Pura Connection · Fábio Gurgel
Fábio Gurgel diz que o jiu-jitsu casca grossa expulsa alunos da academia
O líder da Alliance conta como montou a metodologia de aulas da equipe e por que acha que o professor tem a missão de manter o aluno no tatame.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 22 mai 2023 (1:25:55).
O Fábio Gurgel tem uma briga antiga com um jeito de dar aula que muita academia ainda usa: turma misturada, aquecimento puxado, técnica solta e rola até sobrar só quem aguenta. No Pura Connection, gravado em São Paulo, o líder da Alliance disse com todas as letras que esse modelo espanta gente do jiu-jitsu.
Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi a franqueza. O Fábio admitiu que fez tudo isso nos anos 90, quando queria treinar o mais duro possível e botar os alunos no mesmo ritmo. Foi olhando para as gerações anteriores, e vendo muito professor bom desaparecer, que ele mudou de rumo.
“Aí o jiu-jitsu está expulsando as pessoas, porque elas não vão entendendo o que estão supostamente aprendendo.”
Fábio Gurgel, no Pura Connection · 0:19:46
Defesa pessoal no começo, competição como opção
O ponto de partida do Fábio é histórico. Segundo ele, o jiu-jitsu se espalhou no Brasil vendido como a forma mais eficiente de defesa pessoal, porque os lutadores venciam os combates e as academias ensinavam aquilo. Ele lembrou que cresceu num Rio em que saber se defender fazia diferença no dia a dia. Só que, na leitura dele, a dor da sociedade mudou.
Por isso a Alliance passou a vender o jiu-jitsu como ferramenta de desenvolvimento pessoal, com a defesa pessoal vindo a reboque. O Fábio contou que a equipe de competição continua existindo e que ele adora campeonato, mas que 99% da escola foi pensada para entregar um jiu-jitsu que qualquer pessoa consiga praticar.
A defesa pessoal, para ele, é a porta de entrada. Ele explicou que o instinto de quem não sabe lutar segue um padrão, e que a técnica do jiu-jitsu nasceu para vencer esse instinto. Quando o aluno entende isso no primeiro contato, entende também por que a técnica existe. Depois vêm as sequências, a pressão e o controle emocional, que é onde o empresário que vive sob pressão se reconhece no tatame.
Ele também deixou claro que não vê a defesa pessoal como ponto final. Citou os Valente como gente que faz um trabalho maravilhoso, mas disse que não defende a defesa pessoal como fim do caminho e que, na visão dele, os próprios Valente hoje já dão treino de jiu-jitsu como continuação.
Como nasceu a metodologia da Alliance
A virada, segundo o Fábio, veio num seminário na Alemanha, nos anos 90. Um aluno contou que era instrutor de outra modalidade e que o professor dele tinha 50 mil alunos. A Alliance, na época, devia ter uns mil. O Fábio foi assistir a uma aula dessa modalidade e não viu nada de interessante em termos marciais, mas viu um sistema em que o aluno sabia exatamente onde estava e o que precisava fazer para subir, sempre com metas bem perto.
“O jiu-jitsu está fazendo tudo errado. A gente tem o melhor produto, mas não consegue ter ninguém.”
Fábio Gurgel, no Pura Connection · 0:48:17
A base que ele tinha era o currículo de 36 aulas que o Jacaré usava, escrito na parede da academia e usado nas aulas particulares. O desafio era levar aquilo para a aula coletiva, onde o aluno vem hoje, falta amanhã e volta daqui a três dias.
A solução foi enxugar o básico em três aulas. A primeira, contou o Fábio, era quase comercial: convencer o sujeito de que o jiu-jitsu é incrível. As outras duas situavam o aluno no mapa: o que é guarda, passagem, montada e costas. Com isso, ele podia cair em qualquer aula da turma de iniciante e entender. Se a aula do dia fosse uma raspagem com a mão na perna ou uma tesourada, eram variações de um tema que ele já conhecia.
O Fábio disse que a metodologia tem mais de 20 anos e que mudou muito nesse tempo. O programa de iniciante já teve 25 aulas e caiu para 20, com mais foco em defesa pessoal. Segundo ele, o que mais ajudou foi aceitar as imperfeições e ir ajustando com o que os professores traziam.
Graduação com caminho claro
Um dos trechos mais interessantes foi sobre graduação. O Fábio comparou com a escola: lá o aluno é obrigado a ir, tem controle de faltas e prova. No jiu-jitsu antigo, dois colegas entravam juntos, um treinava três vezes por semana e o outro aparecia de vez em quando, e o segundo às vezes rolava melhor por talento.
Ele citou o caso de um capoeirista muito conhecido que, com três aulas, já se virava no rola sem saber fazer uma fuga de quadril. Por isso, segundo ele, não dá para graduar por desempenho. O processo tem que ser individual, com o aluno sabendo onde está e o que falta. Ele lembrou que o caminho que as empresas tentam desenhar para o cliente o jiu-jitsu já tem pronto, com faixas e graus, e só falta contar isso ao aluno.
“O jiu-jitsu tem a função de melhorar exatamente esse cara.”
Fábio Gurgel, no Pura Connection · 0:29:45
Essa frase veio como resposta ao professor que diz que certo aluno não serve para o jiu-jitsu. Para o Fábio, manter o jiu-jitsu como clube fechado de casca grossa é a coisa mais fácil do mundo, e é justamente o que impede a arte de chegar à sociedade. Mesmo assim, ele defende o treino duro na hora certa, depois de o aluno estar preparado.
“Tem um conceito que falta muito na nossa sociedade hoje em dia, que é o valor do sacrifício.”
Fábio Gurgel, no Pura Connection · 0:43:29
Compartilhar, estudar e crescer lá fora
O Fábio contou que o curso Viver de Jiu-Jitsu virou online por sugestão de um amigo faixa-preta e que, nesse caminho, deu aula para um investidor americano de marketing chamado Mark Ford, autor de um livro enorme em que conta aos concorrentes como a empresa dele funciona. A lição que ele tirou foi explicada com uma chave de braço: se você me ensina a defender o golpe que me pega todo dia, você é obrigado a evoluir.
“Quanto mais eu compartilho, mais eu ando, e às vezes mais rápido.”
Fábio Gurgel, no Pura Connection · 1:11:30
Ele também falou da cultura de leitura na equipe. Segundo ele, a Alliance tem uns 20 professores entre a Vila Olímpia e os Jardins, em São Paulo, e é difícil chegar num intervalo de aula sem pegar algum deles lendo.
O plano agora é outro. O Fábio contou que a Alliance sempre foi licenciadora de marca e método e que está começando a ter academias próprias, a dos Jardins e uma em Londres. A meta, segundo ele, é chegar a 20 academias em 3 anos, mais fora do Brasil do que aqui. Para formar gente, a equipe criou um Instituto que banca jovens atletas e ao mesmo tempo os prepara para dar aula. Dois deles, disse, vão passar sete meses em Londres.
O que fica da entrevista é a cobrança do Fábio para que o professor de jiu-jitsu estude, fale inglês e pense no que é melhor para a arte como um todo. Ele chama de romantismo a resistência a isso. Dá para discordar de um ponto ou outro, mas é difícil sair da conversa sem repensar como a própria academia recebe quem acabou de chegar.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.