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Pura Connection · Rodrigo Comprido

Rodrigo Comprido: o voto solitário contra o heel hook e a saída da Alliance

O campeão dos anos 90 fala de estratégia, de Léo Vieira, de Carlson Gracie e de por que a família Gracie segue no centro da história.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 5 jun 2023 (1:41:31).

Quando a IBJJF consultou gente do meio sobre liberar a chave de calcanhar (o heel hook) para faixas marrom e preta no sem kimono, a resposta foi quase unânime. Quase. Segundo Rodrigo Comprido, todo mundo votou a favor e ele foi o único contra. Ele contou isso no Pura Connection, numa conversa longa em que também falou da saída da Alliance, da amizade de infância com Léo Vieira e de um lado pouco conhecido de Carlson Gracie.

“Todos foram favoráveis. Eu fui o único que foi contrário.”

Rodrigo Comprido, no Pura Connection · 1:31:34

Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi a clareza com que ele separa as coisas: o que é regra, o que é opinião, o que é fato histórico. O Comprido, que hoje dá aula em Chicago, começou a treinar em 1993 e viveu a fase em que o jiu-jitsu deixou de ser coisa de rivalidade de academia para virar esporte mundial.

Por que ele votou contra o heel hook

O argumento dele é de risco. Ele disse que tem alunos que se machucaram com a chave de calcanhar e ficaram muito tempo parados. E fez uma conta simples: o professor não quer o aluno machucado, o atleta não quer ficar sem competir, a federação não quer perder inscrição e o evento não quer perder a estrela da noite.

Ele não se coloca contra a posição em si. Admitiu que, treinando mais, a gente defende melhor e se machuca menos. Mas comparou com a chave cervical: tem coisa que causa mais dano do que benefício. O que ele não entende, nas palavras dele, é mostrar esse jogo para um faixa-branca que ainda não sabe nem se mexer direito.

No meio desse assunto, ele contou uma história que me fez rir. Disse que viu um vídeo de John Danaher falando da importância da parte de baixo do corpo e que quase saiu achando que a ideia tinha sido dele. Só que, no próprio vídeo, o Danaher conta que quem explicou aquilo foi Dean Lister, campeão do Abu Dhabi com chave de pé. Segundo o Comprido, o Danaher fala tão bem que, se você não prestar atenção, sai com a impressão errada.

Sobre o sem kimono, ele acha que o barulho é maior do que o tamanho. Chamou de minoria barulhenta e lembrou que o que está espalhado pelo mundo é o jiu-jitsu de kimono, com Brasileiro, Europeu, Pan-Americano e Mundial lotados.

“É uma minoria barulhenta.”

Rodrigo Comprido, no Pura Connection · 1:34:46

Cabeça blindada e amizade com Léo Vieira

O Comprido se descreve como um competidor de estratégia. Disse que existem os naturais, como Léo Vieira e Nino Schembri, que parecem estar sempre vários passos à frente, e os que se impõem pelo físico. O caso dele era outro: saber o que podia e o que não podia fazer e fazer o adversário acreditar no que ele queria.

“Eu sempre soube como fazer o meu adversário acreditar no que eu queria que ele acreditasse.”

Rodrigo Comprido, no Pura Connection · 0:11:41

Ele contou que estudava todo mundo: ponto forte, ponto fraco, quando acelerar, quando segurar o ritmo. E que desenvolveu uma espécie de audição seletiva na hora da luta, para ouvir só as vozes certas na beira do tatame. Segundo ele, foi assim que ganhou de muita gente melhor do que ele.

Com o Léo a história é antiga. Os dois são amigos desde os nove anos. Metade dos amigos da rua foi treinar com Bolão e a outra metade com Jacaré. O Léo começou cedo e, quando o Comprido voltou a treinar, já era faixa-roxa e instrutor da academia. Ele lembrou de um treino em que achou que ia finalmente pegar o amigo num estrangulamento cruzado. O Léo foi ficando em pé, fez uma parada de mão e escapou. O Comprido jura até hoje que deixou.

Ele também contou como surgiu a famosa cambalhota do Léo pelas costas: numa luta, o adversário levantou o quadril, o Léo sentiu o desequilíbrio e resolveu jogar o corpo todo para a frente. Para o Comprido, isso só acontece com quem entende a mecânica do movimento.

A saída da Alliance e o racha da Brasa

O apresentador tocou num assunto delicado: as rupturas de equipe. O Comprido disse que não tem problema em falar e foi direto. A saída da Alliance, segundo ele, foi por relacionamento pessoal, sem nada de dinheiro ou negócio. E fez questão de dizer que não tem nada contra a equipe, onde ainda tem muitos amigos.

Ele lembrou quem o formou. O Jacaré foi professor dele até a faixa-roxa, quando se mudou para os Estados Unidos. Na mesma época o Léo foi para São Paulo. Quem ficou foi o Magrão, que ele descreveu como irmão do Fábio, dono da Alliance, e como a pessoa com o jogo mais parecido com o dele.

Depois veio a Brasa, que se dividiu entre Checkmat, Atos e Zenith. Ele contou que recebeu a notícia da saída de um parceiro justamente no dia em que estavam fechando nome e logo da equipe, e que sentiu como se tivesse perdido alguém da família. Hoje, disse, o Léo voltou a ser próximo, e ele tem só elogios para Robert Drysdale.

Carlson, Paquetá e a história do jiu-jitsu

Um dos trechos mais bonitos é sobre o Professor Osvaldo Paquetá, que filmava os campeonatos com uma câmera na beira do tatame. Segundo o Comprido, ele nunca ganhou dinheiro com isso, dava fitas para quem não podia pagar e sentava no sofá com o atleta para caçar a luta. Ele contou ainda que o Paquetá pegava dinheiro emprestado com Carlson Gracie só para guardar e devolver quando o Carlson precisasse.

O Comprido lembrou que esteve com o Carlson em dezembro, pouco antes da morte dele, em janeiro. Estava comprando um apartamento na planta e o Carlson quis entender como funcionava. Aí contou que nunca tinha tido um imóvel.

“Ele falou para mim: nunca tive um imóvel.”

Rodrigo Comprido, no Pura Connection · 0:59:46

Para ele, o Carlson foi o Gracie mais relevante de todos, porque tirou o jiu-jitsu da aula particular e das posições de defesa pessoal e criou a aula em grupo e a equipe de competição. Segundo o Comprido, a equipe do Carlson entrava num campeonato fazendo mais pontos do que todas as outras academias juntas.

Ele elogiou o trabalho de pesquisa do Robert Drysdale e disse que a crítica de que o Robert seria anti-Gracie é injusta. Contou que os livros usam recortes de jornal da época, que existem relatos de que Jacyntho Ferro teria sido o professor de Carlos Gracie, e que isso não diminui a família em nada. Citou uma frase que atribui ao mestre Robson Gracie: em vez de perguntar o que seria dos Gracie sem o Conde Koma, é preciso perguntar o que seria do Conde Koma sem os Gracie.

“O Carlos, um homem de visão, e o Hélio, um homem de coração.”

Rodrigo Comprido, no Pura Connection · 1:15:40

O que fica da conversa

O Comprido termina falando de jiu-jitsu como uma coisa só. Defesa pessoal, competição, MMA e sem kimono, para ele, saem da mesma fonte, o esporte que Hélio e Carlos defenderam e desenvolveram. Ele reconhece que o jiu-jitsu de hoje busca chegar ao ponto B do jeito mais bonito, enquanto o da época dele buscava o jeito mais rápido. Mesmo assim, acha que a arte continua eficiente e viva, com posição nova surgindo todo mês.

O que fica para mim é a lição que ele repete para os alunos: jiu-jitsu tem que ser entendido de verdade, como dois mais dois são quatro. Quem entende, cria. Foi assim com o Léo, e foi assim, do jeito dele, com o próprio Comprido.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.