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Pura Connection · Renato Santos, Ronaldo Aoqui

ADCC no Brasil: os brasileiros por trás do maior evento de grappling

Renato Santos e Ronaldo Aoqui contam como entraram na organização do ADCC, fizeram o livro do evento e agora trazem o torneio para São Paulo.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 26 jun 2023 (1:26:44).

O ADCC que lotou uma arena em Las Vegas teve dois brasileiros trabalhando nos bastidores. Renato Santos, fundador da marca de kimonos Brasa Fight, cuidou da parte comercial e da operação. Ronaldo Aoqui, criador da plataforma BJJFlix, fez o marketing e salvou o livro oficial do evento na última hora. Agora os dois estão à frente do ADCC Open no Brasil.

Os dois contaram essa história no Pura Connection, numa conversa que também passou por negócios, filantropia e pela velha discussão entre treinar com ou sem kimono. Assisti e achei que vale contar para quem acompanha o grappling e nunca pensou em quem monta um evento desse tamanho.

Como o Renato entrou no ADCC

O Renato diz que sempre foi fã do ADCC. Assistia desde a época de Ricardo Arona e lembra da edição de 2005, mas sempre achou a organização fraca. Segundo ele, isso mudou quando Mo Jassim assumiu o evento em 2017 e começou a querer algo maior.

Ele percebeu que o pessoal ia precisar de ajuda e ofereceu o que tinha: uma fábrica própria para merchandising, uma equipe e contatos. Levou também a ideia de um livro para contar a história do ADCC. Numa live, soube que o Mo Jassim não conhecia um parceiro dele, fez a ponte e apresentou o projeto pronto. O Mo topou.

“Eu não sou diretor de arte, não sou designer. Eu conecto pessoas e mato no peito.”

Renato Santos, no Pura Connection · 0:56:39

Depois disso, o Renato dividiu a equipe da empresa no meio e passou dois meses em Las Vegas recebendo tatame, pallet de água e montando estrutura. Ele faz questão de corrigir uma ideia comum: segundo ele, Abu Dhabi paga passagem e premiação, e o resto é bancado pelo Mo Jassim, que articulou tudo.

O livro refeito em uma semana

O livro foi uma novela à parte. O Renato conta que foram nove meses para fechar umas 140 páginas, com versões finais que nunca eram finais. Para as fotos, a equipe chegou a ir a Teresópolis buscar mala de filme antigo, e o jornalista Carlos Arthur, que trabalhou na Gracie Magazine, foi peça central na curadoria de imagem.

Quando o Renato mandou o arquivo para o Ronaldo, que tem formação em publicidade e anos como diretor de arte, a resposta foi direta: daquele jeito não ia sair. O Ronaldo refez tudo em cerca de uma semana. O Renato riu contando que achava que o primeiro já estava bom.

“Brother, infelizmente você não vai lançar isso aqui não. Vou refazer tudo.”

Renato Santos, no Pura Connection · 0:46:31

Além do livro, eles fizeram cards colecionáveis no estilo dos cartões de beisebol americanos, e a equipe da BJJFlix cuidou de 11 meses de marketing do evento. O Renato conta que depois do ADCC ficou com uma espécie de abstinência de trabalho, de tão intenso que foi.

ADCC Open em São Paulo e as regras sem kimono

A etapa brasileira estava marcada para 16 de julho, no ginásio do Morumbi, em São Paulo. Na época da gravação já tinha quase 500 inscritos, e o Renato disse que o limite seria 750, porque a ideia é oferecer uma experiência boa para as famílias. Quem pontuar mais nos opens do ano ganha a ida para a seletiva com hotel e passagem pagos, e quem vencer a seletiva vai ao mundial.

Os dois explicaram por que a regra do ADCC deixa a luta mais movimentada. Segundo o Renato, pegar as costas de novo rende mais pontos, então quem está defendendo não pode ficar parado. E a luta não para quando os atletas saem da área: se o cara está com a finalização encaixada, ele segue.

Tem um dado que me chamou atenção. O Renato disse que, até onde ele sabe, não existe campeonato infantil sem kimono no Brasil, e que as academias que treinam no-gi por aqui usam a regra da IBJJF. A aposta deles é que o ADCC no país mude isso. Como exemplo de que dá para chegar lá, ele citou Diogo Reis, o Baby Shark, que ganhou a seletiva e o mundial ainda muito jovem.

Kimono como negócio e como causa

O Renato morou 16 anos na Austrália como imigrante, trabalhando na construção civil. Criou a Brasa Fight com um objetivo: financiar a fundação dele. Hoje, segundo ele, a empresa tem mais de 100 funcionários e destina 2% da receita aos projetos, que incluem poços artesianos no Paquistão, onde fica a fábrica, dois orfanatos e academias no Pará. Ele tinha acabado de voltar do Paquistão depois de furar o poço número 50.

Ele diz que o aplauso dele vai para a vida que o jiu-jitsu dá ao atleta. Cita Talison Soares, que saiu da beira de um córrego em Manaus e aos 23 anos tem academia cheia na Austrália. Segundo o Renato, o Talison já recebeu propostas melhores, mas continua com ele pela parceria.

O Ronaldo tem uma trajetória parecida no sentido de abrir portas. Em Natal, por volta de 2007, abriu o que ele diz ter sido a primeira turma infantil de jiu-jitsu do estado, com um programa antibullying para convencer os pais, e também a primeira turma feminina. Em 2019 criou a BJJFlix, depois de rodar dois meses entre São Paulo e Rio carregando tripé e luz para gravar documentários.

“Aquele cara ali é faixa-preta de jiu-jitsu. Olhar com respeito, com admiração, e não com medo.”

Ronaldo Aoqui, no Pura Connection · 0:42:20

Essa frase do Ronaldo resume bem o que os dois defendem na conversa. O que eu levo daqui é que, por trás de um evento enorme como o ADCC, tem muita gente que veio do tatame e que ainda enxerga o jiu-jitsu como algo que muda vida, além de ser um campeonato.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.