Dos Nossos Podcast · Fábio Gurgel, Mário Reis
Fábio Gurgel conta como Carlson Gracie inventou o creonte no jiu-jitsu
No Dos Nossos Podcast, o fundador da Alliance e o Mário Reis lembraram Carlson, a guerra contra Mark Kerr, o triângulo da faixa e o jeito novo de formar faixa-preta.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Dos Nossos Podcast, publicada em 8 dez 2025 (1:58:16).
Todo mundo que treina jiu-jitsu já ouviu alguém ser chamado de creonte, o aluno que troca de academia. No Dos Nossos Podcast, o Fábio Gurgel contou de onde veio a palavra: foi o Carlson Gracie que pegou o nome de um personagem traíra de uma novela da Globo e passou a usar para quem saía da academia dele.
O Fabão dividiu a mesa com o Mário Reis e com o anfitrião, Fabrício Werdum. Assisti às quase duas horas e saí com a sensação de ter ouvido uma aula de história e outra de gestão de academia na mesma conversa. Separei o que mais vale a pena.
Carlson, o creonte e a confiança antes de 1991
Segundo o Fábio, o Carlson dava apelido para todo mundo e tratava como traíra quem saía da academia. Na mesma época passava na Globo uma novela com um personagem traidor chamado Creonte. O Carlson juntou as duas coisas e a comunidade do jiu-jitsu adotou o termo. Depois vieram as variações, como o croata, que era traidor mas gente boa, e essas, lembrou o Fábio, já não eram do Carlson.
“Quem sair da academia é traíra, logo é um creonte.”
Fábio Gurgel, no Dos Nossos Podcast · 1:42:16
Para o Fábio, o Carlson foi disparado o maior treinador de jiu-jitsu que o mundo já produziu. Ele contou que o último campeonato que viu a academia do Hélio Gracie ganhar foi em 1985; depois disso, só dava Carlson até a criação da confederação. Se tivesse de definir o Carlson numa palavra, disse, seria generosidade: foi ele quem se colocou contra a lógica de pôr a família sempre em primeiro lugar e passou a botar os alunos na frente.
O Fábio treinou seis meses com o Carlson para o desafio de vale-tudo de 1991 contra a luta livre. Ele conta que estava apavorado, porque nunca tinha brigado nem na rua, e que no fim da preparação o mestre chegou para ele com uma previsão.
“Você não vai tomar um tapa na cara nessa luta.”
Fábio Gurgel, no Dos Nossos Podcast · 1:45:23
No vestiário, depois das vitórias de Wallid Ismail e Murilo Bustamante, o Hugo Duarte subiu no ringue para ganhar por W.O. de um adversário que estava machucado. O Carlson, segundo o Fábio, disse que ele ia ganhar rápido do Denilson Maia e depois pegaria o Hugo também. Não aconteceu, porque invadiram o ringue depois da vitória do Fábio e o evento acabou. Mas ele acha que foi o jeito do Carlson tirar a pressão da luta de fundo.
Doze minutos contra Mark Kerr
A produção mostrou a luta do Fábio contra Mark Kerr, que abre o filme sobre o americano. Era um round único de meia hora. O Fábio contou que puxava para a guarda havia muito tempo, estava exausto e perguntou ao corner quanto faltava. Achava que eram uns três minutos. Faltavam doze.
Desistir não passava pela cabeça dele, pelo jeito como foi criado no jiu-jitsu. Então resolveu mudar o ritmo: deixou o Kerr passar a guarda, repôs, parou de empurrar. Segundo ele, terminou os 30 minutos mais descansado do que estava aos 18. O olho estava muito machucado, os médicos não deixaram ter os rounds extras de dez minutos e a luta foi para a decisão dos juízes, algo que ele diz ter sido meio fora da regra. Mesmo assim, chama aquela derrota de uma das grandes vitórias da carreira, porque aprendeu que a cabeça sabota antes do corpo.
O fraco que fica forte
Boa parte da conversa foi sobre como o jiu-jitsu mudou. O Fábio lembrou que antes o novato chegava, ganhava um kimono e era jogado no tatame para apanhar. O jiu-jitsu, na visão dele, estava expulsando gente. O Mário completou que na academia do Carlson a regra era só os fortes sobrevivem.
“A real filosofia é você fazer o fraco ficar forte.”
Fábio Gurgel, no Dos Nossos Podcast · 0:19:30
Hoje, segundo o Fábio, a Alliance tem 304 escolas em 32 países e uma plataforma com mais de 930 professores estudando a metodologia. A academia de São Paulo, que em 2009 lotava com uns 100 alunos, passou de mil, com mais de 250 alunos particulares. A equipe soma 15 títulos mundiais por equipe no masculino, 10 no feminino e 4 no juvenil. O Fábio disse que prefere que o número de escolas diminua a aceitar academia Alliance que entrega jiu-jitsu ruim.
Pela metodologia deles, dá para chegar à faixa-preta em 1.275 aulas, mas como a média real é de 2,5 treinos por semana, a maioria leva de oito a dez anos. O atleta competidor pode encurtar esse caminho, e o professor decide caso a caso. O Fábio contou o exemplo de dois garotos do Piauí: um foi campeão mundial de roxa e subiu; o outro perdeu a chamada, levou W.O. e ficou um ano para trás. Ele também explicou que a história de pular da roxa direto para a preta começou com Sérgio Penha, aluno de Osvaldo Alves, e que hoje a federação não permite mais.
Mário Reis, o triângulo da faixa e o primeiro Mundial
O Mário e o Werdum têm o mesmo currículo: campeões mundiais juntos na azul, vice na roxa, terceiros na marrom e campeões mundiais na preta, graduados no mesmo instante pelo Sylvio Behring. O Mário contou que aprendeu a fazer drills observando os atletas de Osvaldo Alves, e que foi ele quem ensinou ao Werdum a raspagem de helicóptero para vencer o Léo Leite, que tinha ganhado dele uma semana antes.
No primeiro Mundial de preta, o Mário finalizou o Fredson Paixão num triângulo na semifinal e ganhou a final do Alexandre Soca, com o Hélio Gracie e a família inteira torcendo do outro lado no Tijuca Tênis Clube. Ele contou que perguntou a um aluno se estava ganhando, entendeu que estava empatado quando o aluno dizia que ele estava perdendo, e montou para virar.
O Werdum lembrou do triângulo da faixa, marca do Mário. Quando ainda era faixa-azul, o Mário encaixou o golpe no Zé Mário Sperry, que levantou com ele no triângulo em vez de bater. No dia seguinte, perguntaram ao Zé como sair daquele triângulo.
“Não deixa pegar na faixa.”
Mário Reis, no Dos Nossos Podcast · 0:46:03
O Mário disse que a posição deu títulos a vários alunos, como o Nicholas Meregali, que venceu o Isaque Bahiense com ela nos segundos finais. Sobre o Meregali, falou com carinho: foram sete réveillons juntos, e ele atribui a saída do aluno a um período de depressão, sem mágoa.
Gordon Ryan, Marcelinho e o ADCC pela porta dos fundos
Sobre o Gordon Ryan, o Fábio disse ter total respeito, porque ele lutou com todo mundo e ganhou. Lembrou que estava na Finlândia quando o Leandro Lo venceu o Gordon no ADCC e que, na opinião dele, o Xande também foi superior ao americano naquele torneio. O Mário foi mais longe e disse que quase tudo o que a turma do Gordon usa sem kimono foi criado pelo Marcelinho Garcia, fora as chaves de pé.
O próprio Marcelinho, contou o Fábio, entrou num ADCC de última hora, depois de ter perdido a seletiva. Recebeu a ligação na véspera, o Fábio mandou ele levar o tênis para a academia e ele perdeu o peso na esteira. O Werdum também entrou no primeiro ADCC dele pela porta dos fundos: pediu vaga à organização no lobby do hotel e, no dia seguinte, ficou com a vaga de um atleta que teve problema de visto. Terminou em terceiro no peso e segundo no absoluto.
O que fica da conversa é o respeito que os três têm pelo Carlson e, ao mesmo tempo, a certeza de que o jiu-jitsu precisava deixar de ser só dos fortes. O Carlson formava campeões fazendo cada aluno acreditar em si. O desafio de hoje, como o Fábio resumiu, é fazer isso com mil alunos numa academia só.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.