Pura Connection · Jonathas Gracie
Jonathas Gracie diz que o no-gi foi o jeito dos americanos baterem o Brasil
O campeão mundial fala do sem kimono, da guarda que o Guigo assumiu para ele viajar e da derrota na Rússia que mudou sua conduta.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 20 jan 2025 (1:27:20).
Jonathas Gracie tem uma teoria sobre o crescimento do jiu-jitsu sem kimono nos Estados Unidos, e ele mesmo avisa que pode soar polêmica. Segundo ele, até pouco tempo os campeões mundiais eram todos brasileiros, e o americano, que ama a arte e é muito competitivo, precisou achar um terreno onde pudesse ganhar. Esse terreno, na visão dele, foi o no-gi.
“Eles experimentaram o no-gi para igualar o nível. E passou, o americano passou.”
Jonathas Gracie, no Pura Connection · 1:07:23
Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me prendeu foi ver um cara de 27 anos falando de carreira com uma clareza rara no nosso meio. Ele saiu da rua em São Paulo, passou anos morando dentro de academia e hoje diz que chegou a 2025 com a vida arrumada. O no-gi entra nessa conta: ele ama o kimono, mas sabe que o sem kimono é que paga as contas lá fora.
Kimono por amor, sem kimono por necessidade
O Jonathas contou que treina as duas modalidades todo santo dia. Quando perguntado de qual gosta mais, não hesitou: o kimono. Segundo ele, no no-gi a luta vira muito ritmo e cárdio, de quebrar e minar o adversário. De kimono, você mostra que é superior: pega uma pegada que o outro não sabe resolver e já está nas costas dele.
Mesmo assim, ele diz que o no-gi é necessário para a carreira e para a vida. Lembrou uma fala de Roger Gracie no próprio Pura Connection: o Roger de 40 anos nunca vai ganhar do Roger de 30. O Jonathas faz a mesma conta sobre ele. Acha que para de lutar lá pelos 33 ou 35 anos e precisa construir uma renda antes disso. Até agora, contou, não recebeu nenhuma proposta para lutar de kimono.
Daí vem um recado para os professores brasileiros. Segundo ele, aqui existe a cultura de treinar sem kimono só na sexta-feira, enquanto nas academias americanas tem aula das duas modalidades todo dia. Citou como exemplo a academia de Marcelo Garcia, que, até onde ele sabe, dá kimono de manhã e sem kimono à noite. O pedido dele é que os professores estudem o no-gi e coloquem na grade diária.
Ele também contou de onde veio a vontade de provar coisa no sem kimono. Ficou com raiva quando ouviu um americano dizer que brasileiro não sabe defender chave de pé. Pediu ao empresário para enfrentar todo mundo da categoria que ataca calcanhar.
“Pode me dar todo mundo de chave de pé. Pode me pegar outra coisa, mas chave de pé não vai pegar.”
Jonathas Gracie, no Pura Connection · 0:40:10
O Guigo assumiu a guarda para ele viajar
A parte mais bonita da conversa é sobre Guigo. O Jonathas morava com cerca de 20 pessoas dentro da academia dele, entre crianças e adultos. Menor de idade, sem RG, CPF ou passaporte, e sem falar com os pais, ele não tinha como tirar visto para lutar o Mundial.
Segundo o Jonathas, o Guigo achou o endereço dos pais no cartório, conseguiu o telefone e ligou para o pai dele no viva-voz pedindo a assinatura. O pai respondeu que não se metia nisso. O Guigo desligou e decidiu na hora: se ele não tem pai, vai ter um agora. Gastou dinheiro, pegou a guarda do menino e avisou que ficaria responsável por ele até os 21 anos.
Na fila da imigração, contou, eram cinco atletas dizendo as mesmas coisas. Os quatro primeiros tiveram o visto negado. Ele foi o último e passou, porque o nome dele estava na guarda do Guigo. Foi em 2016, e segundo o Jonathas ele saiu daquele Mundial campeão na categoria pena e terceiro no absoluto.
Quando pediu para sair da academia, o próprio Guigo pagou a passagem para os Estados Unidos. O motivo, segundo o Jonathas, era o que as câmeras mostravam: de madrugada e bem cedo, ele era o único subindo corda e treinando entrada de queda.
“Você não sabe como vai chegar, mas usa todas as ferramentas para chegar. Você sabe treinar.”
Luiz Guilherme (Guigo), no Pura Connection · 0:31:51
Dez anos na Atos e o treino do Guilherme Mendes
Nos Estados Unidos, ele passou por San Diego e Las Vegas até o amigo Lucas Barbosa, o Hulk, chamar para a Atos. Ficou dez anos lá. O Jonathas credita a André Galvão o que aprendeu sobre montar treino, descansar e escolher onde evoluir. A lição, segundo ele, foi parar de pensar em ganhar campeonato e pensar em evolução: se a categoria dele joga muito de guarda fechada, o treino é para não entrar nela e para sair dela.
Hoje ele treina com Guilherme Mendes. O Jonathas contou que o Guilherme chega de canto e dá uma tarefa sem explicação. Numa delas, mandou que todas as passagens de guarda viessem depois de uma guilhotina. Foram duas semanas assim, e ele finalizou o adversário seguinte pelo pescoço, porque o Guilherme tinha estudado o cara por ele.
Ele descreveu um treino das 6h às 9h30 com kimono e sem kimono misturados, e dois parceiros que admira. Tainan Dalpra usa os 30 minutos de drill para treinar queda com um faixa-preta de judô. Kaynan Duarte, segundo ele, é o mais maduro de todos, e um dos objetivos dele hoje seria ganhar de Gordon Ryan, se o americano voltar a lutar.
A derrota na Rússia
O Jonathas não esconde o erro. Tinha prometido a si mesmo lutar uma vez por mês e aceitou uma luta na Rússia faltando dez dias. Não leu o contrato, que previa a regra EBI, com desempate começando nas costas ou no braço. Ele conta que achou que tinha vencido no tempo normal, a luta seguiu, e no desempate o adversário escapou de uma chave de braço faltando um segundo.
Segundo ele, perdeu a cabeça, jogou um telefone de lado e só depois foi pedir desculpa ao adversário, ao dono do evento e ao técnico. Levou bronca do empresário, Viktor Doria, que disse que atitude assim põe em jogo o nome dele, o da equipe e o do técnico.
Depois disso criou um ritual: uma semana antes da luta senta com o Dória; no dia, liga para a terapeuta, que lembra alguns tópicos; uma semana depois, conversa com o Dória e o Guilherme sobre o que errou e acertou.
O que fica da conversa
O que ficou para mim foi a ideia de que o jiu-jitsu não sustenta ninguém sem estrutura em volta. O Jonathas contou que trocava aula particular por aula de economia com alunos investidores, que viu campeão mundial entrar em depressão depois do título e que não quer passar o dia inteiro dando aula para sobreviver. Agora quer usar a carreira para mostrar ao sobrinho Davi, e a outros meninos como ele, que dá para mudar de vida pela luta.
Sobre Mica Galvão, um possível rival, ele prefere guardar a lembrança dos dois trabalhando juntos em campeonato, com o pai do Mica dormindo no tatame. Se a luta vier, vem. Até lá, ele diz que foca em si mesmo.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.