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Pura Connection · Vinícius Campelo

Vini Campelo conta como o logo da sua academia virou a águia da Alliance

Aluno de Rickson Gracie e piloto de avião há 40 anos, o faixa-coral lembra a fundação da Alliance, os treinos com Hélio Gracie e o jiu-jitsu que ninguém conhecia.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 19 abr 2024 (2:04:35).

A águia que aparece no escudo da Alliance, uma das maiores equipes de jiu-jitsu do mundo, nasceu como logo de uma academia pequena da Barra da Tijuca que só tinha piloto de avião como aluno. Quem conta é o dono dessa academia, Vinícius Campelo, o Vini, faixa-coral, aluno de Rickson Gracie e comandante de linha aérea.

Assisti à conversa dele no Pura Connection e fiquei impressionado com a quantidade de história que cabe numa pessoa só. O Vini treinou com o Hélio Gracie, ensinou jiu-jitsu num clube de judô de Porto Alegre quando ninguém lá sabia o que era isso, ajudou a fundar a Alliance e, aos 61 anos, ainda treina uma hora sem parar com faixas-pretas de 100 kg.

“Essa logo da Alliance hoje era minha Master Barra. Eu sou fundador da Alliance.”

Vinícius Campelo, no Pura Connection · 0:49:59

A academia que só tinha piloto

O Vini treinava na equipe do Rickson, no treino das 11 horas. Segundo ele, quando o Rickson foi embora para os Estados Unidos, ele passou a treinar só com o Jacaré, que também era aluno do Rickson e comandava a Master. Quando se mudou para a Barra, pediu ao amigo Marcelo Sampaio, dono do clube AX, para dar umas aulas a colegas pilotos nas folgas. Era 1992.

A turma cresceu e ele pediu ao Jacaré para abrir uma filial, a Master Barra. Pediu a um aluno desenhista algo ligado à aviação e a bicho, como os Gracie gostavam. Saiu uma águia. Cada grupo tinha a sua marca: o Jacaré e o Fábio Gurgel tinham a deles, o Roberto Traven e o Gigi tinham a Strike, e o Leonardo Castelo Branco tinha a dele.

Os alunos de todos eles viviam se enfrentando nos campeonatos. Aí veio a ideia de juntar tudo num time só. Segundo o Vini, quando chegou a hora de escolher o logo, alguém disse para pegar o do Vini, que era mais bonito. Tiraram o nome Master Barra, escreveram Alliance embaixo e trocaram o formato de triângulo por um oval. A águia ficou.

Porto Alegre, o judô e os desafios

Antes disso, o Vini já tinha levado o jiu-jitsu para onde ninguém conhecia. Em 1987 e 1988, já faixa-marrom, foi morar em Porto Alegre para estudar na escola da Varig. Não havia academia de jiu-jitsu na cidade. Ele entrou no judô da Sogipa, clube que formou campeões olímpicos, com um kimono cheio de patrocínio da Company. Tomou queda de todo mundo, mas finalizou todo mundo no chão. O professor não conhecia aquilo, mas mandou ele puxar o treino de chão a partir da quarta-feira seguinte.

Quando abriu a academia na Barra, em 1992, vieram os desafios. Ele conta que caras do caratê e do kickboxing apareciam querendo testar o pequeno professor. A regra que propunham era que eles podiam socar e chutar, e quando ele agarrasse, a luta parava ali. O Vini diz que tomou alguns golpes, mas pegou todos, sem tirar uma gota de sangue de ninguém.

“Eu não tirava uma gotinha de sangue do cara, ele não ficava um inchadinho, nada, mas dormia.”

Vinícius Campelo, no Pura Connection · 0:52:02

Treinos com Hélio e com os mais duros

Uma das partes mais bonitas da conversa é quando ele lembra do Hélio Gracie. Às quartas-feiras, o Hélio chegava ao tatame e chamava: Vini, sobe. O Vini confessa que na época não gostava, queria mesmo era sair na mão com gente da idade dele. Hoje ele se pergunta como teve esse privilégio. Recebeu há pouco um vídeo de um campeonato em que o Hélio entregava a medalha a ele e o Carlos entregava a do segundo colocado. Ele nem lembrava disso.

O Vini também aprendeu com o Hélio a varrer o tatame. Ele conta que chegava à academia e encontrava o Hélio com a vassoura na mão. Até hoje, na Bodytech da Barra, onde dá aula, pega a vassoura e varre o próprio espaço, mesmo com funcionário para isso.

Ele citou os treinos mais duros da vida. Com o Fábio Gurgel treinava uma hora, e descreveu o Fábio como grande, forte, técnico e muito preparado. Mas o pior era o Alexandre Paiva. Segundo o Vini, até a faixa-marrom ainda dava para treinar com ele; depois, não mais. Ele preferia uma hora com o Fábio a dez minutos com o Alexandre. O Vini também esteve na primeira academia do Fábio em São Paulo, montada com o Sylvio Behring: dormiu na casa do Fábio, que só tinha uma cama, e acordou às seis para ver a primeira aula.

“Eu preferia treinar uma hora com o Fábio Gurgel do que dez minutos com o Alexandre.”

Vinícius Campelo, no Pura Connection · 0:05:52

O jiu-jitsu invisível e a cabine do avião

O Vini é piloto há 40 anos: 20 na Varig, um na TAM e 17 na Gol. Grande parte da conversa foi sobre aviação, e ele faz a ponte com o tatame o tempo todo. Para ele, as duas coisas dependem de tomar a decisão certa em frações de segundo, e as duas se aprendem com repetição e variedade. Na aviação existem os itens de memória, que o piloto executa sem ler o checklist. No jiu-jitsu, diz ele, é igual: quando o adversário vai pegar o braço, não dá tempo de pensar.

Ele também falou do que o Rickson chamava de jiu-jitsu invisível. Hoje um faixa-azul vê mais posições no celular do que um professor viu na vida, mas não enxerga o detalhe que faz a posição funcionar. É aí, segundo o Vini, que entra a experiência, igual ao comandante de cabelo branco que já passou por situações que o copiloto nem imagina.

E ele lembra que jiu-jitsu é luta que busca a finalização de verdade. Por isso gosta de treino longo e não gosta das lutas de cinco minutos. Contou que num campeonato master perdeu a primeira luta por pontos, voltou pela repescagem e finalizou o mesmo adversário na final.

O que fica

A academia do Vini tem 32 anos e, pelas contas dele, perto de 400 alunos. Ele diz que todos os alunos antigos já batem nele e que o primeiro faixa-preta dele, o Juninho Montenegro, deixou de apanhar quando passou da marrom. E conta isso com orgulho.

O que me marcou foi o fim. O Vini diz que não quer formar campeões. Quer ensinar o aluno a se defender, porque o resto (confiança, amigos, o estilo de vida) vem junto. Para ele, o diploma mais poderoso que tem na parede é a faixa-preta, um passaporte que abre porta em qualquer lugar do mundo.

“Esse jiu-jitsu é para salvar sua vida. É isso que eu quero te ensinar, o resto todo vem.”

Vinícius Campelo, no Pura Connection · 2:01:49

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.