Podcast Nem Me Viu · Cris Cyborg
Cris Cyborg conta como trocou o handebol pelo vale-tudo na Chute Boxe
No Nem Me Viu, a campeã lembra da primeira luta com seis meses de treino, do apelido e dos anos em que não havia adversária para ela.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 3 out 2022 (1:39:10).
Cris Cyborg não queria ser lutadora. Ela jogava handebol, tinha bolsa de atleta na escola e fazia faculdade de educação física em Curitiba quando um homem da Chute Boxe começou a insistir com ela na beira da quadra. Seis meses depois de aceitar o convite, ela estava fazendo a primeira luta de vale-tudo da vida, contra uma faixa-preta de jiu-jitsu, e saiu dela com o cotovelo fora do lugar e a certeza de que tinha nascido para aquilo.
Assisti à conversa dela no Nem Me Viu, o podcast de Fabricio Werdum, gravado quando ela estava de férias no Brasil depois de uma luta de boxe em Curitiba. Os dois se conhecem desde que ela tinha 19 anos, dos tempos de Chute Boxe, e a conversa rende justamente quando volta para aquela academia.
“Foi a luta que eu vi: não, eu nasci para isso, eu quero fazer isso.”
Cris Cyborg, no Podcast Nem Me Viu · 0:16:49
Do handebol para a Chute Boxe
Segundo a Cris, ela sempre gostou de esporte. Jogou handebol dos 12 aos 19 anos, com bolsa, e também jogava futebol, basquete e corria. Quem a levou para a luta foi o Jorginho Careca, da Chute Boxe, que via os jogos porque o filho dele jogava no mesmo time. Toda vez que a encontrava, ele dizia que ela podia ser uma grande lutadora. Ela respondia que não gostava de lutar.
Um dia ela apareceu na academia só para assistir. No outro, participou do treino e gostou. A mãe não aprovava, e a Cris conta que escondia: quando chegava em casa com marca roxa, dizia que tinha tomado uma bolada no handebol. Ela até tentou voltar para a quadra depois, mas diz que a paixão já não era a mesma. E acha que o braço do handebol ajudou no soco, porque na segunda luta batia como quem arremessa a bola.
A primeira luta, contra Érica Paes
A Cris começou a treinar em maio e lutou em novembro. A adversária foi Érica Paes, que segundo ela já era faixa-preta da BTT, numa época em que Chute Boxe e BTT eram rivais. A Cris conta que estava ganhando. O problema foi que ela via os caras da Chute Boxe, como Wanderlei Silva, darem pisão e tiro de meta no treino e achou que podia fazer o mesmo na luta.
Quando foi dar o pisão na cabeça, a Érica empurrou o quadril dela, a Cris caiu e deslocou o cotovelo. Continuou lutando sem conseguir fazer fuga de quadril, até a luta parar. Colocaram o cotovelo no lugar no vestiário, e ela lembra que o Wanderlei subiu no ringue pedindo revanche. A revanche nunca aconteceu.
A segunda luta, segundo ela, foi a principal de um evento Storm Samurai, que Rudimar Fedrigo organizava com Rafael Cordeiro em Curitiba. Depois disso, ficou uns dois anos sem lutar porque não havia adversária nem evento. Nesse tempo, competiu em luta olímpica e jiu-jitsu e continuou treinando. Ela conta que ouvia sempre a mesma coisa: fica pronta, que vai chegar.
Um leão por dia na academia de Curitiba
Quando o Werdum pergunta o que ela lembra daqueles treinos, a Cris cita Wanderlei e Shogun treinando. Mulher quase não havia: só ela e uma fisiculturista chamada Larissa, que segundo a Cris batia nela todo dia.
“Era um leão por dia. Tinha dia que eu apanhava e ia embora chorando, mas se eu apanhava eu queria bater também, mesmo sendo homem.”
Cris Cyborg, no Podcast Nem Me Viu · 0:14:44
O Werdum tem a própria lembrança dela. Ele conta que, quando chegou à Chute Boxe vindo do jiu-jitsu, pegou um treino que começava com uns 10 quilômetros de corrida até o Parque Barigui, com 40 ou 50 atletas. A Cris liderava. Segundo ele, quando ele ainda estava indo, ela já estava voltando.
No parque, o Rafael Cordeiro esperava com manopla, e vinha a roda: um lutador no meio e cada colega entrando por 30 segundos. O Werdum diz que depois descobriu que tinha sido tudo armado como boas-vindas para o cara do jiu-jitsu. Um dos que entraram foi o Dida, e o soco pegou em cheio no olho. Ele conta que passou mais ou menos um mês e meio vendo duplo.
Para o Werdum, todo mundo precisa respeitar o Rafael Cordeiro, porque passaram pela mão dele a Cris, Rafael dos Anjos, Shogun, Wanderlei e Ninja. Ele lembra ainda que o pisão na cabeça dos treinos da Chute Boxe virou marca do grupo no Pride, no Japão, porque os japoneses adoravam aquele estilo agressivo.
De onde veio o apelido Cyborg
No começo, a Cris era chamada de Killer Machine. O Cyborg veio do ex-marido, com quem ela estava havia seis meses quando entrou na Chute Boxe. Ela conta que na segunda luta a galera passou a usar o apelido, e o nome ficou. Quando os dois se separaram, ela perguntou se podia continuar com ele, e o ex disse que sim.
Sobre preconceito, ela lembra que em 2004 e 2005 não existia evento feminino e ninguém entendia o que era ser lutadora. A mãe dizia que luta era coisa de maloqueiro. Hoje ela se diz grata por ter pegado o crescimento do esporte e por ser uma das pioneiras.
Gina Carano, o UFC e a guerra da balança
A luta que abriu as portas, segundo a Cris, foi contra Gina Carano, no Strikeforce. Foi a principal da noite, e ela conta que foi a primeira vez que colocaram rounds de 5 minutos para mulheres, que antes lutavam 3. Ela e o Werdum dão o crédito a Scott Coker, presidente do Strikeforce, que segundo eles sempre investiu no MMA feminino. A Cris diz que ele a ajudou muito na carreira.
Depois vieram o cinturão do Invicta e, por fim, o UFC. A Cris conta que o evento não a queria lá e que ela só chegou por uma campanha dos fãs. O problema maior foi o peso. Segundo ela, o UFC só dava oportunidade no peso de 140 libras, e ela passou três anos em dieta, batendo o peso umas três vezes, até que um documentário ajudou a abrir a categoria dela, de 145.
“Eu fiquei três anos fazendo dieta. Eu lutava e continuava na minha dieta, não dava um tempo.”
Cris Cyborg, no Podcast Nem Me Viu · 0:36:06
Ela diz que se trata desde os 19 anos com a mesma médica em Curitiba, que acompanha hormônios e tireoide. Na luta de boxe recente, pela primeira vez, lutou com 70 quilos e jantava normalmente na semana da luta.
O momento mais difícil da carreira, na conta dela, foi o caso de doping, que a deixou um ano sem lutar. A Cris diz que foi ali que descobriu quem estava de verdade ao lado dela. O Werdum concorda e conta que sentiu o mesmo quando perdeu o cinturão para Stipe Miocic em Curitiba: antes não conseguia andar na rua, depois ninguém falava com ele.
Aposentadoria, dinheiro e o velho vale-tudo
Uma parte longa da conversa é sobre dinheiro. A Cris lembra que lutador não tem aposentadoria: parou de lutar, os patrocínios somem. Por isso ela defende que o atleta invista desde cedo e sonha com um salário mensal para lutadores, como acontece em outras ligas. O Werdum reforça com o próprio exemplo: diz que começou no Pride, em 2004, ganhando 10 mil, e que imposto, treinador e empresário comem boa parte da bolsa.
Aos 37 anos, ela diz que quer fechar 20 anos de carreira, fazer mais lutas de boxe e continuar no Bellator, que chama de casa. E deixa um desejo curioso: fazer uma luta nas regras do antigo vale-tudo, com joelhada na cabeça no chão, cotovelo e até cabeçada.
“Eu gostaria de fazer uma luta de vale-tudo mesmo, o antigo vale-tudo.”
Cris Cyborg, no Podcast Nem Me Viu · 1:23:14
O que fica da entrevista é o retrato de uma atleta que começou quando não havia lugar para mulher no vale-tudo e esperou dois anos treinando sem saber se teria outra luta. A menina do handebol que não gostava de brigar acabou, nas palavras do Werdum, com o cinturão de todas as organizações por onde passou.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.