. Com isso, diz, fechou a trajetória de ser o único a passar por Meca, Pride, TUF e UFC.
A CM System e o recado sobre o kimono
Em 2009 ele fundou a CM System. Segundo o Cristiano, em sete meses a equipe foi eleita a melhor do Sul, e depois ganhou três vezes o prêmio Osvaldo Paquetá de melhor time do Brasil. Hoje ele diz ter quase 60 atletas profissionais, entre eles Vitor Petrino, com quatro vitórias no UFC. Ele está no sexto grau da faixa-preta, que recebeu no mesmo dia que Letícia Ribeiro, e quer ir à academia do Royler receber o grau e visitar o Rickson.
O recado final é para o jiu-jitsu. O Cristiano diz que todos os seus atletas de MMA treinam de kimono todo dia, porque o kimono refina e deixa tudo mais fácil sem ele. E critica o que vê como perda da essência: regras que tiram o ímpeto, chave de pé ensinada só na marrom e uma geração que sabe pouco de defesa pessoal.
“Jiu-jitsu é de kimono.”
Cristiano Marcello, no Pura Connection · 1:28:14
O que fica, para mim, é a imagem de alguém que carregou o nome da família Gracie para dentro do principal time rival e voltou de lá com o respeito dos dois lados. Hoje, diz ele, o Royce visita o Rafael Cordeiro e todo mundo se trata bem. Ele se sente parte disso.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.