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Connect Cast · Leonardo Castelo Branco

Léo Castelo Branco lutou vale-tudo na Rússia com a clavícula quebrada

Fundador da Alliance, ele conta como eram o jiu-jitsu e o vale-tudo antes do UFC, de Rickson e Marco Ruas a Libório e Mark Kerr.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 3 ago 2023 (2:22:09).

Em 1997, pelas contas dele, Léo Castelo Branco subiu num ringue na Rússia para uma luta de vale-tudo sem luva, com cabeçada e chute no chão valendo. Do outro lado estava Igor Vovchanchyn, que segundo o Léo já tinha uma fila de nocautes, inclusive em cima de brasileiros. No meio da luta, uma joelhada partiu a clavícula do Léo. Ele seguiu lutando. Foram 35 minutos.

Assisti à conversa dele no Connect Cast e essa história resume bem o tema do episódio: como eram o jiu-jitsu e o vale-tudo muito antes do UFC. O Léo é da antiga. Foi o primeiro presidente da Alliance, treinou com Rickson Gracie, enfrentou Libório e Murilo Bustamante no tatame e viu de perto o americano Mark Kerr atropelar uma categoria inteira num vale-tudo no Brasil.

Naquela época, segundo ele, ninguém lutava pensando em dinheiro. O sonho de quem fazia jiu-jitsu era lutar vale-tudo, e a mentalidade era outra.

“O vale-tudo era uma coisa assim de vamos para a guerra. Vamos provar que a gente é melhor.”

Leonardo Castelo Branco, no Connect Cast · 0:16:27

A clavícula partida e os 35 minutos que ninguém viu inteiros

A luta chegou por um empresário, num evento de gala com um torneio de oito lutadores e uma superluta. O adversário mudou no meio do caminho e só foi confirmado umas duas semanas antes. Para se preparar, ele treinou boxe com o professor Cláudio Coelho. A ideia era marcar a entrada do Igor e encurtar a distância sem apanhar.

“Eu ficava mais nervoso no jiu-jitsu, quando a gente já tinha uma responsabilidade.”

Leonardo Castelo Branco, no Connect Cast · 0:17:32

Segundo o Léo, a regra combinada era sem jurados: ou nocaute, ou finalização, ou empate. Na hora, os organizadores mudaram e colocaram cinco jurados. Logo no início ele derrubou o Igor, pegou as costas e montou várias vezes. O Igor, nas palavras dele, era malandro: pesava, segurava o braço e não deixava a luta andar. Com o tempo começou a suar e ficar escorregadio.

Aí veio o lance da clavícula. O Léo foi marcar a entrada e o Igor subiu o joelho, que pegou em cheio no osso. Ele disse que sentiu, caiu por cima e continuou. Com a adrenalina, não doía, mas o osso foi rasgando a musculatura por dentro. Quando voltou ao Rio, o médico que o operou chamou ele de maluco.

“Faria tudo de novo, porque foi muito bom, apesar de ter quebrado a clavícula.”

Leonardo Castelo Branco, no Connect Cast · 0:25:09

Teve mais. Segundo o Léo, o juiz no meio da luta mandou ele sair de cima e chegou a puxar a roupa dele. Ele se agarrou no Igor e gritou para o córner que não ia sair, porque aquilo não estava na regra. No fim, dos cinco jurados, os dois americanos votaram nele e os três russos votaram no Igor. Para ele, no mínimo, tinha que dar empate.

A fita que chegou depois tinha uns 22 ou 23 minutos, editada. O Léo guarda uma foto dele montado, socando, no meio do ringue, e essa montada nem aparece no vídeo. Ele lembra que também ninguém pediu exame de HIV para a luta, coisa impensável hoje.

“Até hoje ninguém tem os 35 minutos de luta. Só quem viu ao vivo mesmo.”

Leonardo Castelo Branco, no Connect Cast · 0:27:51

Rickson e Marco Ruas, os dois nomes que todo mundo respeitava

Quando o assunto foi quem dava medo na época, o Léo não hesitou. Por mais que todo mundo fosse casca-grossa, dois caras tinham o respeito de todos: Rickson e Marco Ruas. Ele contou que era moleque, morava no Flamengo, e o Marco já era temido até pela galera do jiu-jitsu. Segundo ele, o Marco treinava muay thai com o falecido Luiz Alves, que chegou a treinar também Minotauro e Minotouro.

O Léo lembrou que o Marco sempre quis lutar com o Rickson, e que a luta nunca aconteceu. Cada lado conta a história de um jeito, e ele preferiu não comentar porque não estava lá.

Com o Rickson ele treinou. Segundo o Léo, o Rickson veio ao Brasil para a fase internacional de um evento e ligou pedindo os caras mais pesados para treinar, desde que não fossem da equipe do Carlson. O Léo foi um deles.

“O cara era jiu-jitsu 100% o tempo todo.”

Leonardo Castelo Branco, no Connect Cast · 0:34:12

Da equipe do Marco, ele destacou o chute do Pedro Rizzo, que segundo ele tirava gente do chão. O Léo contou que deu muitos toques de chão para o Pedro, que já agradeceu por isso.

E tem a história da luta entre o Marco e o Pinduca, que foi professor do Léo. Segundo ele, ninguém queria enfrentar o Marco. O Pinduca passou, viu o Carlson discutindo com o Robson sobre isso e falou que não era possível ninguém topar. Teve que perder um bom peso em cerca de um mês para poder lutar.

Libório, a infiltração e o primeiro Mundial

No jiu-jitsu, a luta mais marcante que ele contou foi contra o Libório, em 1993. O Léo era faixa-marrom e tinha passado dois ou três anos praticamente sem treinar, dando aula à noite e terminando a faculdade. Voltou a treinar ao meio-dia com um parceiro e acabou inscrito no campeonato.

O Libório, da equipe do Carlson, era tratado como fenômeno. O Léo lembra do Carlson dizendo que o Libório era o cara que estava sendo preparado, e de uma entrevista em que Royler Gracie dizia que o Rickson ia esfregar o tatame com a cara do Libório. O Léo ficou no meio dessa disputa dentro da família, entre o pessoal do Carlson e a turma da Barra.

Machucado, ele aceitou uma infiltração de um médico pouco antes da luta. Contou que, numa pausa do Libório, entrou e fez dois pontos, e que o Libório nunca tinha tomado ponto até ali. Só que no fim ele estava morto de cansado, encolhido, com o Libório tentando pegar as costas.

Os dois se reencontraram na final do primeiro Mundial, que ele situa em 1996. Segundo o Léo, os dois ficaram em pé, desconfiados, e o Libório venceu com uma queda. Quem arbitrava era Renzo Gracie. Naquela época, contou ele, um lutador apitava a luta do colega, porque não existia quadro de arbitragem, e tinha campeonato em tatame a céu aberto, de bermuda de surfe.

Contra o Murilo Bustamante, ele lembrou que começou forte, mas em certo momento o Murilo saiu de um ataque, passou a guarda e o gás acabou. O Murilo venceu. Segundo o Léo, a Gracie Magazine elegeu aquela como a luta da década de 1990.

Mark Kerr, o bloco de concreto

Outra lembrança forte é o primeiro vale-tudo do Mark Kerr no Brasil. Segundo o Léo, foram três lutas na mesma noite e a final foi contra Fábio Gurgel. Não havia divisão de peso. Ele e o Jacaré foram ao quarto do hotel dar uma olhada no americano e voltaram assustados: uns 110 quilos, pouquíssima gordura e ombros que pareciam duas bolas de handebol.

O Fábio fez guarda e resistiu, mas o Kerr ficou por cima e não havia como tirar. O Léo admite que ninguém ali tinha noção do que era o wrestling daquele tamanho. Ele lembra que o Kerr saiu com a mão tão machucada que não conseguia mais bater, e que ela infeccionou depois.

A fundação da Alliance e a arrumação dos campeonatos

O Léo contou que a Alliance começou no fim de 1994, com sete fundadores, entre eles ele, o Jacaré e o Fábio Gurgel. Ele foi o primeiro presidente, com estatuto e tudo. Cuidava das inscrições e montava as chaves. Organizou umas dez Copas Aliança e chegou a ter mais de 50 academias pelo Brasil.

“Eu fui o primeiro presidente. Tinha estatuto, teve tudo direitinho lá.”

Leonardo Castelo Branco, no Connect Cast · 1:16:52

A saída, por volta de 2001, veio porque, segundo ele, um dos sócios resolveu tomar conta sozinho, e o Léo queria algo mais democrático. Ele negou que tenha sido por causa da CBJJ. Também deu crédito ao Marcelo Garcia: na visão dele, foi graças ao Marcelinho que a Alliance se segurou naquele período. Hoje ele diz estar com o Leozinho na Checkmat.

Formado em educação física, ele também organizou um campeonato da Federação do Robson na Gama Filho. Montou horário por peso, fechou a pesagem na hora marcada e botou caixinha de reclamação. Para mostrar o tamanho do problema da arbitragem, reuniu 12 árbitros para pontuar a mesma luta, e cada um deu um resultado diferente. Ali começou a padronizar.

“O cara pode errar. Roubar, não.”

Leonardo Castelo Branco, no Connect Cast · 1:41:03

O que fica da conversa é o retrato de um tempo em que se lutava por orgulho, com regra mudando na hora e sem exame nenhum. O próprio Léo confessou que achava que o esporte não ia andar. Hoje ele olha para a organização dos campeonatos e diz que parece outro planeta.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.