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Podcast Nem Me Viu · Fábio Gurgel, Romero Cavalcanti

Fábio Gurgel e Jacaré revelam como nasceu a Alliance, gigante do jiu-jitsu

No Nem Me Viu, os líderes da Alliance contam a decisão de não usar o nome do mestre na porta, o desafio contra a luta livre em 1991 e a visão de Carlinhos Gracie.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 26 out 2022 (1:43:45).

A equipe com mais títulos mundiais da história do jiu-jitsu quase teve o nome de um homem na porta. Quem decidiu que não seria assim foi o próprio dono do apelido. Assisti à conversa de Mestre Jacaré e Fábio Gurgel com Fabrício Werdum no Nem Me Viu, e a origem da Alliance contada pelos dois fundadores é a melhor parte do episódio.

O Jacaré contou que Rolls Gracie morreu em 1982 e que ele foi o último faixa-preta graduado pelo Rolls. Em 1985 começou a dar aula sozinho, primeiro numa academia no Leblon e depois numa academia de judô em Ipanema. Segundo ele, o professor de judô saiu, o jiu-jitsu tomou conta do espaço e as competições começaram a aparecer.

Por que a Alliance não se chama Jacaré

Em 1989 o Fábio recebeu a faixa-preta. Ele já dava aula no Clube Federal e tinha uma equipezinha própria no Rio. Os dois se juntaram e abriram a academia Master. O Jacaré explicou que nunca quis o apelido dele na fachada, porque queria uma coisa mais democrática, em que o Fábio e os outros também pudessem crescer.

Depois Alexandre saiu e abriu outra academia no Leblon. Segundo o Fábio, os alunos do Jacaré começaram a se enfrentar nos campeonatos sem sentido nenhum, porque todos tinham sido criados juntos. Em 1993 eles decidiram botar todo mundo debaixo de uma bandeira só, com um único objetivo: ser a maior equipe de jiu-jitsu do mundo. Daí veio o nome Alliance.

O Fábio vê nessa escolha do mestre uma lição de liderança.

“A liderança que não cria líder morre.”

Fábio Gurgel, no Podcast Nem Me Viu · 0:27:39

Hoje, pelas contas dos dois, a Alliance está em 29 países e foi 13 vezes campeã mundial por equipes, quase o dobro da segunda colocada, a Gracie Barra, com sete. O Fábio atribui isso menos ao nome e ao logo, uma águia dentro de um triângulo, e mais à consistência: manter a filosofia da primeira escola do Jacaré em Ipanema e continuar juntos por décadas.

A noite de 1991 contra a luta livre

O Werdum quis saber do desafio de jiu-jitsu contra vale-tudo de 1991, e o Fábio contou a história do começo. Ele estava se aquecendo para a final do absoluto com Amaury na Copa Nastra, na Urca, quando o pessoal da luta livre invadiu o campeonato. Carlson, Robson e Marcelo Behring levaram todo mundo para uma salinha e ficou acertado que haveria um evento. O Marcelo, de quem o Fábio era muito próximo, avisou: tinha botado o nome dele na lista.

Segundo o Fábio, ninguém falava em dinheiro. O Carlson assumiu o treinamento e a equipe treinou junta por seis meses. Rivais de competição como Amaury, Murilo, Zé Mário e Libório viraram companheiros de treino. As lutas eram sem luva, com meia hora, sem rounds, para terminar com alguém vencendo. O jiu-jitsu ganhou por três a zero.

A preleção antes das lutas, contou o Fábio, foi de João Alberto Barreto.

“Braço quebrado, dente perdido, visão perdida, tudo vai virar medalha no nosso museu. Nosso córner não tem toalha.”

Fábio Gurgel, no Podcast Nem Me Viu · 0:55:03

O Jacaré completou com a bagunça da porta. O evento foi no Grajaú Country Club, um ginásio pequeno onde cabiam mil pessoas, e havia umas três ou quatro mil tentando entrar. Ele lembra de tiro disparado pela polícia e de levar meia hora para atravessar a multidão até o vestiário.

Carlinhos Gracie e o jiu-jitsu fora das Olimpíadas

Os dois dedicaram elogios a Carlinhos Gracie. O Fábio o chamou de visionário: em 1993, mesmo ano da Alliance e do UFC, ele saiu da federação e fundou a Confederação Brasileira, enquanto muita gente ria da ideia de um jiu-jitsu mundial. O Jacaré, que treinou com o Carlinhos quando os dois eram alunos do Rolls, lembrou dos tempos em que o público chupava laranja na arquibancada e jogava o bagaço em quem estava lutando.

Perguntado se o jiu-jitsu deveria virar esporte olímpico, o Fábio disse que não defende a ideia. Para ele, quem faz o jiu-jitsu são as academias, a IBJJF funciona como uma entidade privada e sem burocracia de governo, e o mercado é livre.

“No jiu-jitsu, quem ganha dinheiro é todo mundo que constrói uma boa academia.”

Fábio Gurgel, no Podcast Nem Me Viu · 1:01:47

Faixa-preta no pedestal, Gordon Ryan e o Werdum de roxa

Tem também opinião forte sobre o tatame. O Fábio disse que é totalmente contra academias que proíbem o menos graduado de chamar o faixa-preta para treinar, porque a faixa virou proteção para quem não quer se expor. O Jacaré concorda, desde que o ambiente seja de respeito.

O Jacaré, que se definiu brincando como um coroa de faixa vermelha e branca, contou que a disciplina mudou com os anos. Antigamente, quem chegava atrasado pagava flexões. Hoje ele separa o atleta, que precisa chegar meia hora antes do treino, do aluno comum que depende do trânsito e do trabalho. O Fábio defendeu ainda as faixas intermediárias criadas pela federação para as crianças: antes, segundo ele, um garoto podia passar anos na mesma faixa amarela, o que desmotivava qualquer um.

Sobre Gordon Ryan, o Fábio separou as coisas: o americano faz o grappling de entretenimento muito bem e abriu caminho para atletas ganharem dinheiro, mas quem quer ter escola não deve seguir aquele modelo. O Jacaré acrescentou que achou o Gordon respeitoso pessoalmente e que ele talvez encarne um personagem.

E teve a história que mais fez a mesa rir. O Jacaré contou que, num Pan-Americano de faixa-roxa, o Werdum venceu no absoluto um aluno dele de 150 quilos, que chegou cansado, e depois ficou provocando ao lado da torcida da Alliance. O Jacaré perguntou o nome do rapaz e mandou ele procurar outro lugar. A história foi contada entre risadas, com o Werdum sentado à mesa ao lado dos dois.

Fica da conversa a sensação de que a Alliance nasceu de uma decisão pequena, tirar um nome da porta, que acabou definindo tudo o que veio depois.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.