Pura Connection · Alexandre Paiva
Gigi Paiva conta o conselho de Rickson Gracie que manteve a turma do Jacaré
Um dos líderes da Alliance lembra os treinos com Rickson, a rivalidade com Fábio Gurgel e o Mundial vencido com o menisco rasgado.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 12 out 2023 (1:19:52).
Gigi Paiva e Fábio Gurgel ainda eram faixas azuis quando pensaram em trocar de academia. Os dois só tinham um ao outro para treinar duro e resolveram pedir para entrar na turma de Rickson Gracie, onde já frequentavam os treinos. A resposta do Rickson, segundo o Gigi, mudou o rumo dos dois: seria uma honra ter os dois ali, mas era mais importante eles levantarem a própria bandeira, a do mestre deles, Romero Jacaré.
“Vocês dois são dois casca-grossas. Seria uma honra ter vocês aqui, mas eu acho muito mais importante vocês levantarem a bandeira de vocês.”
Rickson Gracie, no Pura Connection · 0:27:00
Assisti à conversa do Gigi no Pura Connection e essa história ficou comigo. O Gigi conta que saiu dali impressionado com a sacada. Anos depois, ele, o Fábio e o Jacaré seguiram juntos e formaram o núcleo da Alliance. Nessa entrevista ele fala de como chegou no jiu-jitsu, do convívio com o Rickson, do Mundial que ganhou com o menisco rasgado e do que aprendeu tirando garoto da rua para treinar.
Uma surra do Malibu e a porta aberta pelo Jacaré
O Gigi começou a treinar com uns 12 anos, parou um tempo e voltou pela praia. Ele frequentava o Arpoador desde moleque e ali conheceu o Malibu, que dava aula de manhã na academia do Jacaré e vivia chamando ele para treinar. Segundo o Gigi, ele se achava atleta, nadava, pegava onda, corria. Chegou lá e levou uma surra que o botou no lugar. Gostou tanto que nunca mais parou.
Quando o Malibu saiu, o Gigi passou a treinar direto com o Jacaré, e aí o Jacaré virou a referência total. Foi ele quem abriu as portas da família Gracie para a turma, apresentou o Orlando Cani e ensinou a alimentação Gracie. O Gigi lembra que naquela época eles só comiam fruta e que o Jacaré fazia triatlo, corria, pedalava e nadava. Esse jeito de viver o esporte, segundo ele, foi a base de tudo.
Com o Orlando, o Gigi admite que demorou para entender o que estava recebendo. Conheceu o mestre com uns 17 anos, ia à ioga em Santa Teresa e confessa que a molecada ia mais pelo jantar depois da aula. Só anos mais tarde ele percebeu o impacto daquele trabalho na vida dele e na da família inteira.
O método da academia do Jacaré também vinha dos Gracie, contou. Havia 12 aulas pregadas na parede, e o aluno novo só podia treinar livre depois de fazer as doze.
O que o Gigi aprendeu com Rickson
A academia do Jacaré era afiliada ao Rickson. Todo sábado, segundo o Gigi, havia um treino com todas as academias ligadas a ele, com umas 200 pessoas no tatame. O Gigi chama o Rickson de ídolo e de referência em quase tudo: treino, posicionamento e até briga. Ele lembra de uma confusão no Baixo Leblon em que foi procurar o Rickson e ele já tinha sumido. No dia seguinte, ouviu que quem não quer problema vai embora quando a confusão começa.
Anos depois, contou, os filhos dele se envolveram numa briga em Búzios e pediram ajuda para ir atrás dos rapazes. O Gigi chamou todo mundo para o hotel, trancou a porta e encerrou o assunto. Ele diz que aprendeu isso com o Rickson.
No tatame, o Gigi diz que apanhou muito do Rickson e adorava. Numa vez, treinando na casa dele, ele deixava o Rickson repetir a mesma posição várias vezes para tentar entender o que ele fazia, porque o Rickson fazia e não explicava. O filho, Rockson, percebeu e avisou o pai que o Gigi estava tentando aprender com ele.
Ele também conta os treinos na serra de Teresópolis antes de uma luta de vale-tudo do Amaury Bitetti no Maracanãzinho: ele, o Fábio e o Castelo Branco subiam para treinar em sequência com o Rickson, 25 minutos direto cada um. E cita Marcelinho Behring como outro que batia muito nele, um cara que ele considera até mais perigoso que o Rickson no treino.
“Eu nunca posso perder posição. Nunca andar para trás.”
Alexandre Paiva, no Pura Connection · 0:28:02
Dessa escola veio um hábito que ele levou a vida inteira: treino específico. Como poucos no tatame tinham o nível dele e do Fábio, o Gigi levava o treino para a posição que queria trabalhar e ficava ali, com qualquer parceiro, sem o outro nem perceber.
A rivalidade com Fábio Gurgel e a derrota para Renzo
O Gigi e o Fábio cresceram disputando quem estava melhor na academia. Se um ia treinar, o outro aparecia, nem que estivesse morto, para não ficar para trás. Ele conta que, num fim de ano, o Fábio passou um mês no Nordeste e ele praticamente morou na academia. Quando o Fábio voltou, apanhou tanto que foi para casa chorando e dizendo que ia largar o jiu-jitsu. O Gigi ri da história até hoje.
Entre os adversários mais duros, ele cita Renzo Gracie. O Gigi diz que até hoje acha que não perderia para o Renzo, mas perdeu por dois pontos. Na semana da luta, segundo ele, não dormiu uma noite, de tanta ansiedade. Na hora da luta, faltando 25 minutos, mal conseguia respirar. Ele faz questão de dizer que perdeu para um cara muito bom.
Mundial de 1999 com o menisco rasgado
A história que mais me pegou foi a do título mundial de 1999. O Gigi conta que estava voando naquele ano. No sábado antes do campeonato, aceitou treinar com um faixa pesado de fora que ninguém queria encarar e rasgou o menisco. A perna travou. Um médico mandou botar gelo. O outro, o amigo Edson Passos, disse que era alça de balde e que só cirurgia resolvia.
O Gigi pediu para lutar mesmo assim. Segundo ele, o médico mexeu no joelho até a perna voltar a esticar, e ele passou a semana deitado com gelo. Na quinta-feira subiu na balança e estava 9 quilos acima do peso. Perdeu tudo em dois dias, fez cinco lutas e ganhou o campeonato. Na última luta, contou, o joelho quase travou de novo, e ele lutou rezando.
“Perdi 9 quilos em dois dias, fiz cinco lutas e ganhei o campeonato ainda.”
Alexandre Paiva, no Pura Connection · 1:02:28
Ele também lembra que a mulher, Daniela, foi campeã mundial em 2000, e que ele acha que os dois foram o primeiro casal campeão mundial de jiu-jitsu. Sobre a própria carreira, conta que machucou a coluna quando era faixa-roxa, operou e ficou dois anos parado. O Jacaré ia dar a faixa-preta direto, mas quando o Gigi voltou pegou a marrom, ganhou um campeonato logo depois e recebeu a preta no mês seguinte.
A lição que ele tira disso tudo é saber treinar. O Gigi diz que só aprendeu isso mais velho, que em vários Mundiais passava do ponto no treino e chegava machucado. Com o tempo, passou a fazer a base física fora do tatame, nadando no mar, e só apertar o jiu-jitsu perto da luta.
Do Tererê à Alliance pelo mundo
O Gigi se orgulha dos campeões que formou, e cita o Tererê e o Léo Leite, mas diz que o que mais conta é quantas vidas o jiu-jitsu ajudou a mudar. Ele conta que o Tererê tomava conta de carro na rua quando um conhecido pediu para ele aceitar o garoto na academia. O Tererê veio com os amigos do morro. Segundo o Gigi, tirando um, todos aqueles amigos morreram no tráfico.
“Tirando o Humbertinho, todos morreram. Todos morreram no tráfico.”
Alexandre Paiva, no Pura Connection · 0:53:11
Ele lembra da última vez que subiu o morro para buscar a molecada para um campeonato. Um daqueles garotos da turma tinha virado o chefe do lugar e apareceu armado para cumprimentar. O Gigi diz que o olhar era outro, e usa a cena para falar de escolhas.
Sobre a Alliance, ele reconhece que a divisão da equipe foi um momento triste e de decepção, mas diz que o coração dela sempre foi ele, o Fábio e o Jacaré. O segredo, segundo o Gigi, é o que o Jacaré fazia na academia dele: o aluno se sentir parte da família, tenha a academia 50 ou 500 alunos. Hoje ele tem a escola do Rio, onde o Thiago é sócio, três escolas sendo montadas e a ideia de chegar a umas dez, abrindo espaço para filhos, alunos e amigos empreenderem no jiu-jitsu.
O que fica da conversa é um cara que fala do jiu-jitsu como preparação para os momentos ruins da vida. O Gigi não gosta de trash talk e diz que o que se leva são as histórias e os amigos. Depois de mais de 40 anos ao lado do Fábio e do Jacaré, ele brinca que, se os três botassem num livro o que passaram juntos, não ia caber.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.