Dos Nossos Podcast · Fábio Gurgel
Fábio Gurgel revela como a Alliance chegou a 30 mil alunos de jiu-jitsu
No Dos Nossos Podcast, o general da Alliance contou ao Werdum por que trocou o foco na equipe de competição pela escola, lembrou o UFC 11 e falou de Rorion, Meregali e Roger Gracie.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Dos Nossos Podcast, publicada em 27 mar 2024 (1:54:53).
A Alliance tem hoje 30 mil alunos em 31 países, quase 300 filiais e mais de mil professores. No Pan-Americano que começava no dia da gravação, eram 250 atletas inscritos, menos de 1% da base. Foi com esses números que o Fábio Gurgel explicou ao Fabrício Werdum, no Dos Nossos Podcast, a decisão que mudou a equipe: deixar de pensar só em ganhar campeonato e virar uma escola.
Assisti à conversa e gostei de ouvir o general da Alliance falando de negócio sem perder o jiu-jitsu de vista. A entrevista foi às 9h30 da manhã, horário que ele adora: acorda às 5h30, lê por uma hora e treina em jejum.
De equipe de competição a escola
Segundo o Fábio, a Alliance foi fundada em 1993 com um objetivo claro: ser a melhor equipe do mundo. Os Mundiais começaram em 1996, e a equipe venceu em 1998 e 1999. Em 2001 veio um racha, e o time de competição saiu inteiro. A Alliance voltou a ganhar em 2008 e emendou nove títulos seguidos. Ele contou que, desde 2007, a equipe esteve sempre no pódio dos Mundiais nos Estados Unidos, com 11 títulos ali e segundos lugares nos outros. Ao todo, disse, são 13 títulos mundiais, e ele espera o 14º em breve.
A virada, disse ele, foi entender que a competição tinha virado tudo no jiu-jitsu dos anos 90 e afastado a pessoa comum. Ele deu o exemplo do sparring de sexta-feira na Kings, do Werdum: só profissional aguenta. A Alliance então separou os níveis e criou uma metodologia para todo mundo.
“Eu só consigo ter uma equipe de competição porque eu tenho essa base de alunos, não é o contrário.”
Fábio Gurgel, no Dos Nossos Podcast · 0:31:28
Hoje, contou, o aluno novo faz três aulas particulares, depois 60 aulas numa turma só de iniciantes, e só então começa a treinar de fato. Por isso ele desaconselha quem quer fazer musculação ou correr antes de começar: a preparação para o jiu-jitsu, disse, é o próprio jiu-jitsu. Na visão dele, a única forma de uma arte marcial se profissionalizar é aumentar a base de praticantes, porque quem não treina acha jiu-jitsu chato de assistir.
Ele contou uma brincadeira que faz com turmas de iniciantes: deita atravessado, com o peso morto, em cima de um aluno e diz que levou um tiro. O aluno não consegue sair. Para quem sabe jiu-jitsu, disse o Fábio, basta um movimento de quadril. É assim, na visão dele, que a arte mostra à pessoa capacidades que ela nem sabia que tinha.
O menino que ajudava o Jacaré
O Fábio contou que começou a dar aula com o Jacaré aos 15 anos, pegou a faixa-roxa aos 16 e, com 16 ou 17, já ajudava na administração da academia. Na época, lembrou, o jiu-jitsu era só do Rio, e o campeonato mais longe era em Niterói.
A única referência de academia de sucesso que ele tinha era a do Rorion Gracie nos Estados Unidos. Segundo o Fábio, o Joinha, amigo do Rorion naquela época, contava que ele ia sozinho a eventos e seminários de karatê, dizia ter uma técnica que anulava o que eles faziam e chamava o pessoal para a garagem.
“Quem foi quebrar a pedra lá foi ele, não tinha nada.”
Fábio Gurgel, no Dos Nossos Podcast · 1:20:42
Ele lembrou do museu Gracie que existia na academia de Torrance e da maquete da ideia original do UFC: um ringue cercado de jacarés, para ninguém poder sair. Contou também, pelo que ouviu do Rorion, que na luta do Royce com o Dan Severn o sinal do satélite caiu antes do fim, e a reprise acabou explodindo de audiência.
O UFC 11 sem luva
O Fábio lutou o UFC 11, num torneio de oito lutadores, sem luvas. O adversário foi o Gerry Bohlander, do grupo do Ken Shamrock. Segundo ele, o juiz John McCarthy avisou antes que, se a luta parasse no chão, mandaria levantar. O Fábio perdeu a montada, algo que diz que não costumava acontecer, caiu por baixo, e o adversário ficou agarrado na grade. Na sequência, contou, pegaria o Tank Abbott e o Mark Coleman, que acabou vencendo o torneio.
Ele também passou uma semana no palácio de Abu Dhabi dando aula para o sheik, que segundo ele é faixa-preta de verdade, amigo do Renzo e criador do ADCC. Para o Fábio, o jiu-jitsu vive o maior hype da história, com gente como o Joe Rogan falando da arte o tempo inteiro.
Meregali, Rodolfo e Roger
O Werdum perguntou sobre o ego, e o Fábio defendeu que ele é necessário para qualquer conquista. Sobre o Nicholas Meregali, disse que o conhece desde a faixa-azul, aluno do Mário Reis, e que ele chegou a morar na academia. Na visão do Fábio, o personagem polêmico é uma estratégia comercial, parecida com a do Gordon Ryan, e funciona. A dúvida dele é se o Meregali vai querer ser professor depois, porque isso não é o que as pessoas admiram num formador.
Como contraponto, citou o Rodolfo Vieira, que nunca falou mal de ninguém, e o Roger Gracie. Segundo o Fábio, muita gente torcia contra o Roger só porque ele era Gracie, e ele ia lá e ganhava de todo mundo. Ele contou ainda que o pai do Roger, o Maurição, foi um dos primeiros faixas-pretas do Rolls e visitava a academia do Jacaré para bater nos garotos. Quando o Fábio chegou à preta, o Maurição já tinha parado, e o Roger ainda era criança.
“Apanhei do pai e do filho, não tinha ninguém no meio para eu bater.”
Fábio Gurgel, no Dos Nossos Podcast · 1:52:38
O Fábio disse que é difícil não colocar o Roger como o melhor competidor de jiu-jitsu de todos os tempos. Para fechar, respondeu que o sentido da vida é buscar uma vida virtuosa, o oposto do que é confortável. Saí da conversa achando que é exatamente o que ele tenta vender na Alliance.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.